tensão permanente

Em bairros atingidos por enchentes do rio Tietê, em SP, moradores convivem com medo e lutam por moradia digna

Com cheias anuais, famílias da zona leste perdem bens, adaptam as casas como podem e cobram solução do poder público

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Atingidos por enchentes durante protesto no sábado (14) no centro de São Miguel Paulista
Atingidos por enchentes durante protesto no sábado (14) no centro de São Miguel Paulista | Crédito: Divulgação/MAB

Na União de Vila Nova, e na maioria dos bairros que margeiam o rio Tietê na zona leste de São Paulo (SP), a chuva forte coloca os moradores em alerta. Vizinhos se revezam para vigiar o córrego, levantam móveis e avisam uns aos outros quando a água começa a subir. Em uma região atingida por enchentes há décadas, o verão é sinônimo de medo, perdas e noites sem dormir.

“Quando começa o mês de dezembro aqui ninguém dorme”, diz Patrícia Santos, moradora do bairro há 32 anos e integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). “Todos os dias começa a chover, aí um vai lá embaixo no córrego, volta, avisa para o outro vizinho: ‘Ó, está enchendo’. O outro vai lá: ‘Ó, já está quase alagando’. O outro vem: ‘Ó, já alagou’. Aí pronto, desespero total”.

Na casa de Emerson Maquiné, também da coordenação do MAB, a rotina se repete. Morador da União de Vila Nova há sete anos, ele divide a casa com a tia e os sobrinhos e conta que, quando a chuva aperta, o medo chega antes da água. “A gente não dorme, a gente fica preocupado”, afirma. “Quando começa a chover, as crianças ficam com medo: ‘Vai encher, mãe? Vai inundar a casa de novo?’”.

Em bairros como União de Vila Nova, Jardim Pantanal, Jardim Helena e Vila Itaim, todos na várzea do Tietê, as enchentes se repetem ano após ano. A água invade casas, destrói móveis, volta pelos ralos e mantém famílias inteiras em estado permanente de alerta. Para quem vive na região, não se trata de um episódio isolado a cada verão, mas de um problema antigo, ligado à ocupação de áreas vulneráveis, à falta de manutenção dos rios e da infraestrutura e à demora das respostas do poder público.

Desde 2020, Emerson, Patrícia e outros vizinhos atuam junto do MAB para organizar a comunidade na luta por moradia digna. São eles que lideram as reuniões com os órgãos públicos para exigir soluções definitivas, além da limpeza dos córregos e a manutenção do rio Tietê. No último sábado (14), eles participaram de uma passeata até o centro de São Miguel Paulista para dar visibilidade à situação dos bairros atingidos.

Patrícia chegou ao bairro no início dos anos 1990 e lembra de uma União de Vila Nova sem asfalto, com poucas casas e muita lama. “Quando eu cheguei aqui, a União de Vila Nova era um pântano”, conta. “Não tinha rua asfaltada, a maioria das casas eram poucas casas.” Naquele tempo, diz, a vida era dura, mas a enchente ainda não tinha a força de hoje. “Chovia e não tinha enchente.”

Com o passar dos anos, o bairro se adensou e a água passou a entrar com mais frequência e violência. Patrícia diz que a pior cheia foi a de 2025. A água tomou a sala, derrubou móveis e deixou a família sem tempo para reagir. “A água chegou aqui”, conta, apontando a altura alcançada. O berço do filho pequeno ficava no cômodo alagado. “Todo ano eu perdia os móveis.”

Quando chove, ela tenta salvar o que consegue: geladeira em cima de cadeira, sofá sobre a mesa, objetos espalhados pelo quarto de cima. Nem sempre adianta. Parte do que hoje existe na casa veio de doações de pessoas ligadas ao movimento. O filho pequeno, que cresceu vendo a água invadir os cômodos, passou a associar chuva a risco. “Hoje quando começa a chover, ele já fica chorando”, diz. “Chama para subir para o quarto, porque vai alagar.” Segundo ela, o menino já carrega as marcas de anos seguidos de enchente.

Patricia e seu filho Richard na porta de casa (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)
Patricia e seu filho Richard na porta de casa. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato) | Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato

Na mesma rua, a costureira Eunice Silva Santos tenta escapar da água como pode. Moradora da região há mais de 40 anos, ela e o marido começaram a construir um andar superior para fugir das cheias. O dinheiro acabou antes do fim da obra. Depois, o marido faleceu. Hoje, ela e a filha dormem em dois cômodos improvisados na parte de cima, os únicos com teto.

“Em cima tem a laje, mas ainda não tem nada terminado”, diz. “Quando está com chuva muito forte, a gente já vai lá para cima.” No andar de baixo, onde também funciona um pequeno bar, a água leva o que encontra. “Fica tudo boiando aí, não tem como.” Sem cobertura concluída, a laje toma chuva diretamente e a casa inteira sofre com infiltrações e goteiras. Para Eunice, a enchente não é o único medo. Há também o receio de que a estrutura não aguente.

Casas adaptadas para a próxima cheia

Na União de Vila Nova, a adaptação virou regra. Comportas de metal, móveis erguidos, puxadinhos e obras inacabadas passaram a fazer parte da paisagem. Sem solução definitiva, as famílias improvisam a própria defesa.

Na Rua Catleias, ao lado do principal córrego do bairro, o comerciante Carlucio Medeiros diz que aprendeu isso depois de sofrer prejuízo. Dono de um comércio no local desde 2010, ele conta que já viu a água cobrir a primeira gôndola. “Aí eu fiz um sistema de comporta que ajuda muito”, diz. “Quando vem a chuva, se não fosse essa comporta, certeza eu era bem mais atingido aqui.”

A proteção ajudou a reduzir os danos no comércio dele, mas não mudou a situação de quem mora ao redor. “Aqueles que não têm, por exemplo, os moradores aqui nesse meio, é os que mais são atingidos”, afirma. Carlucio lembra de uma enchente que encontrou ao voltar de viagem. “Estava aquele monte de coisa virada aqui, o prejuízo foi grande.”

O comerciante Carlúcio Medeiros tem uma loja à beira do córrego desde 2010 e investiu num sistema de comportas para tentar frear a água. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)

A solidariedade entre vizinhos ajuda a enfrentar a emergência, mas não resolve o problema. Patrícia diz que, quando a água entra, os moradores se ajudam como podem: avisam uns aos outros, retiram crianças, tentam salvar móveis, limpam as casas alagadas. A ajuda oficial, quando chega, ela considera insuficiente. “Eles querem fazer 300 cadastros para dar uns enfeites, que é uma cesta básica, dois colchões e produto de limpeza”, critica. “Mas o fogão que você perdeu, a sua cama?”

Emerson faz avaliação parecida. Segundo ele, depois da enchente, sobra às famílias recomeçar com o que conseguem levantar sozinhas. “A única coisa que chega para nós é uma cesta básica”, diz. O restante fica por conta de parentes, vizinhos e do movimento popular.

Emerson Maquiné aponta no poste as sinalizações deixadas pela Prefeitura para registrar o nível do córrego nas últimas enchentes. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)

O que moradores apontam como causa

Entre os moradores, a avaliação é que as enchentes não decorrem só da chuva forte. Eles apontam a falta de manutenção dos córregos, o assoreamento do Tietê e a operação da barragem da Penha, a cerca de 11 quilômetros rio abaixo, como fatores que agravam a situação.

Emerson resume essa leitura a partir do próprio território. “Todos os córregos, tanto do Jardim Pantanal quanto União de Vila Nova, Queralux, eles ligam esse que é o grande Tietê”, diz. Para ele, quando o rio perde vazão, a água retorna para os bairros mais próximos. O atingido afirma que, quando as comportas da barragem da Penha são fechadas, o rio “fica parado” e a enchente pode se formar em poucos minutos.

Mesmo quando o rio não transborda visivelmente, a água pode inundar as casas mais baixas pelos encanamentos. “Como o rio tá cheio, então a maioria das casas aqui que são baixas, vem pelo esgoto”, afirma Patrícia. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)

A SP Águas, órgão do governo paulista responsável pela operação da barragem da Penha, nega relação entre o fechamento das comportas e as inundações nos bairros. Em resposta à reportagem, a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, por meio da agência, afirmou que a barragem segue “protocolo técnico rigoroso” em períodos de chuva intensa e que as manobras são feitas de forma gradual, com base em critérios hidrológicos, níveis do rio e previsões meteorológicas.

O órgão informou também que mantém ações estruturais e operacionais para reduzir os impactos das enchentes em São Miguel Paulista. Entre elas, citou o desassoreamento de um trecho de 11,7 quilômetros do rio Tietê entre a antiga ponte da Nitroquímica e a foz do córrego Três Pontes. Segundo a SP Águas, mais de 180,5 mil metros cúbicos de sedimentos já foram removidos, com meta de atingir 520,6 mil metros cúbicos até fevereiro de 2027, em um investimento de R$ 72,6 milhões.

Sobre o córrego Catleias, a agência informou que atua em parceria com a Prefeitura de São Paulo para viabilizar serviços de limpeza no âmbito do programa Rios Vivos.

Marcas de água são a memória das enchentes recorrentes nas paredes das casas. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)

Enchentes viram tema de CPI

A pressão dos moradores e a repetição das cheias levaram à instalação, em 4 de setembro de 2025, da Comissão Parlamentar de Inquérito do Pantanal, na Câmara Municipal de São Paulo. A comissão foi criada para investigar as causas das inundações no Jardim Pantanal e em bairros vizinhos da zona leste e propor soluções. A instalação só ocorreu após determinação da Justiça.

Presidente da CPI, o vereador Alessandro Guedes (PT) afirma que houve resistência política para tirar a comissão do papel. “A CPI foi instalada com a força da justiça”, disse à reportagem. Segundo ele, a ideia sempre foi fazer uma investigação “propositiva”, que não se limitasse a apurar responsabilidades, mas apontasse saídas para um problema que se arrasta há décadas e envolve diferentes esferas de governo.

Patrícia aponta para a marca da última enchente na parede da casa. Acima, os vizinhos começaram a construir um novo pavimento mais alto para tentar escapar das cheias. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)

Guedes diz que uma das principais reclamações levadas pelos moradores à comissão é justamente a relação entre o fechamento da barragem da Penha e os alagamentos a montante. Segundo ele, os órgãos estaduais apresentam estudos segundo os quais, mesmo com a barragem fechada, a água não alcançaria determinados bairros. Ainda assim, a CPI decidiu aprofundar a apuração. “Estamos investigando para poder determinar exatamente o que causa o efeito barragem fechada com ruas e casas alagadas”, afirma.

Na avaliação do vereador, a repetição da cena, com comportas fechadas e bairros alagados, não pode ser tratada como coincidência sem investigação técnica mais aprofundada. A CPI também passou a discutir alternativas para reduzir as cheias. Uma delas é a Cava do Poção, na Vila Itaim, apontada por Guedes como área com potencial para integrar soluções de retenção de água na várzea do Tietê. Documentos técnicos do poder público mostram que a antiga cava de mineração, com cerca de 25 hectares e volume estimado em 9 milhões de metros cúbicos, já foi tratada em projetos ligados à recuperação ambiental e ao enfrentamento dos alagamentos na região.

Além disso, a comissão cobrou a limpeza de afluentes e buscou interlocução com o governo federal para acesso a recursos de drenagem. Segundo Guedes, a prefeitura ainda não havia acionado Brasília para buscar parceria nesse campo. Para ele, a solução depende de articulação entre município, estado e União.

Remoção ou urbanização

Parte do conflito sobre o futuro da região passa pelo destino das famílias que vivem na várzea do Tietê. A prefeitura afirma que o Plano Recupera Pantanal segue dentro do cronograma e informou que 606 famílias que ocupavam áreas de risco nos bairros Terra Prometida, São Martinho, Novo Horizonte e Vila da Paz já foram atendidas com auxílio-aluguel ou indenizações. Segundo a administração municipal, as moradias foram descaracterizadas para permitir a remoção de escombros e a construção de um gabião ao longo do rio Tietê.

Para o presidente da CPI do Pantanal, porém, a retirada de famílias não pode ser tratada como solução automática. Ele defende que parte das moradias pode ser preservada com intervenções urbanas e obras de contenção, de modo a evitar a quebra de vínculos comunitários e familiares construídos ao longo de décadas. “A prefeitura tem que proteger moradias através de obras para que a gente não quebre vínculos”, diz.

Na casa da costureira Eunice Santos, além do medo de novas inundações, ela convive com goteiras por conta de uma obra inacabada para erguer um segundo pavimento na casa. O dinheiro acabou, mas a obra não. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)

“Obras podem ser feitas para poder salvar casas, salvar famílias, salvar esses vínculos.” Segundo o Alessandro Guedes, a realocação deve ocorrer nos casos em que as famílias vivem em situação efetivamente inviável, como moradias erguidas dentro do córrego ou em áreas sem condições de segurança e dignidade.

A gestão municipal também informou investimento de R$ 59,8 milhões em novas galerias para ampliar a capacidade de drenagem no Jardim São Martinho, além de pavimentação de vias, e disse que estuda a implantação de um dique em todo o perímetro do bairro ou a construção de um parque esponja. A Subprefeitura de São Miguel Paulista, segundo a prefeitura, realiza ações permanentes de zeladoria, incluindo limpeza mecânica de córregos. O Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas monitora chuva e níveis de rios, córregos e piscinões em tempo real.

Também em resposta à reportagem, a prefeitura afirmou que desde 2021 investiu R$ 10,2 bilhões em obras, serviços e intervenções no sistema de drenagem da cidade, e que a atual gestão entregou nove reservatórios, entre piscinões e pôlderes, além de manter outros oito em obras.

A Defesa Civil estadual, por sua vez, afirmou que sua atribuição é o monitoramento climático permanente em todo o território paulista e o envio de alertas à população por meio do sistema Cell Broadcast. Segundo o órgão, a resposta local cabe à Defesa Civil municipal.

Em 2026, até agora, a União de Vila Nova ainda não enfrentou uma enchente como a de 2025. Para Emerson, isso não significa segurança. “São mais de 30 anos que a gente sofre esse impacto das enchentes”, afirma. “Eles fecham as comportas da barragem, eles escolhem o local para inundar. Eles fazem um sorteio: esse ano vai ser aquele bairro tal.”

Editado por: Nathallia Fonseca

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