Europa

França: vitória da esquerda nas eleições municipais mostra caminho para derrotar extrema direita

A brasileira Silvia Capanema, eleita vereadora, celebra vitória de candidatos imigrantes e aposta em Mélenchon para 2027

No audio source provided.
A brasileira Silvia Capanema foi eleita vereadora e o malinês Bally Bagayoko, eleito prefeito de Saint-Denis
A brasileira Silvia Capanema foi eleita vereadora e o malinês Bally Bagayoko, eleito prefeito de Saint-Denis | Crédito: Instagram/Silvia Capanema

A França realizou, neste domingo (22), eleições municipais que trouxeram um saldo surpreendente para a esquerda radical. Mais do que a manutenção de grandes cidades como Paris, Marselha e Lyon sob controle de forças de centro esquerda, o dado mais expressivo foi a vitória de candidatos oriundos da imigração, negros, árabes e muçulmanos, nas periferias — muitas vezes com plataformas que combinam serviços públicos, gratuidade de transportes e combate ao racismo.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a vereadora eleita em Saint-Denis, a brasileira Silvia Capanema, do movimento França Insubmissa (La France Insoumise, LFI), analisa os resultados, o cenário para as eleições presidenciais de 2027, o legado de Emmanuel Macron e os desafios de seu mandato no departamento mais pobre da França continental.

Capanema começa destacando o que considera o feito mais impressionante das eleições municipais. “A esquerda tradicional manteve Paris, Marselha e Lyon — as três maiores cidades. Mas o mais interessante foi a vitória nas periferias de uma esquerda radical, de ruptura, que elegeu figuras que vinham da imigração, de origem africana e árabe, muçulmanos. É uma nova categoria social, que vem das classes populares e agora vai assumir a representatividade nas periferias.”

Ela ressalta as plataformas dessas novas administrações. “São governos com plataformas democráticas de distribuição de recursos, que vão defender moradia social, redução de preços, transportes gratuitos, cantina gratuita nas escolas. Para mim, isso é mais interessante que a vitória da esquerda tradicional.”

Essas vitórias, segundo ela, são um enfrentamento direto à extrema direita. “A gente assume claramente como uma forma de enfrentar as ideias nocivas, falsas e enganosas da extrema direita. É uma visão positiva e inclusiva da imigração.”

O risco da extrema direita e a aposta em Mélenchon

Sobre as eleições presidenciais de 2027, em que Emmanuel Macron não poderá concorrer, Capanema reconhece o risco, mas relativiza as pesquisas que apontam Jordan Bardella (Reunião Nacional) como favorito. “Pesquisa não é eleição. Bardella não é visto em lugar nenhum, não fala, não tem presença. Nós temos Jean-Luc Mélenchon, que quase chegou ao segundo turno nas duas últimas eleições. Ele será provavelmente o nosso candidato.”

A vereadora lembra que a esquerda já derrotou a extrema direita antes. “Nós ganhamos as eleições parlamentares de 2024. Todas as pesquisas diziam que íamos perder, e a Nova Frente Popular ganhou. Deixamos a extrema direita minorizada. É o que vamos fazer de novo.”

Ela descreve o programa da esquerda radical. “É um programa de direitos sociais, que melhora a renda das pessoas, que retorna os serviços públicos, que resiste à guerra e às ocupações colonialistas, que propõe uma diplomacia não alinhada, muito próxima da ideia do governo Lula de multipolaridade, e que faz uma bifurcação ecológica — mais que uma transição, uma mudança ecológica profunda.”

Capanema é dura na avaliação do mandato de Emmanuel Macron. “É muito ruim. Ele vai desaparecer, não deixa descendente. Cumpriu seu papel de privilegiar os setores econômicos privilegiados, os multimilionários, com isenções de imposto. Ele vem do setor bancário, do neoliberalismo. O balanço do governo dele é muito ruim.”

Ela critica a política externa de Macron, especialmente diante da guerra no Oriente Médio. “Ele deveria usar o poder diplomático da França para negociações de paz. Na Palestina, não é capaz de ir além do reconhecimento simbólico do Estado. A diplomacia francesa não está sendo usada, está a serviço de decisões da União Europeia e de um alinhamento com os Estados Unidos.”

Capanema também denuncia a militarização crescente na França e na Europa. “Todos os orçamentos da educação, da saúde, diminuíram. Os serviços públicos estão cada vez piores. O único orçamento que aumenta é o da defesa — para comprar os armamentos que Trump quer vender para a Europa. A política de Macron cauciona esse absurdo e tira a França de todo o pioneirismo diplomático que ela poderia ter.”

O mandato em Saint-Denis: serviços públicos e luta antirracista

Sobre seu mandato em Saint-Denis, o departamento mais pobre da França continental, Capanema detalha as prioridades. “Nosso prefeito é negro, filho de pais do Mali, muçulmano. Ele vai representar muito essa luta antirracista, a promessa de igualdade republicana.”

Ela contrasta com a gestão anterior, do Partido Socialista, que aplicou uma “política neoliberal e ultrassecuritária”. “O prefeito anterior apostava em quadruplicar a segurança, armar a polícia até os dentes. Nós temos outra visão. A principal preocupação dos franceses não é segurança, é renda: como pagar a moradia, o transporte, a educação dos filhos.”

As prioridades da nova gestão são claras. “Vamos privilegiar políticas de juventude, com gratuidade de transporte forte para os jovens, gratuidade de serviços nas escolas, e uma cobertura maior na saúde complementar. Nossa plataforma é serviços públicos reforçados, principalmente em direção à juventude. O prefeito anterior foi fechando os centros de juventude; nós vamos reabri-los.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter