A ofensiva global da extrema direita, suas raízes históricas e estruturais, e os desafios para a construção de uma resposta internacional articulada marcaram o debate realizado na manhã desta sexta-feira (27), no Auditório do Hotel Embaixadador, em Porto Alegre, durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos.
A mesa reuniu a deputada federal Sâmia Bomfim (Psol/SP), o cientista político e historiador belga Éric Toussaint, a dirigente argentina Jorgelina Matusevicius, da Vientos del Pueblo, Ricardo Abreu de Melo, conhecido como “Alemão”, da Fundação Maurício Grabois (PCdoB), o professor e dirigente da Fundação Perseu Abramo Valter Pomar e Ana Miranda, atual eurodeputada do Bloco Nacionalista Galego no Parlamento Europeu, além de intervenções de representantes sindicais e políticos da América Latina.
A fala inicial de mediação foi conduzida pelo presidente da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida, que ressaltou a importância simbólica do momento. “Neste dia em que iniciamos as conferências antifascistas, acredito que a cidade de Porto Alegre, por sua tradição democrática e inspiradora para todos nós, brasileiros e brasileiras, pode transmitir uma mensagem importante ao mundo neste momento”, afirmou.
O mediador também enfatizou a necessidade de transformar o antifascismo em prática concreta, conectada à vida cotidiana da população e aos valores fundamentais da sociedade. “Temos a responsabilidade de fazer com que o ideal antifascista se incorpore ao cotidiano da nossa população, compreendendo que o antifascismo é, antes de mais nada, o fortalecimento da nossa dignidade enquanto sujeitos da construção da sociedade”, destacou.
A abertura do evento reuniu diferentes organizações e lideranças políticas, evidenciando a construção coletiva em torno do enfrentamento ao avanço de ideologias autoritárias. Segundo Almeida, a articulação entre entidades e movimentos é essencial para fortalecer esse campo de atuação:
“Nós, da Fundação Perseu Abramo, temos grande satisfação em contribuir com a realização deste evento. Assim como os companheiros e companheiras do Partido dos Trabalhadores, nos sentimos privilegiados por contar com a parceria de tantas e tantos companheiros e companheiras valorosos nessa construção coletiva”, concluiu.

Crise do capitalismo e avanço da extrema direita
Ao abrir o diálogo, o cientista político Eric Toussaint destacou o cenário de insegurança social que tem sido instrumentalizado por setores neofascistas. “Isso cria condições favoráveis para um discurso que inventa inimigos e distorce problemas reais, como o suposto excesso de imigração ou de políticas sociais”, afirmou.

Toussaint também pontuou a frustração popular com experiências progressistas que não atenderam plenamente às expectativas, abrindo espaço para lideranças que se apresentam como antissistemas. Diante desse quadro, defendeu a construção de uma articulação internacional antifascista capaz de promover ações concretas, nas ruas e nos espaços políticos, e anunciou a importância de iniciativas futuras, como eventos na América Latina, América do Norte e a participação no Fórum Social Mundial.
Raízes históricas e reconfiguração global
Ao abordar o tema sob uma perspectiva histórica, Ricardo Abreu de Melo, conhecido como “Alemão”, da Fundação Maurício Grabois, situou o fascismo como um fenômeno ligado às crises do capitalismo no século XX, especialmente no período entre guerras. Segundo ele, o fascismo serviu como instrumento de enfrentamento ao avanço de projetos socialistas, apresentando-se de forma “falsamente revolucionária”, mas mantendo um caráter profundamente conservador.

O dirigente também destacou mudanças no cenário internacional contemporâneo, como a crise iniciada em 2007-2008, o declínio relativo dos Estados Unidos e a ascensão de novos polos de poder, como a China. Para ele, esse contexto favorece o crescimento de forças de extrema direita e neofascistas em escala global.
“Nessas quatro décadas do pós-Segunda Guerra Mundial, marcadas pela chamada Guerra Fria, os países imperialistas se organizaram na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ferramenta importante do imperialismo até hoje, hegemonizada pelos Estados Unidos, a hegemonia financeira, tecnológica e militar. Estados Unidos, tem o seu auge nessa Guerra Fria e nos anos 2000”, explicou o cenário.
Nesse sentido, a eurodeputada Ana Miranda chamou atenção para a necessidade dos países saírem da Otan como gesto de resistência e apostou na juventude para o combate do fascismo. Miranda também criticou o papel da direita tradicional, que, segundo ela, contribuiu para dar visibilidade e legitimidade a esses grupos. Além disso, denunciou o avanço de projetos extrativistas e a violação da soberania de povos, defendendo o respeito à autodeterminação de nações e territórios.

“Aquela direita que parecia democrática, mas que, no fundo, defende um projeto capitalista que, aliás, endossa o neofascismo. Eu mesmo, no Parlamento Europeu, fui uma dos autores da resolução contra o avanço do neofascismo na Europa”, destacou.
Ela agradeceu os companheiros brasileiros de três partidos: PT, PCdoB e Psol, “que sempre respeitaram a soberania” reivindicada em todo o mundo. Reiterou a importância das alianças: “As alianças entre o Parlamento Europeu e os parlamentos latino-americanos incluem grupos de esquerda”. Finalizou dizendo: “o imperialismo mata, por isso denunciamos as agressões contra a Venezuela, o Irã, Cuba, a Síria e o Líbano”.
Guerra, imperialismo e disputa de poder
Já a dirigente argentina Jorgelina Matusevicius enfatizou o caráter de conflito estrutural presente na conjuntura atual. “Há uma guerra de classes em curso, e a extrema direita expressa essa ofensiva contra os povos”, afirmou. Ela apontou que esse processo se manifesta tanto em intervenções militares e disputas geopolíticas quanto no desmonte de direitos sociais e na repressão a movimentos populares.

Matusevicius alertou para o risco de naturalização da violência e da barbárie, defendendo a necessidade urgente de construir alternativas políticas que enfrentem a desumanização crescente. “O mundo que queremos não é apenas possível, é urgente”, destacou.
“O que melhor caracteriza a extrema direita em suas diversas formas é que ela declarou guerra contra nós. Da ofensiva imperialista na América Latina com o bombardeio do Caribe à intervenção na Venezuela, ao cerco a Cuba, às intervenções em processos eleitorais como os da Argentina.”
De acordo com ela, genocídios estão acontecendo contra os povos para se apropriar de bens comuns e controlar rotas e fluxos comerciais. “A guerra é contra o povo, desmantelando conquistas históricas, atacando os sistemas públicos de saúde e educação e implementando verdadeiros sistemas antissindicais e anti-previdenciários. Tudo isso é acompanhado por um aumento na repressão explícita, como a desencadeada contra a população migrante nos Estados Unidos por meio de políticas criminais de Trump.”
Crise multifacetada e alternativa ecossocialista
A deputada Sâmia Bomfim destacou que a atual crise é multifacetada, combinando dimensões econômica, política e ambiental. Ela citou os impactos das mudanças climáticas, como as enchentes no Rio Grande do Sul, como expressão concreta desse cenário.

Para a parlamentar, o avanço do fascismo está ligado também à crise de hegemonia global, especialmente dos Estados Unidos, e às disputas por recursos energéticos.
“Aqui, na América Latina, a gente volta a resgatar conceitos e definições que talvez as últimas gerações não tenham debatido tanto, que é a noção de soberania, da unidade latino-americana e da compreensão do nosso território como um território a ser dominado e cada vez mais explorado pelos Estados Unidos. E é isso que infelizmente está em curso. É por isso que nós repudiamos profundamente a captura e a prisão de Nicolás Maduro, bem como o controle do território e do petróleo venezuelano”, afirmou.
Também criticou a situação em Cuba e disse repudiar “o massacre em curso contra o povo cubano, destruindo sua possibilidade de sobrevivência”. Segundo ela, trata-se de “uma forma de genocídio”, citando o agravamento da crise energética no país, com cortes de energia que têm paralisado hospitais e comprometido o abastecimento alimentar.
Bomfim defendeu a construção de uma alternativa ecossocialista, a mobilização popular e a adoção de medidas que enfrentem desigualdades sociais e de gênero. “A misoginia também é uma das faces do fascismo. O ódio, a violência contra as mulheres nos elimina, nos amendrota e nos dá menos capacidade de agir, mas nossa linha é na linha de frente contra os facistas.”
A deputada esperançou para as próximas eleições: “Precisamos derrotar Flávio Bolsonaro e reeleger o presidente Lula como a única possibilidade possível de freio de contenção ao bolsonarismo e, portanto, do fascismo. Precisamos construir grandes jornadas contra a escala 6×1, para que os trabalhadores sofra menos alienações diante do cansaço que sobrecarrega, principalmente, as mulheres”.
O momento de enfrentamento é agora
Em sua fala, o dirigente da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar, do Partido dos Trabalhadores (PT), reforçou a ideia de que o avanço da extrema direita decorre da incapacidade do capitalismo de responder às crises que produz. Segundo ele, o sistema recorre a mecanismos como a naturalização da desigualdade, o estímulo à violência e o enfraquecimento das liberdades democráticas.

“O enfrentamento ao fascismo hoje passa necessariamente pelo enfrentamento ao imperialismo”, afirmou. Pomar também defendeu mudanças estruturais, como reformas sociais, fortalecimento da soberania nacional e ampliação da participação popular.
Pomar destacou que somente socialistas podem ir adiante para combater o imperialismo, para a consolidação das leis do trabalho, para a redução da escala 6×1. “Não há democracia no neoliberalismo, que soberania estamos falando? Precismaos de reforma agrária, estatizar as empresas e criar big techs nacionais e públicas, além da soberania militar.” E finalizou: “A barbárie a gente já tem, o que resta é constituir o socialismo”.
Unidade internacional e protagonismo popular
As intervenções internacionais reforçaram a necessidade de articulação entre movimentos e organizações. Gabriel Portillo, coordenador da Frente Sindical León Duarte, do Uruguai, destacou que o mundo vive um processo de normalização da barbárie e da resignação. Para ele, a conferência representa um avanço na construção de respostas coletivas. “Nesse sentido, a coordenação das forças sociais e a luta contra o imperialismo são mais urgentes do que nunca. Devemos desenvolver uma campanha pela paz, não pela guerra”, afirmou.

Encerrando o debate, o vereador de Porto Alegre Giovani Culau (PCdoB) ressaltou o papel histórico da capital gaúcha como espaço de articulação internacional desde o Fórum Social Mundial. Ele apontou que a crise do neoliberalismo, o aumento das desigualdades e os conflitos globais exigem uma resposta baseada no internacionalismo e na organização popular.
“Eu não tenho dúvidas que as duas questões centrais que impactam no que vivemos hoje é, de um lado, a crise brutal do neoliberalismo e do capitalismo e o declínio relativo dos Estados Unidos e das suas e das superpotências, em contraposição à ascensão de potências alternativas, como é o caso da experiência chinesa”, analisou.

O vereador provocou os participantes do encontro a contribuírem para a definição de estratégias comuns capazes de enfrentar o avanço da extrema direita e afirmar a soberania dos povos em um cenário internacional cada vez mais instável. “A grande lição que nós temos a tirar é que só é possível derrotar o imperialismo, derrotar o fascismo, com compromisso com a luta internacionalista. É esse o compromisso dessa conferência”, finalizou.
Ao longo do debate, foi reforçada a necessidade de construir uma articulação internacional antifascista, com ações coordenadas entre partidos, movimentos sociais, sindicatos e organizações populares.
A conferência segue até domingo (29), com o objetivo de consolidar propostas concretas e fortalecer redes de cooperação global. Confira aqui a programação completa.
