VIDA DAS MULHERES

Psicanalistas lançam manifesto contra feminicídio e denunciam projeto de extermínio de mulheres

Documento será apresentado em leitura virtual nesta quarta (25), às 20h, e busca ampliar adesões no Brasil e no exterior

No audio source provided.
"A violência contra as mulheres e meninas, da qual resultam os feminicídios, para além do que conhecemos como “machismo estrutural”, está no núcleo de um projeto político de recolonização", destaca psicanalista
“A violência contra as mulheres e meninas, da qual resultam os feminicídios, para além do que conhecemos como “machismo estrutural”, está no núcleo de um projeto político de recolonização”, destaca psicanalista | Crédito: Jorge Leão

“O que está acontecendo é o extermínio de mulheres, no Brasil e no mundo.” A afirmação da psicanalista Rosane Pereira sintetiza a urgência que mobilizou a construção do manifesto Psicanalistas contra o feminicídio, lançado por um coletivo de profissionais do Brasil e do exterior diante da escalada das violências de gênero.

No Rio Grande do Sul, os dados evidenciam a gravidade do cenário: foram registrados 23 feminicídios nos primeiros 77 dias de 2026. É nesse contexto que o documento denuncia o feminicídio não como um fenômeno isolado, mas como parte de um projeto político de extermínio de mulheres, convocando a comunidade psicanalítica a assumir uma posição ética e implicada no enfrentamento dessa realidade.

O manifesto será apresentado em leitura pública virtual nesta quarta-feira (25), às 20h, reunindo psicanalistas, pesquisadoras e coletivos vinculados a clínicas, universidades e espaços de intervenção social no Brasil e no exterior. A partir da leitura pública comentada, o texto vai circular pelo Avaaz para colher o maior número possível de subscrições de outros psicanalistas.

Maiores informações podem ser obtidas pelo instagram @projetogradiva. As inscrições para o lançamento podem se refetuadas via Sympla gratuitamente.

O Brasil de Fato RS conversou com Rosane Pereira, fundadora e presidente honorária da Associação Projeto Gradiva, sobre os sentidos do documento e o papel da psicanálise diante da violência de gênero. “O que motivou foi o que preocupa a todas as pessoas que vivem em comunidade humana: o extermínio de mulheres, pois é isso o que está acontecendo no Brasil e no mundo. A psicanálise trabalha com a experiência humana, não há como ela não se implicar neste problema”, afirma.

Abaixo, a entrevista completa:

Brasil de Fato RS – O manifesto afirma que o feminicídio não é um fenômeno isolado, mas parte de um projeto político de extermínio. Como a psicanálise ajuda a compreender essa violência como algo estrutural e não apenas individual? Que conexões existem entre processos históricos, como a caça às bruxas, o avanço do capitalismo e a violência contemporânea contra as mulheres?

Rosane Pereira – A clínica psicanalítica é a escuta do individual, do singular de cada paciente, e cada paciente traz consigo os efeitos da sua relação com seus outros, o que alguns chamam de semelhante. Ou seja, seu lugar no laço social. E o laço social, hoje, é fortemente marcado pelas mais diversas formas de violência. A violência contra as mulheres e meninas, da qual resultam os feminicídios, para além do que conhecemos como “machismo estrutural”, está no núcleo de um projeto político de recolonização.

Sílvia Federici nos mostra bem em seu livro As mulheres e a caça às bruxas como os índices de violência e feminicídios são maiores nas regiões onde as lutas contra o racismo e pelos direitos das mulheres avançaram, onde as políticas decoloniais se afirmaram. E isso é no mundo todo, mas bastante forte na América Latina. Retroceder nos avanços da condição feminina, recolocando as mulheres como meras reprodutoras e garantidoras de mais força de trabalho, está no mesmo registro da violência racial, onde as pessoas negras são reduzidas a uma condição utilitária, sem estatuto de cidadãs.

As mulheres negras são 68% das violentadas e 62,6 % dos feminicídios. Assim, este projeto de extermínio participa de um projeto de recolonização capitalista, e a naturalização da violência, seja no discurso político ou social, é também um recurso de reforço deste projeto. Franz Fanon já falava do caráter indivisível da violência, e é isso o que estamos vivendo. A fomentação do discurso de ódio pela ultradireita, que cultiva a recolonização como seu bem maior, também é uma estratégia política para submeter essa camada da população, que é enorme, a de mulheres e de pessoas negras, à lógica perversa da violência, aniquilando com isso sua força política de libertação e avanço social.

“A fragilização dos indivíduos, principalmente pela desigualdade social, vai produzindo processos de defesa que desembocam na violência e na destruição do outro” | Crédito: Rafa Dotti

O manifesto defende que não existe clínica psicanalítica dissociada do laço social. Na prática, o que significa uma atuação clínica comprometida com o enfrentamento da violência de gênero? Como a psicanálise ajuda a entender essa violência?

Escutar mulheres em situação de violência já é uma forma de intervenção neste problema da violência de gênero, que é um gravíssimo sintoma social. Cada mulher escutada se fortalece e produz recursos subjetivos, pois é isso o processo de uma análise: ela produz recursos psíquicos que podem fazer com que uma mulher se proteja de seu agressor. É isso o que temos feito há quase sete anos no Projeto Gradiva, e que já fazíamos em 2017/2018, quando passamos pela ocupação Mirabal. Praticamos uma psicanálise implicada com os sintomas do seu tempo, pois isso é a essência da psicanálise desde seus primórdios. A violência de gênero tem muitas causas.

O machismo, a misoginia, são efeitos do discurso social, das culturas e, logo, vão do universal ao particular. Como dissemos antes, juntar-se a alguém não deixa de ser um ato político. Cada ser humano, homem ou mulher, busca em seu parceiro, e isso vale para qualquer orientação sexual, um depositário de seus desejos, de suas convicções. O viver juntos, em casal ou em sociedade, sempre foi muito difícil, porque justamente a diferença do outro, seu desejo não se adequar ao meu, pode ser insuportável. As pessoas precisam de muitos recursos internos para compartilharem a vida, e cada vez menos vêm tendo isso.

Então, a fragilização dos indivíduos, principalmente pela desigualdade social, vai produzindo processos de defesa que desembocam na violência e na destruição do outro, que o tempo todo escancara a minha própria fragilidade. A violência de gênero passa em grande parte por este processo. E, com a naturalização da violência e do discurso de ódio, as coisas se complicam bastante.

O texto convoca psicanalistas a tomarem uma posição ética e política, retomando o gesto de Freud de escutar mulheres. Que tipo de responsabilidade essa convocação impõe hoje à comunidade psicanalítica?

A psicanálise sempre foi, desde Freud, uma prática clínica subversiva. Por isso seus livros foram queimados em praça pública durante o nazismo. E não apenas porque Freud era judeu, mas principalmente porque ela sustentava uma ética do respeito à pluralidade de desejos, à diferença, às singularidades. E Freud, com as mulheres que encontrou e que o ensinaram a se tornar um psicanalista, subverteu toda a lógica vitoriana, levando em conta o desejo e a singularidade de cada mulher. Ele pagou um preço alto por isso, foi expulso da sociedade de medicina e ficou isolado socialmente.

Era escandaloso, para a sexologia do século 19, uma mulher falar de sua insatisfação para um médico, e mais ainda que este médico visse nos seus sintomas uma expressão do desejo daquelas mulheres. Freud se movimentava em uma lógica patriarcal, burguesa e machista. Isso o impediu de reconhecer várias coisas, mas, para o seu tempo e sua cultura, ele foi realmente corajoso e subversivo. Além disso, também, em 1918, em Budapeste, ele convocou todos os psicanalistas a se organizarem em espaços clínicos e de formação para atender as populações economicamente frágeis. Então ele propôs as clínicas públicas, as “policlínicas”, poli no sentido de política, pois a psicanálise não poderia deixar de se implicar no social. E, com isso, foram criadas policlínicas na Europa inteira, até o início dos anos 30, quando o nazismo se implantou na Europa, e mesmo na psicanálise.

Enfim, é essa a convocação que fazemos a nossos colegas da comunidade psicanalítica: que se impliquem no sintoma do laço social, que pratiquem e organizem mais projetos de clínicas públicas, que reatem com a subversão que está na essência da psicanálise. E a maioria das mulheres que sofrem violência são, em sua maioria, mulheres periféricas, negras e em vulnerabilidade social. Temos compromisso com a cidade. Isso não é filantropia, é engajamento ético. E é urgente.

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter