Emoção e convivência

Nos 80 anos dos dois, o marchand Renato Rosa homenageia a amiga Magliani em exposição no Paço Municipal

A mostra revela uma suíte floral de Renato e o lado dramático, profundo e cheio de interrogações de Magliani

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Exposição em Porto Alegre: 'Magliani, Renato Rosa, nós 80'
Exposição em Porto Alegre: ‘Magliani, Renato Rosa, nós 80’ | Crédito: Eugênio Bortolon

Até o dia 26 de abril, o Museu de Arte do Paço Porto Alegre apresenta uma exposição curiosa, interessante e também extraordinária: “Magliani, Renato Rosa, Nós 80”. Uma união entre dois amigos de uma vida, que alcançou todos os momentos por mais de 50 anos. Magliani nasceu em Pelotas em 1946 e Renato em São Gabriel no mesmo ano. Se conheceram em Porto Alegre e fizeram deste encontro uma amizade em toda a amplitude e em todas as emoções. Conviveram como se fossem irmãos, parceiros, conselheiros, se falavam sempre sobre tudo e cresceram juntos na arte.

Maria Lídia dos Santos Magliani foi pintora, designer gráfica, diagramadora, gravurista, ilustradora, figurinista e cenógrafa brasileira. Reconhecida como uma das principais artistas brasileiras de sua geração, foi uma das primeiras mulheres negras a se formar em Artes pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 1966. Ela morreu em 2012 de problemas cardíacos no Rio assim como sempre viveu: na humildade, na pobreza e sem grandes recursos.

O marchand Renato Rosa é um dos mais respeitáveis negociantes de artes do Rio Grande do Sul desde sempre. Mora há 26 anos no Rio, onde vive, se diverte e curte a vida em todos os sentidos. É um cara amigável, de bom papo, atende todas as pessoas com simpatia e carinho. Com este jeito se tornou marchand de sucesso, fazendo negócios de grande valor. Vendeu milhares de obras, sem dúvida.

No espaço dividido com os trabalhos da Magliani, Renato optou por exibir uma suíte floral com um fundo transparente (em todas o azul celeste está presente) para que servisse de contraponto ao universo dramático, profundo e cheio de sentidos e interrogações de Magliani. Na prática a ideia funcionou, reconhece Renato ao falar sobre a exposição.

“A minha exposição Magliani/Renato Rosa não vai mudar o mundo, mas está fantástica”, exibe-se o marchand. “Clinzinha, enxutinha, tipo recado dado. Estou bem feliz”, considera. “Possuo trabalhos em diversas técnicas e tamanhos. Sempre tive galeria e dirigi espaços culturais aqui em Porto Alegre e a Magliani pontificava em todos os meus eventos, logo a colheita era diretamente na fonte”.

Como foi a vernissage

Na vernissage (palavra francesa que significa abertura, inauguração) da mostra na noite do dia 17, choveu muito, mas as pessoas amigas de Renato apareceram às dezenas. “Todo mundo chegava encharcada, até uma velha amiga, Araci Esteves, de 91 anos, enfrentou raios e trovões e foi lá me abraçar. Em compensação outros amigos mais jovens e atores telefonaram dizendo que desistiram de ir por causa das ruas alagadas. Tudo bem, é a Lei de Muricy, cada um sabe de si”, relembra.

No evento, bem animado, teve a presença da cantora Denizeli Cardoso, atriz premiada e com uma voz afiada e sonora. “Ela agora é a minha segunda irmã da vida. Pedi a ela para cantar, voz e violão (com Tom Souza). Mas ressaltando que ela cantaria as músicas do repertório da Nina Simone, cantora que a Magliani e eu veneramos. Foi um estouro. Arrasou”, relata Renato.

Em uma das paredes da sala da exposição, estão obras de Magliani.  Em outra, as de Renato. Em uma terceira, relatos, recortes de jornais e histórias de ambos. No meio, há uma vitrine para contar a trajetória. “No meu caso, fotos com a “tia” Elizeth Cardoso, Iberê Camargo, Emanoel Araújo, Vitório Gheno e fotos de cena de Magali e eu com o bailarino Rubens Barbo na montagem das Criadas, do Jean Genet, direção de Miguel Grant, a Araci Esteves era do elenco mais a Maria de Lourdes Anagnostopoulos e a Simone Fontoura”, recorda.

Uma vida, enfim, cheia de deslocamentos, contrastes e profundidade. Assim também pode se definir as obras de Magliani/ Renato Rosa ali na Sala da Fonte do Museu de Arte do Paço. São impactantes e cheias de vida e também de temor dos tempos da ditadura militar.

Obras de caráter superior

Formada em 1965 na Ufrgs, os trabalhos de Magliani sempre foram muito fortes, intensos, de caráter superior. Era uma multiartista em todos os sentidos. Tem obras espalhadas por dezenas de museus brasileiros, é nome de rua em Porto Alegre, de escola em Pelotas e entrou para a história da cultura artística gaúcha como um talento inquestionável. Como disse o Museu Iberê Camargo em exposição realizada em 2022 com 200 obras, produzida ao longo de 50 anos de carreira, muitas delas de propriedades particulares, como as de sua amiga Maria da Graça Guindani: “Ela dizia que a sua arte sempre se baseava na palavra incomodar”.

O marchand Renato Rosa conhece muito Porto Alegre e seus personagens. “Como tem boa memória, gosta de recordar pessoas, lugares, músicas, peças, shows e acontecimentos variados. E, assim, quase sempre tem algo a acrescentar. Outro fator, este ainda mais específico e pessoal, é o fato de ele saber se preservar e se valorizar. Discreto, Renato sabe o que deve revelar e o que deve calar – e cada vez mais ele parece mais enigmático, guardando para si tantas histórias que testemunhou”, diz o jornalista Márcio Pinheiro, seu velho conhecido desde que era menino já que Renato era amigo da sua mãe, a jornalista Laila Pinheiro.

Um estalo na pandemia

Conforme Márcio, Renato disse ter tido um súbito estalo na pandemia e passou a desenhar e a pintar. “Coloquei em prática tudo o que vi e aprendi com aulas que recebi com diversos artistas, desde Vasco Prado até Henrique Fuhro, Magliani, Carlos Wladimirsky, Péricles Gomide e Danúbio Gonçalves. Pronto, desencadeei o processo e realizei uma exposição individual de pinturas em 2021. Sempre desejei colocar em prática e sentir na minha própria pele aquela tensão pela qual os artistas passam. É bem divertido!” Renato também fez teatro em parte de sua vida. “O marchand e o artista vivem algo como um casamento dentro de mim”, conta.

Tanto que não foram adiante. Aí eu passei a me autointitular agente de arte, para representar artistas e escritórios de arte do Rio. O artista precisa ser autodidata, garante.

Apresentação da mostra

Na apresentação da exposição no Paço Municipal, Renato deu o título de “A longa estrada”. E assim escreveu sobre Magliani e ele:

“Nosso conhecimento e amizade data desde nossa juventude, na raiz do verdor da busca por espaços pessoais, descobertas, sonhos. E a esse período posso me apossar da feliz imagem da titulação de um dos nossos autores preferidos Tennessee Williams quando vivia-se alegoricamente ‘O doce pássaro da juventude’, a fuga perfeita para os duros anos daquela metade cruel dos anos 1960, para ser exato, 1966. Longas noites por vernissages, reuniões clandestinas, presenças firmes pelos bares e boates da vida. Amadurecemos no susto, no medo, no enfrentamento da realidade absurda, tensa, de lutas e proibições da censura do regime militar. Éramos um grande contingente de artistas, escritores, músicos, jornalistas e jovens com futuro e alguns já com vistas à política contestatória. Despertamos e amadurecemos na marra e também por muita teimosia para a afirmativa de nossos ideais. Contudo, Magliani e eu tínhamos nossas rotas determinadas, traçávamos os caminhos que perduraram pelas décadas que tivemos pela frente. Mas havia pausas de tensão e buscamos alento nas infindáveis noites de discussões (clandestinas). Mergulhamos em profundidade na vida que se abria a nossos olhos, em sólidas aventuras teatrais. Éramos dois irmãos, duas figuras estranhas – na visão alheia – na mesma estrada delirante…com muita fantasia e teimosia, ‘assaz’ felinianas. Ela, sempre dramática. Rememoro e celebro sua memória com alegria e muita ternura nesta exposição.”

Editado por: Vivian Virissimo

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