SEM MEDO

‘Nós somos o trânsito’: Massa Crítica de março ocupa as ruas de Porto Alegre pelo direito das mulheres à cidade

A concentração será nesta sexta-feira (27), às 18h45, no Largo Zumbi dos Palmares, na Cidade Baixa

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A premissa é clara: cidades que são seguras para mulheres e crianças tornam-se cidades melhores para todas as pessoas
A premissa é clara: cidades que são seguras para mulheres e crianças tornam-se cidades melhores para todas as pessoas | Crédito: Divulgação Massa Crítica

Neste mês de março, em alusão ao Dia Internacional da Mulher e como resposta ao aumento dos índices de feminicídio no país, o movimento Massa Crítica promove uma mobilização nacional sob o lema de cidades mais seguras para mulheres e crianças.

Em Porto Alegre, os encontros são sempre na última sexta-feira do mês (27). A concentração está prevista para as 18h45, no Largo Zumbi dos Palmares, na Cidade Baixa.

Realizada em diversas capitais, o pedal vai reafirmar que ocupar o espaço urbano é um ato político e de resistência contra a desigualdade estrutural que dita quem pode circular com dignidade.

O movimento, que historicamente luta por respeito e sustentabilidade no trânsito, utiliza o mês de março para trazer o debate de gênero para o centro das pistas. “Não estamos atrapalhando o trânsito, nós somos o trânsito”, reforçam as ciclistas, destacando que o uso da bicicleta, embora represente autonomia, ainda expõe as mulheres a diferentes formas de violência cotidiana.

A bicicleta como ferramenta de autonomia e o desafio do assédio

Para Carol Rolim, ciclista desde 2014 e que utiliza a bicicleta como seu principal meio de transporte, a mobilidade urbana é atravessada pelo medo. Relatos de assédio e insegurança são comuns entre as ciclistas, que muitas vezes precisam assumir sozinhas o enfrentamento de dinâmicas violentas dentro e fora dos coletivos.

A articulação deste “Março das Mulheres” ganhou força através de Heblisa Mello, que impulsionou a conexão entre as Massas Críticas em diferentes territórios brasileiros. A criação de um grupo de “puxadores” e da plataforma “Ciclista, Denuncie” serviu como o estímulo que faltava para que muitas cidades retomassem suas mobilizações locais.

Segundo a divulgação oficial do movimento, “Março é um mês de luta. No dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, ciclistas do Brasil todo reafirmam que ocupar a cidade também é um ato político”.

Urbanismo para quem? A perspectiva de gênero na mobilidade

A crítica central do movimento aponta que as cidades foram historicamente planejadas por e para homens, ignorando que são as mulheres que sustentam grande parte da vida urbana através de trajetos de cuidado e jornadas múltiplas.

A memória da ciclista e pesquisadora Marina Harkot, vítima de violência no trânsito em São Paulo, é lembrada como um marco de que “mobilidade também é uma questão de gênero”.

As mulheres percorrem trajetos mais complexos, fazem mais paradas e combinam trabalho, estudo e vida doméstica, mas enfrentam “ruas perigosas, assédio, violência e infraestrutura que não considera suas realidades”. Essa exclusão é ainda mais acentuada quando se observa os recortes sociais.

Por isso, segundo as organizadoras, a luta da Massa Crítica inclui “mulheres negras, periféricas, trabalhadoras, mães solo, mulheres com deficiência, mulheres indígenas, migrantes, além de mulheres trans e pessoas dissidentes de gênero que sofrem violência e exclusão nos espaços urbanos”.

Pelo direito de pedalar sem medo

A Massa Crítica exige um compromisso real do poder público que vá além de promessas sazonais. Entre as pautas reivindicadas estão políticas públicas efetivas de proteção, planejamento urbano com perspectiva de gênero e justiça social, além de campanhas permanentes de conscientização sobre feminicídio e assédio.

O movimento defende que a construção de ambientes seguros deve atravessar todas as instâncias, da escola ao ambiente de trabalho: “Queremos cidades onde crianças possam brincar e se deslocar com autonomia, onde mulheres possam pedalar, caminhar, trabalhar e viver sem medo”.

A premissa é clara: cidades que são seguras para mulheres e crianças tornam-se cidades melhores para todas as pessoas. Neste março, o pedal coletivo segue como uma ferramenta de transformação. Afinal, como pontua o manifesto do grupo, “ocupar as ruas também é transformar o mundo”.

Editado por: Katia Marko

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