RACISMO ESTRUTURAL

Casos de preconceito religioso crescem no RS e atingem mais as religiões de matriz africana

Casos disparam de dois em 2020 para 169 em 2025; mulheres negras são maioria entre as vítimas

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Segundo o Censo 2022, o Rio Grande do Sul concentra mais de 300 mil pessoas autodeclaradas de religiões de matriz africana
Segundo o Censo 2022, o Rio Grande do Sul concentra mais de 300 mil pessoas autodeclaradas de religiões de matriz africana | Crédito: Fabiana Reinholz

O número de ocorrências de preconceito religioso no Rio Grande do Sul tem crescido de forma contínua nos últimos anos. Dados da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância apontam que os registros passaram de dois casos em 2020 para 22 em 2021, 46 em 2022, 85 em 2023, 145 em 2024 e 169 em 2025, considerando dados até 17 de novembro.

Em Porto Alegre, foram registrados um caso em 2020, 12 em 2021, 18 em 2022, 43 em 2023, 64 em 2024 e 60 em 2025 (até 17 de novembro), somando 198 ocorrências no período e concentrando cerca de um terço dos registros do estado.

Segundo o Censo 2022, o Rio Grande do Sul concentra mais de 300 mil pessoas autodeclaradas de religiões de matriz africana, o equivalente a 3,2% da população, a maior proporção do país. Um levantamento feito em 2010 catalogou 71 mil terreiros no RS.

No contexto do Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial e do Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé, celebrado em 21 de março, os números evidenciam o avanço dos registros de intolerância religiosa no estado.

Dados do Disque 100, divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), apontam que as religiões de matriz africana são o principal alvo de intolerância religiosa no Brasil. Entre janeiro de 2025 e 2026, foram registradas 2.774 denúncias, evidenciando o racismo religioso estrutural, especialmente contra o candomblé e a umbanda.

Fonte: Polícia Civil do RS

Delegacia especializada surge de demanda de religiões afro

Em entrevista ao Brasil de Fato, o delegado Vinícius Nahan, titular da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância, afirma que o fenômeno está diretamente ligado ao racismo religioso. “Principalmente quando se manifesta contra religiões afro, como a umbanda e o candomblé”, afirma. “Não dá para desvincular a discriminação religiosa do racismo existente no país e no estado.”

Segundo ele, a própria criação da delegacia está relacionada à mobilização dessas comunidades. “As primeiras organizações que solicitaram formalmente a criação de uma delegacia especializada foram entidades representativas das religiões de matriz africana em Porto Alegre.”

Ao longo dos cinco anos de atuação, a delegacia mantém diálogo constante com essas lideranças. “São essas religiões que seguem sendo as principais vítimas de intolerância religiosa.”

Nahan explica que a delegacia atua como um órgão especializado no combate à discriminação, com a função de oferecer atendimento humanizado e garantir a investigação dos casos. “Muitas vezes essas vítimas não eram bem atendidas nos órgãos públicos. A delegacia surge também com esse papel de acolhimento.”

Como a unidade se dedica exclusivamente a esse tipo de crime, as ocorrências não são tratadas como secundárias. “O foco são os crimes de discriminação e preconceito, o que permite que as investigações não sejam deixadas de lado ou tratadas como algo de menor importância.”

Fonte: Polícia Civil do RS

Além das investigações, o órgão também atua na formação interna da Polícia Civil. “A gente também fomenta discussões dentro da própria instituição, orientando sobre o atendimento às vítimas e sobre como esses crimes devem ser tratados”, explica.

O delegado também relaciona o aumento dos registros ao crescimento no número de praticantes dessas religiões. “Entre os censos de 2010 e 2022, o número de adeptos praticamente triplicou no Brasil”, afirma.

No Rio Grande do Sul, esse índice é ainda maior. “Cerca de 3% da população gaúcha é adepta dessas religiões, o que representa aproximadamente 350 mil pessoas”, diz. “Com mais pessoas se identificando e se manifestando publicamente, há também maior exposição ao preconceito”, completa.

Subnotificação esconde dimensão dos casos

Apesar do aumento dos registros, Nahan alerta para a existência de subnotificação e de uma “cifra oculta” desses casos. De acordo com ele, nem todas as manifestações de intolerância religiosa chegam ao conhecimento da polícia.

Segundo ele, episódios de discriminação fazem parte do cotidiano de muitos praticantes. “Conversando com adeptos dessas religiões, lideranças ou até mesmo membros, eles sempre nos relatam que, quando estão com vestimentas, colares ou guias que os caracterizam como praticantes de religiões de matriz africana, são constantemente ofendidos por pessoas que passam na rua.”

Conforme pontua, as situações acabam sendo naturalizadas no dia a dia e raramente são registradas. “Só chegam à polícia quando extrapolam, como em conflitos mais graves ou de vizinhança”, explica.

Mulheres negras são maior parte das vítimas

Os dados também revelam um recorte importante sobre o perfil das vítimas. “Cerca de 70% são mulheres e, dentro desse grupo, metade são mulheres negras.” Conforme pontua, há uma interseccionalidade entre raça, gênero e religião que precisa ser considerada na formulação de políticas públicas.

“A gênese é a mesma: o ódio, a ideia de inferioridade e o repúdio às tradições africanas, à cultura negra e às suas expressões religiosas. O pano de fundo é o mesmo fenômeno que está se manifestando, que é o racismo.” Por isso, ressalta o delegado, datas como o 21 de março são importantes para dar visibilidade ao trabalho dos órgãos públicos no combate à discriminação religiosa.

Editado por: Marcelo Ferreira

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