Criado em meio aos impactos dos chamados “feminicídios da Páscoa”, o Observatório da Violência de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) surge com o objetivo de preencher lacunas históricas no enfrentamento da violência contra as mulheres no estado. A iniciativa articula produção de dados, pesquisa científica e diálogo com o poder público para qualificar políticas de prevenção e atendimento.
O lançamento oficial, ocorrido na semana passada, reuniu autoridades e representantes de diferentes setores, reforçando o compromisso de consolidar o espaço como ponto de encontro entre universidade, poder público e sociedade. Segundo a coordenadora do observatório, Ligia Mori Madeira, professora do Departamento de Ciência Política da Ufrgs, a ideia é que a iniciativa seja um espaço aberto de diálogo e troca.
O evento contou com a presença de representantes da administração universitária, mulheres parlamentares, representantes do sistema de justiça, da gestão pública e de políticas para mulheres, de movimentos sociais e da universidade, assessorias institucionais e legislativas, além de representantes da área da saúde do Grupo Hospitalar Conceição (GHC).
“O observatório nasceu como um projeto de extensão, reunindo esforços de pesquisadoras que já atuavam com esses temas na universidade. Concorrendo a um edital da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para fomento à extensão na pós-graduação, conseguimos recursos que permitiram dar início ao projeto”, explica Madeira.
Ela lembra que a criação do observatório ocorreu paralelamente aos feminicídios da Páscoa, dez casos que mobilizaram parlamentares gaúchas em 2025. “Em função dos eventos da Páscoa, a frente parlamentar, coordenada por Fernanda Melchiona e com relatoria de Maria do Rosário, realizou um evento na Ufrgs. Nós, do observatório, apresentamos diagnósticos e apontamentos, e a partir daí recebemos uma emenda parlamentar que possibilitou ampliar nossos objetivos e atividades.”
Para Madeira, o Rio Grande do Sul enfrenta um grande desmonte das políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero, agravado pelo governo federal anterior e por governos estaduais e municipais. “Há falta de estrutura especializada, de atendimento e de representação no interior do estado. Falta orçamento, delegacias, estruturas de acolhimento. Nos casos da Páscoa, as mulheres precisaram se deslocar 80, 100 quilômetros para buscar algum tipo de suporte do poder público”, destaca.
Reunindo dados e evidências científicas
O observatório atua a partir de três eixos centrais. O primeiro é a sistematização e qualificação da produção de dados, com a meta de gerar as melhores evidências sobre violência contra mulheres. “O observatório reúne dados para enxergar o problema geograficamente. Por exemplo, nosso dashboard mostra, em Porto Alegre, onde se concentram diferentes tipos de violência, como a psicológica ou sexual, permitindo diagnósticos precisos e estratégias adequadas de enfrentamento”, afirma Madeira.
O segundo eixo é a difusão científica qualificada e a democratização da informação. O observatório transforma evidências técnicas em conhecimento acessível à sociedade por meio de dashboards, notas técnicas, dossiês, relatórios, cursos de formação e eventos públicos. “Vivemos em um tempo em que a informação circula rapidamente, especialmente nas redes sociais. Mas políticas públicas eficazes não podem ser formuladas apenas sob o impacto da comoção. Elas exigem dados consolidados, análise comparativa e compreensão das respostas do Estado”, explica a professora.
O terceiro eixo é a incidência institucional e a articulação intersetorial. O observatório dialoga com poder público, sistema de Justiça, segurança pública, organizações da sociedade civil e instâncias legislativas, oferecendo subsídios técnicos para aprimorar políticas públicas. “Não substituímos funções estatais nem assumimos responsabilidades executivas. Nosso papel é qualificar o ambiente decisório com evidências, avaliações e recomendações baseadas em pesquisa aplicada”, esclarece a coordenadora.
Com base nesses três eixos, produção de evidências, difusão científica e incidência institucional, o Observatório da Ufrgs busca enfrentar três desafios centrais: a fragmentação das informações, a distância entre pesquisa e gestão pública, e a ausência de um espaço sistemático de monitoramento da violência de gênero no estado.
“Queremos que o observatório seja um ponto de conexão entre universidade, sociedade e poder público, promovendo diálogo, trocas e políticas públicas mais efetivas de prevenção à violência e proteção às mulheres”, conclui a professora.
O material do observatório pode ser conferido no Instagram. Futuramente será lançado o site oficial.
Ocupação faz ação pelo fim dos feminicídios
Nesta quinta-feira (19) a ocupação Maria da Conceição Tavares, no Centro de Porto Alegre, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), fez uma ação na fachada do prédio contra o aumento do feminicídio no país. Foram penduradas centenas de peças de roupas femininas em alusão as 1.568 mortes por feminicídio no Brasil no ano de 2025. No RS, desde o inicio deste ano foram registrados 23 mortes.
“O MTST RS se soma à ação do MTST Brasil de denúncia do aumento de feminicídio no país. Uma triste realidade retratada nas roupas ensanguentadas expostas na fachada da Ocupação Maria da Conceição Tavares”, destaca o movimento.
Conforme o MTST, a luta por moradia é indissociável da luta pela vida das mulheres. “Muitas vezes, é na ausência de um teto seguro que o ciclo da violência doméstica se perpetua. Exigimos políticas públicas, proteção às mulheres e o fim da impunidade.”
