A decisão da Justiça italiana de autorizar a extradição da ex-deputada Carla Zambelli para o Brasil reacendeu o debate sobre como o bolsonarismo utiliza as punições judiciais a seus quadros para alimentar sua narrativa de perseguição. Zambelli é duplamente condenada no Brasil: por invadir o sistema da Justiça por meio de um hacker e por perseguir um eleitor armada no dia das eleições de 2022.
O cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) Paulo Niccoli Ramirez, no entanto, pede cautela. “A decisão não é definitiva. A última palavra pertence à primeira-ministra italiana, que sabemos ter ligações com a extrema direita, consequentemente com o bolsonarismo. Então pode ser que ainda seja preciso ter um pouco de cautela antes de afirmar o grande dia da prisão da Zambelli aqui no Brasil”, diz no Conexão BdF.
Se a extradição se confirmar, o impacto sobre o processo eleitoral é certo. “Isso vai alimentar a visão de mundo da extrema direita em torno de uma suposta injustiça realizada pela Justiça brasileira contra os bolsonaristas”, analisa. O fato de Jair Bolsonaro ter conseguido prisão domiciliar reduz o impacto da prisão do ex-presidente sobre o eleitorado indeciso, mas a extradição de Zambelli em pleno ano eleitoral pode se tornar mais um capítulo da narrativa de vitimismo.
“Se fosse depois da eleição, talvez não houvesse tanto impacto sobre o processo eleitoral. Então precisamos ficar atentos a como esses casos vão ser utilizados como ferramenta política”, conclui.
Penduricalhos: o mundo paralelo do Judiciário
O Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou um teto para os chamados penduricalhos — os benefícios que elevam os salários de juízes, promotores e defensores públicos muito acima do teto constitucional. A decisão, recebida como um avanço por alguns setores, na prática autoriza que magistrados recebam até R$ 78 mil mensais.
“Continua sendo um mundo da fantasia, que não atende de fato os interesses da população”, critica Ramirez. “Os magistrados, uma vez dentro do sistema judiciário, gozam de centenas de benefícios que estão muito aquém da realidade do povo brasileiro, que sofre com a miséria, a desigualdade, baixos salários e baixo poder de consumo.”
O professor aponta uma contradição central no discurso do ajuste fiscal. “Muito se fala da necessidade de cortar gastos por parte do poder público, e todo peso é jogado nas costas do Executivo, principalmente agora do presidente Lula. Mas pouco se vê o quanto os parlamentares estão gastando com suas verbas de gabinete. E para piorar, o próprio Judiciário dá um péssimo exemplo.”
Ramirez destaca que foi graças ao ministro Flávio Dino que os gastos excessivos do Judiciário começaram a ser investigados. “Hoje a gente tem um teto, mas dificilmente vamos ter punições para tudo o que foi superfaturado no passado. Isso mostra como o Estado brasileiro alimenta castas, elites dentro do poder.”
Ele ironiza a postura de muitos juízes que se manifestam contra programas sociais como o Bolsa Família, o Bolsa Alimentação e o Bolsa Gás. “Eles sequer dão um bom exemplo. Ao contrário, gastam mais do que boa parte do orçamento destinado aos programas do governo, principalmente na política de combate à fome.”
A delação Vorcaro: bomba em ano eleitoral
O caso que tem mobilizado Brasília nos últimos dias é a possível delação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master. Apreensões de oito celulares e um acordo de delação em negociação podem trazer à tona informações capazes de abalar tanto a situação quanto a oposição, avalia Ramirez.
O professor alerta para o risco de que a delação seja “manipulada de tal forma a prejudicar o governo Lula, quando na verdade e muito provavelmente ele não tem relação nenhuma com esse banco, a não ser relações institucionais por ser o presidente da República.”
Por outro lado, os celulares apreendidos podem conter contraprovas que desmontem acusações infundadas — como as que já surgiram contra o presidente e seu filho. “Se seguirmos o rastro do dinheiro, vamos ver que os maiores prejudicados deverão ser os partidos de direita, incluindo a candidatura de Flávio Bolsonaro”, afirma Ramirez.
Ele cita indícios de que o presidente do PL teria tentado aumentar o valor do seguro sobre investimentos em CDI para favorecer Vorcaro e o banco Master. “Pode ser que nesses celulares ainda a gente descubra toda uma teia, uma trama, inclusive de financiamento de Vorcaro em relação à candidatura de Flávio Bolsonaro no passado, assim como do próprio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, enfim, toda essa patota que envolve a bancada evangélica, a bancada da bala, igrejas evangélicas.”
Recentemente, a TV Globo apresentou uma animação em um telejornal que tentava vincular o presidente Lula ao banqueiro Daniel Vorcaro. A emissora foi obrigada a se retratar publicamente após a repercussão negativa.
“Parece que a Globo não aprende a lição”, critica Ramirez. “Em 1989 houve uma manipulação no Jornal Nacional no dia posterior a um debate, dois dias antes das eleições presidenciais. Foi assim também com a Lava Jato, com o mensalão. A Globo parece que não aprendeu a lição depois de todo aquele papelão feito no passado.”
O professor alerta que esse tipo de comportamento abre caminho para a extrema direita. “Foi o que abriu o caminho para a chegada do bolsonarismo ao poder. Se uma vez mais a Rede Globo optar por esse caminho — e está optando, não sou eu que estou dizendo, é o que a própria Globo demonstra —, ela vai contribuir mais uma vez para a volta da extrema direita ao poder.”
Ramirez faz um alerta paradoxal à emissora. “Existe um ressentimento muito maior da extrema direita em relação à Rede Globo. Uma eleição de Flávio Bolsonaro poderia colocar até mesmo em risco a concessão da Globo, que é uma concessão pública. É preciso que os jornalistas dessa emissora coloquem a mão na consciência e vejam se estão a favor da democracia ou do fascismo.”
O Rio de Janeiro e a eleição na Alerj
A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro elegeu Douglas Ruas para um mandato tampão até outubro. Ruas é tido como possível candidato de Flávio Bolsonaro no estado. Ramirez lamenta a situação política fluminense.
“É triste ver a situação do Rio de Janeiro. Não acertaram nenhum governador. A população do Rio vai ter que votar por descarte: qual é o menos pior literalmente.”
O professor avalia que Eduardo Paes, que deve concorrer com o apoio de Lula, aproveita um vácuo de lideranças políticas no estado. “O vácuo também dos partidos de direita, todos envolvidos em escândalos na administração pública, com milícias e assim por diante.”
Ramirez, no entanto, é cético quanto a uma transformação profunda. “O Rio de Janeiro não vai superar essa situação tão rapidamente. Ainda que venha Eduardo Paes, ele é de um partido que pertence ao centrão, o MDB, e tem uma tendência a fazer mais do mesmo. Não exatamente Eduardo Paes, mas a equipe que ele deverá formar será muito mais por interesses políticos, troca de favores, do que por competência técnica.”
O PSD e a indefinição que beneficia o centrão
Sobre o movimento do PSD, que ainda estuda lançar candidato próprio à presidência, Ramirez é direto. “Ratinho Jr. já desistiu, e a tendência é que nas próximas semanas tenhamos novas baixas em função do baixo desempenho eleitoral. Cada vez mais está clara nas pesquisas a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.”
Ele avalia que a estratégia do PSD pode ser lançar um candidato sabendo que vai perder, mas pensando no apoio a alguém no segundo turno para ocupar cargos nos ministérios. “O PSD não é um partido coeso em relação a bater o martelo se terá ou não um candidato à presidência. A vocação do PSD, desde o seu nascimento, é fazer parte dos governos, não ser o governo.”
Sobre a possibilidade de Ronaldo Caiado ser o nome do partido, Ramirez é cético. “Caiado é uma figura até agora insignificante nas pesquisas eleitorais. Circulamos pelas ruas e perguntarmos quem é ele, a maioria não vai saber identificar.”
Para ouvir e assistir
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