líder revolucionário

Quem é Ibrahim Traoré, apontado por Memphis Depay a Romário como referência fora do futebol

Presidente de Burkina Faso, capitão ganhou projeção com nacionalizações e discurso anti-imperialista

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Ibrahim Traoré, presidente de Burkina Faso, foi uma das primeiras vozes a contestar a atuação militar francesa na África do Oeste
Ibrahim Traoré, presidente de Burkina Faso, foi uma das primeiras vozes a contestar a atuação militar francesa na África do Oeste | Crédito: Governo de Burkina Faso

Ídolo do Corinthians e da seleção holandesa de futebol, Memphis Depay afirmou em entrevista à Romário TV que Ibrahim Traoré é sua principal referência fora do futebol. A resposta, dada ao ex-jogador Romário no programa De Cara com o Cara, evidencia o presidente de Burkina Faso, hoje uma das figuras mais simbólicas da política africana.

Filho de pai ganês, Memphis Depay costuma associar sua trajetória à identidade africana e mantém projetos sociais em Gana. Ao citar Ibrahim Traoré como principal referência fora do futebol, o atacante do Corinthians conecta sua imagem a uma das lideranças mais emblemáticas do atual ciclo anti-imperialista no Sahel.

Capitão do Exército, Traoré chegou ao poder em setembro de 2022, em meio ao agravamento da crise de segurança no país e ao desgaste do governo anterior. Desde então, passou a liderar um processo político marcado pela defesa da soberania nacional, por medidas de controle estatal sobre recursos estratégicos e por um discurso de enfrentamento ao imperialismo.

Assim como na década de 1980, Ibrahim Traoré mais uma vez nacionalizou reservas de ouro – o país é o quarto maior produtor mundial do metal –, articula medidas para se desvincular da moeda francesa, o franco CFA, e coloca em prática um audacioso plano de industrialização e expansão agrícola para produção de alimentos.

Dados do Banco Mundial revelam um crescimento econômico em Burkina Faso que passou de 3% em 2023 para 4,9% em 2024. A melhoria na segurança em diversas regiões do país e o forte impulso estatal na autossuficiência alimentar é o que explicam parte do crescimento nos índices, segundo o organismo financeiro ocidental.  

De acordo com o anúncio do Banco Mundial, mais de 700 mil pessoas em todo o país deixaram a extrema pobreza somente entre 2023 e 2024. 

A política econômica vem acompanhada de uma narrativa que associa desenvolvimento, autodeterminação e protagonismo popular. Em falas recentes, Traoré defendeu “uma nova África, livre do imperialismo e do neocolonialismo” e passou a se projetar como uma liderança que ultrapassa as fronteiras de Burkina Faso, especialmente no Sahel.

Legado de Sankara e respaldo popular

A ascensão de Traoré é frequentemente lida em relação ao legado de Thomas Sankara, presidente revolucionário que governou Burkina Faso entre 1983 e 1987. Símbolo do pan-africanismo e da luta anti-imperialista, Sankara implantou reformas agrárias, políticas de alfabetização, campanhas de vacinação em massa e medidas de afirmação da soberania nacional, antes de ser assassinado em um golpe de Estado.

A comparação ganhou força porque o atual governo retomou parte dessa gramática política. Além das nacionalizações e do apelo à soberania, Traoré tem associado sua gestão à ideia de revolução e à reconstrução de um projeto nacional ancorado na autonomia africana.

Traoré também se sustenta em forte mobilização popular. Em Uagadugu, a capital, grupos organizados ocupam ruas e rotatórias em vigílias de apoio ao governo, num contexto de tentativas de golpe, ameaças internas e pressão externa.

O processo em Burkina Faso se insere ainda numa disputa mais ampla no Sahel. A aproximação com Mali e Níger, na Aliança dos Estados do Sahel, e a ruptura com a presença militar francesa reforçaram a imagem de Traoré como um dos rostos mais visíveis de uma nova onda nacionalista e anti-imperialista na região.

Editado por: Rodrigo Gomes

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