Força social

Eleições e enfrentamento à violência nos territórios são desafios apontados por movimentos populares para 2026

Em encontro promovido pela Cese, organizações defenderam a unidade para enfrentar a conjuntura política

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Encontro reuniu movimentos e organizações de diversas frentes de lutas, como urbana, indígena, do campo, de juventude, negra, das águas e florestas | Crédito: Lorena Andrade/Brasil de Fato

Dezenas de organizações e movimentos populares do campo e da cidade se reuniram em Salvador (BA) nos dias 19 e 20 de março para a 9ª edição do encontro Cese e Movimentos Sociais. Organizada pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), a iniciativa, realizada desde 2005, reúne lideranças de todo o país para construir um balanço da conjuntura e apontar caminhos coletivos de enfrentamento aos desafios sociopolíticos atuais.

Com o tema Co[i]nspiração Democrática, a edição de 2026 debateu temas como reforma agrária, mudanças climáticas, desafios dos povos e comunidades tradicionais, enfrentamento ao racismo e patriarcado, além de questões sobre ocupação das cidades e reforma urbana.

“A gente reúne organizações, parceiros, movimentos com o objetivo de refletir sobre a conjuntura e as questões estruturais, levando em conta as demandas dos movimentos, para que a gente possa escutar e coinspirar, fazer os nossos pactos em defesa de uma democracia plena. Não a democracia que temos, mas a democracia que queremos e que precisamos”, explica Sônia Mota, diretora executiva da Cese.

Aumento da violência

Um dos pontos em comum levantados pelas organizações é o aumento da violência, principalmente contra mulheres, pessoas negras, povos e comunidades tradicionais. Para Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o racismo institucional está na bases da maioria dos conflitos e da criminalização de lideranças no campo e em territórios indígenas.

“Quem promove o racismo hoje são as instituições. Pega o Congresso Nacional, misógino, homofóbico, racista, de ampla maioria de homens brancos, que não entendem as nossas necessidades, ou não querem entender. E aí, mais uma vez, aplica-se a lógica colonial. E quando se aplica a lógica colonial, há os conflitos”, ressaltou.

Organizações reforçaram compromisso com a unidade para fortalecer a defesa de direitos - Patricia Gordano/CESE
Organizações reforçaram compromisso com a unidade para fortalecer a defesa de direitos | Crédito: Patricia Gordano/Cese

Para os territórios quilombolas, a situação não é diferente. Selma Mbaye, da Via Campesina, destacou que, apesar do diálogo com o governo sobre a regularização das áreas remanescentes de quilombo ter avançado, isso não se reverteu numa maior celeridade na titulação destes espaços.

“Tem diálogo, mas é o diálogo de empurrar com a barriga. Então, as coisas não avançaram, né? Lamentavelmente, a gente precisa dizer isso. Em troca, as ameaças, as violações, as violências, sejam elas agrárias, políticas de gênero, violência doméstica, aumentaram significativamente pelos territórios”, denunciou.

Política de juros e eleições

Outro desafio apontado pelas organizações é a política de juros e seus impactos nas políticas públicas. Ayala Ferreira, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destacou como a política rentista adotada pelo mercado e Banco Central tem se apropriado de recursos que deveriam ser investidos na sociedade.

“O rentismo, através dos bancos, do mercado, se apropria, através de uma política de juros, do que poderia ser o papel do Estado no investimento de pautas sociais. Eles não querem produzir novas mercadorias e alimentar nossas necessidades. Eles querem se apropriar desse capital, se apropriando do que poderia ser o papel do Estado na implementação de ações concretas, que passam desde a demarcação de terras tradicionais até o trabalho agrário, da educação, da saúde, da moradia, da segurança”, ressaltou a dirigente.

Para Ferreira, a política de juros tem um impacto direto na disputa do processo eleitoral, que, como apontado pelas organizações, é uma tarefa central dos movimentos sociais neste ano. Para Dinamam Tuxá, as eleições são uma pauta central, e é um desafio para as organizações como pensar de forma unitária este processo.

“Eu acho que fica para a reflexão de todos nós como vamos atuar de forma conjunta contra o avanço do fascismo e contra essa política racista que hoje é alimentada. Como nós vamos atuar conjuntamente nesse processo eleitoral, nas candidaturas, nas nossas frentes de lutas, apoiar as candidaturas do MST, quilombolas, indígenas e outros”, destacou o coordenador.


Editado por: Luís Indriunas

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