A manhã desta segunda-feira (23) reuniu centenas de pessoas nas ruas de São Leopoldo, em uma mobilização organizada pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). A caminhada integra a Jornada Nacional de Lutas e articula reivindicações locais com pautas estruturais da política habitacional brasileira.
O trajeto incluiu paradas diante de uma agência da Caixa Econômica Federal e da sede da prefeitura. A escolha do município se conecta diretamente ao cenário recente de enchentes nos vales gaúchos, que agravaram o déficit habitacional e ampliaram a pressão por respostas do poder público.
Na avaliação do dirigente nacional do movimento Cristiano Schumacher, a dimensão do problema exige coordenação entre cidades. “Nós estamos falando de bacias hidrográficas, nós não estamos falando de um rio que passa numa cidade só”, afirma. Segundo ele, intervenções isoladas não respondem ao comportamento das águas nem à dinâmica territorial da região.

Recursos anunciados e execução travada
Entre as críticas apresentadas durante o ato está a distância entre os recursos anunciados e a efetivação das obras. De acordo com o movimento, cerca de R$ 6,5 bilhões repassados pelo governo federal ainda não se traduziram em intervenções estruturais ou em um planejamento integrado entre municípios.
A leitura do MNLM aponta falhas na condução estadual, especialmente na articulação entre prefeituras para execução de projetos de maior escala. Gestores públicos, por outro lado, colocam entraves técnicos, exigências legais e a complexidade dos processos de contratação como fatores que influenciam o ritmo das obras.
No plano federal, a principal demanda gira em torno da ampliação do programa Minha Casa Minha Vida na modalidade Entidades. A previsão atual é de 14 mil unidades até 2026, enquanto o movimento defende a ampliação para 60 mil moradias. A avaliação de integrantes do MNLM é de que o número previsto não acompanha o tamanho da demanda social.
Pressão sobre a estrutura da Caixa
A atuação da Caixa Econômica Federal também aparece como um dos focos centrais da mobilização. O banco é responsável pela operacionalização das políticas habitacionais e, segundo o movimento, precisa de mudanças estruturais para responder com mais agilidade às demandas populares.
Entre as reivindicações está a saída do presidente da instituição, Carlos Vieira. Para Cristiano Schumacher, a permanência da atual gestão estaria associada à dificuldade de promover alterações internas. Ele afirma que, sem mudanças, o banco não conseguirá reorganizar o atendimento e priorizar a habitação de interesse social, defendendo que “o povo brasileiro volte a ser a prioridade”.
Especialistas em políticas públicas observam que a Caixa desempenha papel central na execução de programas habitacionais e que alterações em sua estrutura podem ter impacto direto sobre a velocidade de contratação de projetos. Ao mesmo tempo, ressaltam que a instituição atua sob regras que exigem controle técnico e financeiro rigoroso.
Projetos parados e disputa local
No nível municipal, o ponto mais sensível envolve a paralisação de empreendimentos habitacionais que atenderiam 346 famílias. Os projetos Mauá Sinos e Steigleder seguem sem avanço, em meio a divergências entre o movimento e a prefeitura.
Segundo o MNLM, as obras estão travadas porque a gestão municipal não teria viabilizado o ponto de tomada de água necessário para conclusão do projeto hidráulico. A prefeitura, por sua vez, já indicou em audiência com o Ministério Público que não aprovará os projetos no formato atual, o que impede o início das construções.
O movimento sustenta que a interrupção gera impacto financeiro direto, já que as famílias permanecem dependentes de aluguel social. A estimativa apresentada é de um custo mensal de cerca de R$ 200 mil. Diante desse cenário, Schumacher afirma que “a gente vem aqui pedir para que o prefeito dê um jeito técnico e político, se for necessário buscar mais recurso para que garanta abastecimento de água adequado nesses dois condomínios e que permita que a gente comece a obra”.
Infraestrutura precária e eventos extremos
As condições de infraestrutura em áreas ocupadas também estiveram no centro das reivindicações. Comunidades seguem sem acesso pleno a serviços básicos como água, pavimentação e esgoto, situação que se agrava com a intensificação de eventos climáticos.
Segundo o dirigente do movimento, episódios recentes indicam mudança no padrão das chuvas. “Este é o novo normal, a mudança climática é de verdade e a gente precisa adaptar cidades”, afirma. Ele acrescenta que volumes de chuva considerados moderados já provocam alagamentos em diferentes pontos do município e defende que o poder público avance em soluções estruturais.
Pesquisadores da área ambiental apontam que a frequência de eventos extremos tem aumentado e que cidades precisam revisar seus sistemas de drenagem e planejamento urbano para responder a esse cenário.
Negociação abre prazos e grupo de trabalho
Após a mobilização, representantes do movimento foram recebidos pela prefeitura para discutir as reivindicações. Segundo Schumacher, ficou definido um prazo até 11 de abril para que o Serviço Municipal de Água e Esgotos apresente os pontos de ligação necessários aos empreendimentos, etapa considerada fundamental para destravar os projetos.
Também foi acordada a criação de um grupo de trabalho permanente, com participação de secretarias municipais e do movimento, para acompanhar obras mais complexas. Entre elas estão intervenções vinculadas ao Programa de Aceleração do Crescimento, como casas de bombas, diques e alargamento de vias.
Sobre o andamento dessas ações, Schumacher afirma que estão em ritmo “muito devagar”. “Famílias atingidas por enchentes e pelo déficit habitacional seguem aguardando soluções concretas.”
A reportagem do Brasil de Fato RS entrou em contato com a Prefeitura de São Leopoldo para posicionamento. Até a publicação, não houve retorno. O espaço está garantido para eventual manifestação.
