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Possível apoio de Milei a Trump com envio de tropas ao Irã rompe tradição pacifista e arrisca soberania argentina, dizem especialistas

Porta-voz de Milei disse que Argentina pode dar apoio militar aos EUA em guerra contra o Irã, se Trump pedir

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Trump e o presidente da Argentina, Javier Milei, posam para foto no início da cúpula do Escudo das Américas (Foto: Saul Loeb/AFP)
Trump e o presidente da Argentina, Javier Milei, posam para foto no início da cúpula do Escudo das Américas | Crédito: Saul Loeb/AFP

O aceno do governo Javier Milei em apoiar militarmente os Estados Unidos na guerra contra o Irã, caso o presidente Donald Trump faça um pedido formal, é visto por especialistas como mais um passo de submissão a Washington, em choque com a tradição pacifista argentina, com potencial de arriscar a soberania do país. A sinalização partiu do porta-voz presidencial, Javier Lanari, ao jornal espanhol El Mundo.

Para Matheus Pereira, professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia, trata-se de “mais um capítulo da postura de submissão aos Estados Unidos encampada pelo governo Milei”. O pesquisador lembra que o país é historicamente e constitucionalmente pacifista e que, mesmo no caso das Malvinas, a Constituição de 1994 reafirma a busca pela soberania das ilhas apenas por meios pacíficos.

Na leitura de Tamara Lajtman, pesquisadora do Instituto de Estudos da América Latina e do Caribe da Universidade de Buenos Aires (Ielac), a possibilidade de envio de tropas “não pode ser entendida de forma isolada”, porque faz parte de um padrão de “alinhamento total, automático, com a Casa Branca”, que vem “redefinindo de forma muito profunda a política externa e a política de defesa da Argentina”.

A declaração do representante do governo argentino veio depois de uma sequência de falas públicas de Milei contra Teerã. Em 9 de março, durante discurso na Universidade Yeshiva, em Nova York, o presidente disse que o Irã é “inimigo” da Argentina e vinculou essa posição à sua aliança estratégica com Estados Unidos e Israel. Dias depois, no ato pelos 34 anos do atentado à embaixada de Israel em Buenos Aires, voltou a reforçar o mesmo eixo político e afirmou que “não pode haver trégua diante do terrorismo”.

Ainda não há pedido formal de Washington nem anúncio de plano concreto de participação militar argentina. O gesto da Casa Rosada, porém, já acendeu alertas. Para Pereira, a sinalização reedita uma lógica conhecida da política externa do país. “É uma reprise do envio de tropas pelo governo Menem para a Guerra do Golfo, nos anos 1990, quando a submissão aos EUA também era o mote da política externa argentina”, afirma.

“É difícil pensar que papel efetivo os militares argentinos teriam na guerra”, acrescenta Pereira.

A disposição do governo argentino tampouco encontra respaldo majoritário nem mesmo entre parte da base eleitoral de Milei. Levantamento da consultoria Zuban Córdoba, realizado entre 10 e 11 de março com 1.200 entrevistados em todo o país, mostrou que 72,7% dos argentinos são contra a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, ante 14,2% favoráveis.

Entre os eleitores de Milei no segundo turno de 2023, a rejeição ao conflito também aparece como majoritária, com 53,4% contrários. O estudo mostrou ainda que 66,4% consideram que a posição do presidente sobre a guerra não representa o conjunto dos argentinos.

Memória dos atentados e agenda externa de Washington

Na avaliação de Lajtman, o problema não está apenas na hipótese de participação militar, mas no tipo de reposicionamento internacional que ela revela. “Trata-se de uma iniciativa bem pouco transparente”, diz, ao citar outras adesões recentes do governo Milei a propostas impulsionadas por Trump. Para a pesquisadora, a política externa argentina vem sendo conduzida por “essa total adesão a iniciativas de Washington”, sem debate público e sem clareza sobre seus alcances.

“Uma coisa fundamental que tem se discutido muito nesses últimos dias é como esse reposicionamento se apoia numa instrumentalização bem sensível da própria memória histórica argentina”, argumenta. Segundo ela, o governo reforça o alinhamento com Estados Unidos e Israel ao retomar os dois atentados que marcaram a história recente do país: o ataque à Embaixada de Israel em Buenos Aires, em 17 de março de 1992, que matou 29 pessoas e deixou mais de 200 feridos, e o atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 18 de julho de 1994, que deixou 85 mortos e mais de 300 feridos, no episódio mais letal desse tipo na história argentina. O Irã nega qualquer participação nos atentados, classifica as acusações argentinas como infundadas e politicamente motivadas.

“Não se trata claramente de cooperação internacional, mas de uma possibilidade de integrar uma agenda de guerra, extrarregional, vinculada a toda essa escalada de tensões globais”, acrescenta Lajtman. Na leitura da pesquisadora, esse movimento implica “uma redefinição profunda do papel das Forças Armadas na Argentina”, que passariam a ser potencialmente mobilizadas fora do entorno regional e da defesa do próprio país, em função de interesses externos, “nesse caso, estadunidenses”.

Da guerra no Oriente Médio ao alinhamento continental

A sinalização argentina ocorre no contexto da guerra deflagrada em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram o território iraniano mesmo com negociações nucleares em curso. Desde então, Teerã passou a responder militarmente, ampliando a guerra regional e pressionando aliados de Washington no Oriente Médio.

Ao longo da escalada, Trump tentou internacionalizar o conflito. O presidente dos EUA pediu apoio de aliados patrulhar o Estreito de Ormuz, ponto vital para o fluxo global de petróleo.

Para Lajtman, a disposição argentina em mergulhar na guerra precisa ser lida junto de outros movimentos recentes do governo argentino. Ela cita, por exemplo, a preocupação em torno do porto de Ushuaia, estratégico para o Atlântico Sul e para a projeção antártica, e vê aí sinais de uma reconfiguração mais ampla, vinculada aos interesses de Washington. “É realmente um nível de alinhamento que não tem precedentes recentes”, afirma. “Nem mesmo em momentos como o de Carlos Menem.”

A aproximação com Trump também aparece no plano regional. No início de março, Milei esteve entre os participantes da cúpula que lançou o chamado Escudo das Américas, iniciativa anunciada pelo republicano em seu campo de golfe na Flórida. Apresentada como coalizão de segurança hemisférica, a articulação foi lida por pesquisadores ouvidos pelo Brasil de Fato como parte de uma ofensiva mais ampla dos Estados Unidos sobre a América Latina, combinando militarização, reorganização ideológica da direita regional e pressão sobre as soberanias nacionais.

Em 2024, o governo Milei já havia pedido formalmente que a Argentina se tornasse parceira global da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), maior aliança político-militar do Norte Global. Até o momento, o pedido não foi formalmente aprovado.

“A Argentina nesse contexto reduz totalmente uma possível margem de autonomia e se afasta definitivamente de articulações do Sul Global”, conclui a pesquisadora.

Editado por: Luís Indriunas

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