Ditadura Nunca Mais

‘A Mala Vermelha’: Eva Uviedo e a literatura como resistência aos 50 anos do golpe argentino

Autora resgata o olhar de uma criança diante da ditadura na América Latina e alerta para o negacionismo do governo Milei

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"A Mala Vermelha", livro de Eva Uviedo
“A Mala Vermelha”, livro de Eva Uviedo | Crédito: Reprodução/@evauviedo / Instagram

No ano em que se completam 50 anos do golpe militar que instaurou na Argentina uma das ditaduras mais sangrentas da história da América Latina, a literatura se coloca como trincheira de memória. Em meio à ascensão de um governo negacionista que tenta reescrever o passado e apagar os 30 mil desaparecidos, a escritora Eva Uviedo lança A Mala Vermelha — uma obra que, pelo olhar de uma criança, reconstrói o horror, a desestruturação familiar e a violência cotidiana do regime.

“Eu acho que a gente tem que fazer esse enfrentamento em todas as áreas possíveis, não só na Argentina, onde a situação é mais didática, porque ele realmente é negacionista de coisas que há muito tempo já estavam estabelecidas”, afirma Eva, em entrevista ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato. “A gente vê agora pipocando uns discursos do tipo: ‘ah, mas tem que ver’. Não tem que ver nada. É um horror. A pior forma de lidar com qualquer coisa do estado é matando pessoas grávidas, crianças. A gente tem que chegar a ponto de falar esse tipo de coisa porque a situação está muito grave.”

A Mala Vermelha nasce de uma necessidade pessoal e coletiva. Eva, que veio para o Brasil aos 10 anos com sua família exilada, demorou décadas para elaborar a experiência traumática vivida na infância. A obra é construída a partir da única perspectiva que ela poderia trazer com autenticidade: a de uma criança.

“Essa única perspectiva que eu conseguiria trazer desse momento foi o que eu vivi. E foi como um entender como eu me senti em relação a esses momentos. São coisas que a gente às vezes demora muito tempo para elaborar”, explica.

A autora conta que o fato de ter vindo para o Brasil — “uma terra acolhedora” — acabou fazendo com que essa história fosse deixada um pouco de lado por muitos anos. Mas chegou o momento, inspirado por outras publicações e pela emergência de um coletivo de filhos e filhas de exilados em Buenos Aires, de tratar sobre o assunto.

No livro, Eva retrata a rotina de uma família que, de um dia para o outro, vê sua vida desmoronar. O pai, diretor de teatro, perde oportunidades, tem o passaporte cassado, sofre perseguição. A casa é constantemente revistada por militares. E a criança, sem compreender plenamente o que acontece, registra os sinais do terror.

“Meus pais eram revolucionários. Meu pai era diretor de teatro, era bem famoso até. Teve uma desestruturação em torno disso: perder trabalho, perder oportunidades, não poder se locomover. Ele teve oportunidades fora do país, deixaram o passaporte dele cassado, enfim, vários problemas. Perseguição aos artistas”, relembra.

Uma das cenas mais emblemáticas do livro é a do escritório do pai revirado. Eva conta que isso é baseado em fatos reais. “Minha casa era constantemente revistada por policiais e por militares. Para mim ficaram muito presentes as botas. Chegavam pessoas numa casa que era assim uma delicadeza, era a casa da minha avó, e chegavam com as botas e tiravam tudo das gavetas e jogavam tudo no chão em busca de sei lá o quê.”

A escritora destaca a brutalidade da censura na Argentina. “A ditadura argentina foi uma das mais sanguinárias e burras. Eles censuraram um livro que falava de Cuba eletrolítica porque tinha Cuba no nome. Era um livro de física.”

Para a criança, o que ficou foi o caos criado naquele ambiente de ordem. “Eram homens mal educados. Ela não sabe se é policial, militar, civil ou do exército. Ela não sabe nada. Ela sabe que aconteceu alguma coisa que quebrou a ordem. O livro inteiro tem isso: a criança com o olhar que é do que ela consegue interpretar e as imagens mostrando o que um adulto vai conseguir decodificar como violência.”

O exílio, tão presente na trajetória de Eva e de tantas famílias latino-americanas, é hoje reconhecido como uma violação de direitos humanos. A autora destaca o trabalho do coletivo Hijos e Hijas de Exílio, em Buenos Aires, que há 10 anos atua para manter viva a memória e a consciência política.

“A minha geração de filhos de exilados hoje em dia consegue. Existe o coletivo Hijos e Hijas de Exílio em Buenos Aires, que trata disso e participa ativamente. E é uma coisa assim: a gente não tá falando de passado só. É um coletivo que existe e eles procuram estar sempre presentes nas marchas de hoje.”

Eva observa, no entanto, que nem todos os que passaram pelo exílio desenvolveram uma consciência política à esquerda. “Mas eu acho que a grande maioria tem e tem uma consciência do cenário hoje, de quanto que é importante a gente se posicionar.”

O negacionismo de Milei e a importância da memória

Diante do atual governo de Javier Milei, que tem promovido um discurso revisionista sobre a ditadura, Eva vê sua obra e outras iniciativas de memória como ferramentas fundamentais de resistência.

“É um reflexo da América Latina inteira. A gente tem que ficar muito alerta especialmente ao discurso que é veiculado. Eu acho que é uma questão do governo Milei, é um problema. Eu vejo problema nos meios de comunicação não dando a devida importância a esse tipo de ascensão desse tipo de discurso, aceitando algumas teses. A gente precisa tá muito alerta com isso.”

A autora enfatiza a importância de falar sobre o período com as novas gerações. “Falar disso com essa nova geração que não teve contato com nada é super importante. Eu acho que tem uma questão de gente como eu, que demorou muito para elaborar. Às vezes eu vejo, por exemplo, a minha mãe conseguindo falar disso mais naturalmente com os netos do que comigo. A gente passou por um trauma junto e meio que superou e aquilo tá resolvido.”

Eva vê na transmissão da memória um gesto de continuidade. “Quando eu vejo ela falar sobre essas questões com os meus filhos, que hoje já são adultos e têm perguntas sobre aquele período, eu vejo o quanto que é importante continuar propagando isso, não só para crianças, para adultos, para poder continuar com essa conversa e ir levando adiante para que eles possam falar com a próxima geração do que são essas coisas, esses traumas.”

O título do livro faz referência a um objeto que, na narrativa, carrega o peso do que se perde. Na vida de Eva, o símbolo maior do que ficou para trás foi um boneco enorme, um lobo, que não coube na mala.

“O deixar para trás, no caso do lobo, é literal. Era um boneco enorme que eu tinha e não deu para trazer. E para mim ele ficou como a marca de tudo que não cabia na mala mesmo. Eu nem lembro as coisas que eu trouxe, para ser bem sincera, eu lembro o que eu deixei. Todas essas coisas. Isso é um ícone muito grande, porque ele era enorme, não tinha como.”

Para Eva, o principal no livro é “mostrar o cotidiano, a história que a gente deixa para trás”.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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