Pela primeira vez, a marcha pela memória da Argentina registrará a identidade de vítimas brasileiras da última ditadura argentina (1976-1983), em uma das maiores manifestações de direitos humanos da América Latina. O ato está previsto para às 14h desta terça-feira (24).A homenagem é organizada pela La Campora (Argentina) e reúne diversos movimentos, entre eles o Núcleo do PT na Argentina, e convidados internacionais.
Entre os homenageados estará Francisco Tenório Cerqueira Júnior. O músico, que acompanhou Toquinho e Vinicius de Moraes em turnês pela América Latina, foi sequestrado por agentes que atuavam na repressão política em março de 1976, dias antes do golpe de Estado. Desapareceu e nunca mais foi visto. No ano passado, suas digitais foram identificadas graças ao trabalho da equipe forense do país.
Ao todo, 11 brasileiros e quatro filhos de mãe ou pai brasileiros serão lembrados. Estudantes, atletas, professores, trabalhadores e militantes. Alguns viviam na Argentina, estavam de passagem ou exilados.
(Veja no final a lista com os nomes e o contexto de seus desaparecimentos e assassinatos).
Pesquisa inédita
A homenagem será possível graças à descoberta da pesquisadora argentina — de família brasileira — Gabriela Llaser (Universidade de Buenos Aires). Foi o seu trabalho sobre o controle migratório durante a ditadura que a levou a um acervo até então pouco explorado para responder a um questionamento: quantos estrangeiros foram vítimas da última ditadura militar?
“Essa pergunta ficou rondando a minha cabeça”, afirma.
Sem uma base consolidada, ela construiu levantamento próprio, cruzando arquivos e entrevistas. Entre as fontes, estão a organização Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça (RJ), listas da Argentina, a Comissão da Verdade do Brasil, o Arquivo da Memória da Argentina e o Arquivo Nacional do Brasil.
A pesquisa revela, por um lado, que a memória é um processo em construção e, por outro, que ainda há muito a ser desvendado sobre o regime, mesmo num país internacionalmente reconhecido por suas políticas de memória, verdade e justiça.
Nomes emergem nos 50 anos da Operação Condor
Os resultados coincidem com os 50 anos da Operação Condor, uma rede de cooperação repressiva composta pelas ditaduras de Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia, com apoio dos Estados Unidos.
A estrutura articulou sequestros, torturas e assassinatos de opositores políticos — ou suspeitos —, transformando o Cone Sul em uma zona de perseguição sem fronteiras.
“Era uma engrenagem política, uma rede que capturava corpos em trânsito. Quem escapava de uma ditadura podia cair nas mãos de outra. Não havia lugar seguro”, afirma Gabriela.
Entre os casos que mais chamaram a atenção da pesquisadora está o de Sérgio Fernando Tula Silberberg, de 21 anos, desaparecido em abril de 1976, em Buenos Aires. Atleta de ginástica artística e estudante, teve a trajetória interrompida sem registro oficial.
“Um sistema pensado não apenas para matar, mas para apagar”, diz.
O que ajuda a explicar o longo silêncio sobre essas vítimas, conta a pesquisadora, é que “muitas vezes os imigrantes ficam de fora da política e também da memória”, diz. “Mas algo muda quando um nome reaparece, quando ele ganha rosto e ocupa o espaço público. Se a repressão não reconhecia fronteiras, a memória também não deveria reconhecê-las”.
“Há algo de profundamente simbólico em homenageá-los , porque existe uma ideia de que migrantes ou refugiados não devem se envolver na política do país onde vivem. Mas, na prática, a luta continuava onde quer que essas pessoas estivessem”, diz.
A memória não está garantida
Os 50 anos da Operação Condor na Argentina coincidem com a ascensão do governo de Javier Milei, de extrema direita. O presidente é avesso às políticas de memória, relativiza crimes da ditadura e ataca as vítimas. Seu governo foi advertido pela Organização das Nações Unidas (ONU) por gerar “alarmantes retrocessos e violação dos direitos humanos” em matéria de memória, verdade e justiça.
“Em um presente no qual discursos negacionistas reaparecem, políticas de memória são desmontadas e migrantes voltam a ser alvo de suspeita e perseguição, lembrar e reconhecer os crimes de Estado se torna ainda mais urgente”, afirma a pesquisadora.
A Associação das Avós da Praça de Maio, o movimento mais emblemático contra a ditadura no país, o Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels) e as organizações Hijos e Memoria Abierta denunciam que o governo Milei tenta apagar o consenso construído ao longo dos anos na Argentina sobre os crimes da última ditadura.
“O ataque sobre as políticas de memória, verdade e justiça é, pela primeira vez, massivo e constante. O legado construído nesses últimos 40 anos está sob assédio”, diz o relatório das organizações.
O que familiares das vítimas da ditadura e organismos de direitos humanos defendem é que o governo Milei não só nega os crimes, como tenta implementar uma política “ofensiva revisionista”. “Não é menos grave que o negacionismo”, alertou Marcela Perelman, diretora de investigação do Cels.
Segundo ela, a política revisionista de Javier Milei atua em duas frentes: a batalha cultural e o embate destrutivo. “O programa político não visa ‘completar’ a memória existente, mas cancelá-la para impor uma memória antagônica”, diz o relatório.
“50 anos após o golpe de Estado, a memória anti-ditadura, como resistência e crítica do passado autoritário, irrita e as políticas de memória estão sob sítio”, segue o documento.
Organizações de direitos humanos e funcionários apontam que o desmonte das políticas de memória é generalizado, com destaque para o rebaixamento da Secretaria de Direitos Humanos da Nação a uma subsecretaria, a redução de orçamentos, o fechamento de institutos e a demissão de profissionais da área.
O Museu Sítio de Memória Esma – patrimônio da humanidade – é um dos mais afetados pelos cortes de orçamento e pela consequente redução de atividades, afirmam funcionários sob anonimato.
O Programa Verdade e Justiça foi desarticulado. O Poder Judiciário e o Ministério Público Federal não realizam mais investigações e atos processuais deixaram de ser notificados, segundo o relatório.
O Archivo Nacional de la Memoria foi impactado por demissões, além da revogação de atribuições que garantiam ao órgão acesso a arquivos em posse dos militares. “Nao há mais nenhum escritório da administração pública nacional com poderes legais para acessar a documentação das Forças Armadas”, denunciam.
As organizações também expõem que as buscas por netos sequestrados durante a ditadura estão sendo prejudicadas. O governo se recusa a enviar informações à Comissão Nacional para o Direito à Identidade (Conadi). No ano passado, Milei eliminou a Unidade Especial de Investigação (UEI), que funcionava dentro do órgão e tinha como função realizar investigações preliminares e acessar arquivos estatais.
O Banco Nacional de Dados Genéticos, referência na restituição da identidade de vítimas da ditadura, opera com orçamento insuficiente. O governo também limitou os testes genéticos para pessoas que duvidam de sua identidade e vivem no exterior.
Desde que assumiu a presidência, Milei tem reiterado que “não há dinheiro” e realiza cortes em áreas como direitos humanos, educação, saúde e cultura. O governo afirma que, graças à política de ajuste, o país alcançou superávit e reduziu a inflação de cerca de 250% ao ano para 31%, segundo números oficiais.
Buenos Aires e a repressão transnacional
Nos anos 1970, Buenos Aires foi um dos principais centros operacionais da Operação Condor. Parte dessas ações ocorreu em centros clandestinos de detenção, hoje transformados em espaços de memória, com destaque para o Esma (Escuela de Mecánica de La Armada), que durante a ditadura foi o principal centro de detenção, tortura e extermínio. Atualmente, o local também abriga o Instituto de Direitos Humanos do Mercosul.
Ao mesmo tempo, a homenagem aos brasileiros dialoga com novas iniciativas de preservação. O Cels lançou uma cartografia que mapeia espaços de resistência à repressão estatal.
A proposta destaca não apenas a violência, mas também os locais de organização política e luta por direitos. O projeto reúne inicialmente 30 pontos, a maioria em Buenos Aires, com previsão de expansão.
Região sob alerta
Iniciativas recentes de cooperação militar e de segurança entre países latino-americanos e os Estados Unidos – como o chamado “Escudo das Américas” – preocupam o cientista político André Kaysel, da Unicamp, especialista sobre a extrema direita na América Latina.
Ele vê semelhanças com a lógica da Condor. “Não acho exagero pensar em paralelos. Há elementos concretos dessa cooperação”, afirma. Um exemplo citado pelo especialista é o acordo Sofa, aprovado pelo Congresso do Paraguai, que permite a entrada de tropas dos EUA no país vizinho ao Brasil e concede imunidade a esses militares.
Segundo Kaysel, mesmo vivendo em democracia e em um momento histórico completamente diferente, a ideia de um “inimigo interno e transnacional”, central na Doutrina de Segurança Nacional, ressurge hoje associada ao combate ao “narcoterrorismo”, à imigração e ao comunismo, retomando uma lógica que pode justificar intervenções e ameaçar a soberania dos países da região.
“O anticomunismo passou a funcionar como um conceito elástico, usado para rotular diferentes inimigos políticos”, diz.
“O que líderes como Milei ou Bolsonaro chamam de comunismo é muito heterogêneo. Como não é popular se dizer antidemocrático, eles se dizem anti comunistas porque funciona”, afirma.
O pesquisador aponta ainda uma contradição: os Estados Unidos buscam intervir sob o argumento de combater o crime organizado, enquanto mantêm relações estruturais com esse mesmo sistema, como o comércio de armas e o consumo de drogas.
Lista e mini percurso biográfico das vítimas brasileiras
Luiz Renato do Lago Faria
Data de nascimento: 22/10/1952
Local de nascimento: São Paulo, Brasil
Data e local do sequestro: 07/02/1980, Capital Federal, Argentina.
Luiz Renato do Lago Faria nasceu no Brasil. Em 1974, mudou-se para Buenos Aires. Na época de seu desaparecimento, Luiz tinha 27 anos e cursava o sexto ano da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires (UBA).
Fonte: elaboração própria com base na Comissão Nacional da Verdade do Brasil.
Sidney Fix Marques dos Santos
Data de nascimento: 20/1/1940
Local de nascimento: São Paulo, Brasil
Data e local de desaparecimento: 15/2/1976, Capital Federal, Argentina.
Marqués dos Santos (1940-1976) nasceu em São Paulo, Brasil. Foi um líder do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (Port). Cursava Geologia na Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou os estudos para se dedicar ao ativismo político. Foi editor do jornal Frente Operária. Entrou na clandestinidade logo após o golpe militar de 1964. Seus direitos políticos foram cassados por dez anos. No final de 1972, Sidney e sua esposa, Leonor Elvira Cristalli, exilaram-se em Buenos Aires, Argentina. Lá, Sidney trabalhou como programador na IBM. Em 15 de fevereiro de 1976, aos 36 anos, Marqués dos Santos desapareceu em Buenos Aires.
Fonte: elaboração própria com base na Comissão Nacional da Verdade do Brasil.
Maria Regina Marcondes Pinto (Única mulher)
Data de nascimento: 17/07/1946
Local de nascimento: Cruzeiro, São Paulo, Brasil
Data e local de desaparecimento: 10/04/1976, Capital Federal, Argentina.
María Regina Marcondes Pinto estudava Ciências Sociais em São Paulo. Entre 1969 e 1970, viajou para Paris para se juntar ao seu companheiro, Emir Sader, que havia se mudado para lá devido à perseguição política no Brasil. Após alguns meses em Paris, tentaram retornar ao Brasil, mas, após a prisão de um grupo de ativistas, decidiram ir para Santiago, no Chile. Lá, juntaram-se ao Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Após o golpe contra Salvador Allende, María Regina mudou-se para Buenos Aires. Além do ativismo político, María Regina trabalhou como professora de português na escola Berlitz e estudou Psicologia. María Regina Marcondes Pinto desapareceu em Buenos Aires em 10 de abril de 1976, no mesmo dia em que Edgardo Enríquez Espinosa, líder do MIR chileno, desapareceu.
Fonte: elaboração própria com base na Comissão Nacional da Verdade. Imagem: Memoria Viva (Chile).
Roberto Rascado Rodriguez
Data de nascimento: 03/03/1956
Local de nascimento: Rio de Janeiro, Brasil
Data e local de desaparecimento: 17/02/1977, Capital Federal, Argentina
Roberto Rascado Rodriguez foi militante da organização Unión de Estudiantes Secundarios (UES) e usava os codinomes “Fierro” ou “Fierrito”. Cursava o 2° ano de Engenharia da Universidade Federal de Buenos Aires quando foi sequestrado em sua residência – localizada na rua Virrey Ceballos, 1165, 3A, bairro Constitución, em Buenos Aires – por seis pessoas trajando uniformes da Marinha argentina. A Comissão de Representação Externa sobre os Mortos e Desaparecidos Políticos da Câmara Federal esteve, em junho de 1993, na Argentina, onde obteve informações sobre a detenção ilegal de Roberto no Centro Clandestino de Detenção (CCD) conhecido como o “Club Atlético”, situado no subsolo de um depósito da Polícia Federal Argentina (PFA), entre as ruas Paseo Cólon, Cochabamba, San Juan e Azopardo, no sul de Buenos Aires, próximo ao estádio do Club Atlético Boca Juniors. A informação sobre o sequestro de Rascado consta no relatório do Ministério da Marinha apresentado ao ministro da Justiça Maurício Corrêa, em 1993.
Fonte: elaboração própria com base na Comissão Nacional da Verdade do Brasil.
Francisco Soares Rodriguez (Padre Pancho)
Data de nascimento: 28/02/1921 ou 27/05/1921
Local de nascimento: São Paulo, Brasil
Data e local do assassinato: 15/02/1972, Tigre, Buenos Aires, Argentina.
O “padre Pancho” chegou a Buenos Aires em 1924 com seus pais e irmãos, estabelecendo-se em Santos Lugares, província de Buenos Aires. Em julho de 1945, foi ordenado sacerdote. Conhecido como “Pancho”, era membro do Movimento Sacerdote para o Terceiro Mundo (MSTM). Serviu como capelão de uma igreja em Carupá, Tigre, província de Buenos Aires, onde protegia os trabalhadores dos estaleiros da região. Era conhecido como “o padre sapateiro” por ter fundado uma oficina de calçados e uma cooperativa de fabricação de telhas para ajudar os pobres. Foi assassinado a tiros pela AAA em 13 de fevereiro de 1976, juntamente com seu irmão Arnaldo, no barraco onde moravam em Tigre.
Fonte: elaboração própria com base em Roberto Baschetti.
Francisco Tenório Cerqueira Júnior
Data de nascimento: 4/07/1940
Local de nascimento: Rio de Janeiro, Brasil
Data e local do assassinato: 18/3/1976, Capital Federal, Argentina.
Tenório Júnior foi um pianista que iniciou sua carreira artística aos 15 anos. Na década de 1970, tornou-se um dos artistas mais renomados do Brasil. Em 1976, Tenório acompanhou os músicos Toquinho e Vinicius de Moraes em uma turnê pela América do Sul, que incluiu apresentações na Argentina e no Uruguai. Na madrugada de 18 de março, em Buenos Aires, seis dias antes do golpe militar de 24 de março de 1976, Tenório Júnior foi sequestrado ao sair do Hotel Normandie, onde estava hospedado, localizado no cruzamento da Avenida Sarmiento com a Avenida Rodríguez Peña. Um ex-agente argentino da Força-Tarefa do Serviço de Inteligência Naval alegou ter participado da captura de Tenório Júnior e que ele havia sido levado para a Escola de Mecânica da Marinha (antiga Esma). Tenório foi enterrado sem identificação em um cemitério em Benavídez, e em 2025 a Equipe Argentina de Antropologia Forense identificou suas impressões digitais.
Fonte: Elaboração da pesquisadora com base em informações da Comissão Nacional da Verdade do Brasil.
Sérgio Fernando Tula Silberberg
Data de nascimento: 29/03/1955
Local de nascimento: Rio de Janeiro, Brasil
Data e local de desaparecimento: 08/04/1976, Capital Federal, Argentina.
Sérgio Fernando Tula Silberberg nasceu no Rio de Janeiro, filho de pais argentinos. Estudou no Colégio Nacional nº 8 “Tenente-General Julio A. Roca” e posteriormente formou-se em Educação Física. Trabalhou como professor, assim como seus pais. Sérgio tinha apenas 21 anos quando foi sequestrado por agentes do Estado argentino em Buenos Aires, em 8 de abril de 1976. Acredita-se que Sérgio tenha sido sequestrado pela Marinha argentina e levado para o centro de detenção clandestino de Campo de Mayo. Sérgio permanece desaparecido.
Fonte: Elaboração própria com base em informações da Comissão Nacional da Verdade do Brasil.
Edmur Péricles Camargo
Data de nascimento: 04/11/2014
Local de nascimento: São Paulo, Brasil
Data e local de desaparecimento: 16/06/1971, Buenos Aires, Argentina.
Data de nascimento: 4 de novembro de 2014
Local de nascimento: São Paulo, Brasil
Data e local do desaparecimento: 16 de junho de 1971, Buenos Aires, Argentina.
Edmur era membro da organização Marx, Mao, Marighella e Guevara (M3G). Ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1944 e dirigiu o jornal La Tribuna, publicação oficial do PCB em Porto Alegre. Edmur foi preso no Brasil em abril de 1970 e expulso do país após o sequestro do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher. Ele foi para o Chile, onde permaneceu até junho de 1971. Em 16 de junho de 1971, Edmur partiu de Santiago, Chile, para Montevidéu para receber tratamento oftalmológico, pois a tortura que sofrera no Brasil havia comprometido sua saúde. O avião fez escala em Ezeiza, Argentina, onde a polícia argentina prendeu Edmur no aeroporto e o entregou às autoridades brasileiras. Existem diversos documentários curtos sobre o caso, que é considerado um precursor da Operação Condor.
Fonte: Elaboração própria com base em informações da Comissão Nacional da Verdade do Brasil.
Joaquim Pires Cerveira
Data de nascimento: 14/12/1923.
Local de nascimento: Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil
Data e local de desaparecimento: 05/12/1973, Capital Federal, Argentina.
Nascido em uma família militar, Joaquim Pires Cerveira estudou na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Iniciou seu ativismo político aos 13 anos no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1955, participou da campanha presidencial de Henrique Lott. Foi eleito deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em 1963. Após o golpe de 1964, seus direitos políticos foram suspensos por 10 anos. Em 1970, iniciou seu ativismo clandestino com a Frente de Libertação Nacional (FLN). Foi preso e torturado em diversas ocasiões. Foi expulso do Brasil após constar na lista de presos políticos trocados por Ehrenfried von Holleben, embaixador alemão no Brasil. Fugiu primeiro para a Argélia e depois para o Chile. Com o golpe de 1973 contra Salvador Allende, refugiou-se na Argentina. A esposa de Joaquim afirma que falou com ele pela última vez em novembro de 1973 e que ele deveria ligar no dia 10 de dezembro para o aniversário da filha, mas não ligou, pois teria sido sequestrado no dia 5 de dezembro.
Fonte: Elaboração própria com base no Memorial da Resistência de São Paulo.
João Batista Rita
Data de nascimento: 24/07/1948.
Local de nascimento: Braço Grande do Norte, Santa Catarina, Brasil.
Data e local de desaparecimento: 05/12/1973, Buenos Aires, Argentina.
João Batista Rita nasceu em Santa Catarina e, após concluir o ensino médio, mudou-se para a região metropolitana de Porto Alegre. Em 1968, engajou-se no movimento estudantil em defesa da educação pública e de qualidade contra o projeto da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) na educação brasileira. A convite de Edmur Péricles de Camargo, ingressou no M3G (Marighella, Marx, Mao e Guevara). Documentos revelam que João Batista Rita foi preso por agentes do Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (Dops-RS) em 8 de março de 1970. Em janeiro de 1971, João Batista foi trocado, juntamente com outros 69 presos políticos, pelo embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bücher, e transferido para o Chile. Após o golpe de Estado no Chile em 1973, refugiou-se na embaixada argentina em Santiago e foi transferido para um centro de refugiados na Argentina em novembro de 1973. Desapareceu em Buenos Aires em 5 de dezembro de 1973.
Fonte: Elaboração própria com base em Memorial da Resistência de São Paulo.
José Luis Daura Saud
Data de nascimento: 08/09/1949
Local de nascimento: Diversas fontes indicam que ele nasceu no Brasil.
Data e local do assassinato: 22/04/1975, Córdoba, Argentina.
Diversas fontes indicam que José Luis nasceu no Brasil, embora sua certidão de nascimento ainda não tenha sido obtida. Em 1968, ingressou na Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Católica de Córdoba e, posteriormente, matriculou-se no curso de Filosofia da Universidade Nacional de Córdoba. Era membro do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT). Foi assassinado em 22 de abril de 1975, em frente à Unidade Penitenciária nº 1, juntamente com Patricia Colombeti, Mario Dominguez, Roberto Marcuad e Omar Pucheta. Tinha 25 anos na época do assassinato.
Fonte: Comissão Provincial da Memória de Córdoba.
Pessoas com mãe e/ou pai brasileira/o
David Eduardo Chab Tarab Baabour
Data de nascimento: 2 de maio de 1954
Local de nascimento: Buenos Aires, Argentina
Data e local do sequestro: 10 de junho de 1976, Buenos Aires, Argentina
David Eduardo Chab Tarab Baabour nasceu na Argentina, mas sua mãe era brasileira e seu pai cubano. Ele estudava arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Buenos Aires. Não há fotografias disponíveis de David, mas fontes indicam que ele tinha estatura mediana a alta — aproximadamente 175 centímetros —, cabelos castanhos e olhos verdes. Em 1975, foi convocado e cumpriu o serviço militar na Argentina, no Hospital Militar Central “Cosme Argerich”, em Buenos Aires. Em 10 de junho de 1976, três jovens civis armados chegaram à casa de David na Avenida Cabildo, em Buenos Aires, e o sequestraram após roubarem alguns de seus pertences. Sua família registrou vários boletins de ocorrência, mas nunca obteve respostas, e David permanece desaparecido.
Fonte: Elaboração própria com base em Memorial da Resistência de São Paulo.
Jorge Alberto Basso
Data de nascimento: 17 de fevereiro de 1951
Local de nascimento: Buenos Aires, Argentina
Data e local do sequestro: 15 de abril de 1976, Argentina
Jorge Alberto Basso era filho de mãe brasileira, Sara Santos Mota Basso, e pai argentino. Cresceu em Porto Alegre e participou ativamente do movimento estudantil na Universidade das Artes do Sul (Umespa). No Rio Grande do Sul, atuou no Partido Comunista Operário (POC). Em 1971, Jorge mudou-se para o Chile, onde estudou História na Universidade do Chile com uma bolsa de estudos para refugiados brasileiros. No Chile, participou ativamente do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Em 1973, quando ocorreu o golpe de Estado no Chile, buscou refúgio na embaixada da Venezuela e, posteriormente, foi para a Argentina. Em Buenos Aires, trabalhou como jornalista até desaparecer em 15 de abril de 1976.
Fonte: Elaboração própria com base em Memorial da Resistência de São Paulo.
Juvelino Andrés Carneiro Da Fontoura Gularte
Data de nascimento: 4 de fevereiro de 1943
Local de nascimento: Rivera, Uruguai
Data e local do sequestro: 30 de dezembro de 1977, Buenos Aires, Argentina
Juvelino Andrés Carneiro da Fontoura Gularte era uruguaio. Seu pai era brasileiro, Juvelino Carneiro, e sua mãe era uruguaia, Ramona Gularte, filha de brasileiros. Juvelino estudava psicologia e era membro do Partido Comunista Revolucionário (PCR) no Uruguai. Após o golpe de Estado de 1973 no Uruguai, Juvelino mudou-se para Buenos Aires, Argentina, onde se casou e viveu até 1977, quando desapareceu. Juvelino foi sequestrado de sua casa em 30 de dezembro de 1977, juntamente com sua esposa argentina, Carolina Barrientos Sagastibelza, e Carlos Cabezudo, um uruguaio que morava com eles. A operação de sequestro fez parte da Operação Condor. Juvelino tinha 34 anos na época de seu desaparecimento.
Fonte: Elaboração própria com base em Memorial da Resistência de São Paulo e em Sítios de Memória do Uruguai.
Walter Kenneth Fleury
Data de nascimento: 1954
Data e local do sequestro: 9 de agosto de 1976, Buenos Aires, Argentina.
Walter Kenneth Nelson Fleury era cidadão britânico e filho de mãe brasileira. Era membro da Organização Comunista do Poder Operário (OCPO). Trabalhou como mecânico e delegado sindical na Fiat, em Buenos Aires, de onde foi demitido em 4 de dezembro de 1974. Estima-se que tenha sido sequestrado entre 6 e 9 de agosto de 1976, juntamente com sua companheira Claudia Julia Fita Miller, por agentes argentinos. Acredita-se que tenha sido levado para a Brigada Güemes da Polícia Provincial de Buenos Aires, perto do centro de detenção clandestino El Vesúbio. Walter permanece desaparecido.
Fonte: Elaborado pelo autor com base no Memorial da Resistência de São Paulo.
* Especial para o ICL Notícias
