Solidariedade

Flotilha com 30 toneladas de alimentos e 73 painéis solares chega a Cuba

Primeiro barco vindo do México chegou a Havana nesta terça (24), em meio ao agravamento do bloqueio dos EUA

Moradores recebem o Maguro, rebatizado de “Granma 2.0”, na chegada ao porto de Havana com ajuda humanitária vinda do México, em 24 de março de 2026.
Moradores recebem o Maguro, rebatizado de “Granma 2.0”, na chegada ao porto de Havana com ajuda humanitária vinda do México, em 24 de março de 2026 | Crédito: Yuri Cortez/AFP

O primeiro barco da flotilha Nuestra América atracou em Havana nesta terça-feira (24) levando ajuda humanitária a Cuba em meio ao agravamento da crise energética na ilha. A embarcação de pesca Maguro, rebatizada simbolicamente de Granma 2.0, completou a travessia iniciada no porto de Progreso, em Yucatán, no México, após cinco dias de viagem pelo Caribe.

O nome é uma alusão ao Granma, embarcação que entrou para a história cubana ao transportar, em 1956, Fidel Castro e outros integrantes da expedição revolucionária que partiu do México rumo à ilha.

A bordo estavam 32 pessoas de 11 países, reunidas em uma missão internacional de solidariedade que percorreu 370 milhas náuticas — quase 700 km — sob condições meteorológicas adversas. Segundo os relatos sobre a travessia, o barco enfrentou ventos fortes, correntes marítimas e problemas elétricos, o que provocou atraso na chegada a Havana.

O carregamento reúne 30 toneladas de alimentos, medicamentos e produtos de higiene, além de 73 painéis solares destinados a aliviar os efeitos da crise de energia que atinge o país caribenho. Ao se aproximarem do porto, os ativistas exibiram no convés uma faixa com dizeres em defesa de Cuba, enquanto cidadãos cubanos os recebiam no cais com gritos contra o bloqueio.

A chegada do Maguro integra uma operação mais ampla, por via aérea e marítima, organizada para entregar 50 toneladas de ajuda à ilha. Segundo os organizadores, cerca de 140 pessoas participam da missão. Outros barcos menores também partiram do México, saindo de Isla Mujeres, no Caribe mexicano, com destino a Cuba.

Mais do que uma ação de entrega de donativos, a flotilha foi caracterizada por seus articuladores como uma resposta política ao endurecimento das medidas dos Estados Unidos contra a ilha. No texto de apresentação da missão, os organizadores afirmam que navegam rumo a Cuba com “ajuda humanitária essencial” e denunciam que a administração de Donald Trump vem “sufocando a ilha” ao cortar combustível, voos e bens considerados indispensáveis à sobrevivência. O manifesto também convoca apoio internacional para “romper o cerco, salvar vidas e defender a causa da autodeterminação de Cuba”.

Coordenador da missão, Thiago Ávila afirmou que a chegada a Havana representa uma mensagem de esperança ao povo cubano e também ao palestino. Já David Adler, da Progressive International, disse à AFP que a iniciativa buscou enviar ajuda urgente diretamente à população e mostrar ao mundo “o custo humano do cerco de Trump contra Cuba”, além de evidenciar que “a solidariedade internacional pode triunfar sobre o isolamento imposto”.

Ativistas exibem bandeiras de Cuba, México e Palestina a bordo do Maguro, rebatizado de “Granma 2.0”, na chegada ao porto de Havana com ajuda humanitária vinda do México, em 24 de março de 2026.
Ativistas exibem bandeiras de Cuba, México e Palestina a bordo do Maguro, rebatizado de “Granma 2.0”, na chegada ao porto de Havana com ajuda humanitária vinda do México, em 24 de março de 2026. | Crédito: Yuri Cortez/AFP

Crise energética amplia mobilização internacional

A chegada da flotilha ocorre em um momento de deterioração das condições de abastecimento em Cuba. Desde 2024, o país sofreu sete apagões em escala nacional, dois deles na última semana, em um cenário marcado pela obsolescência das usinas termoelétricas, escassez de petróleo e pelo endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos.

Os organizadores da missão sustentam que o bloqueio ao combustível, agravado neste ano, aprofundou a crise na ilha e ampliou os impactos sobre a vida cotidiana da população. É nesse contexto que alimentos, remédios e equipamentos de energia solar passaram ao centro das ações de solidariedade articuladas por movimentos e organizações de diferentes países.

Também nesta terça-feira, o chanceler russo, Serguei Lavrov, declarou que Moscou seguirá oferecendo apoio “material e humanitário” a Cuba diante do aumento da pressão externa. Nos últimos dias, relatos sobre carregamentos de combustível russo e mudanças de rota de petroleiros reforçaram o clima de tensão em torno do abastecimento energético da ilha.

Na América Latina, a rede de apoio também ganhou força nas últimas semanas. Uma caravana com parlamentares, sindicalistas e representantes estudantis brasileiros integrou a articulação internacional de solidariedade, com previsão de envio de mais de 20 toneladas de produtos, entre alimentos, medicamentos, itens de higiene e equipamentos voltados a serviços essenciais. No início de março, o governo brasileiro anunciou o envio de alimentos e insumos destinados à produção agrícola em Cuba.

O México, por sua vez, confirmou um quarto envio de ajuda humanitária à ilha. Na segunda-feira (23), a presidenta Claudia Sheinbaum afirmou que um novo navio partirá do país rumo a Cuba e disse que seu governo manterá o apoio contínuo, além de buscar formas de incentivar o diálogo entre Havana e Washington. Segundo ela, a Marinha mexicana acompanha as brigadas internacionais que seguem em embarcações menores, como medida de segurança durante a travessia.

Sheinbaum declarou ainda que seu governo procura alternativas para retomar o envio de combustível a Cuba sem expor o México às retaliações anunciadas pelos Estados Unidos. Segundo a presidenta, uma das possibilidades em análise é que o combustível seja enviado como ajuda humanitária ou por meio de acordos comerciais que não afetem o país.

Editado por: Rafaella Coury

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