Política

Governos do Rio têm sido capturados pelo crime organizado e pelas milícias, avalia cientista político

Cláudio Gonçalves Couto analisa crise fluminense e afirma que estado vive 'situação completamente em aberto'

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O ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro
O ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

O ano eleitoral de 2026 começou com o cenário político brasileiro mais turbulento do que muitos imaginavam. Enquanto o país se prepara para as urnas em outubro, os acontecimentos se sucedem em ritmo acelerado: o caos institucional no Rio de Janeiro, a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), as manobras no Congresso Nacional e o fantasma de uma candidatura presidencial que promete levar ao extremo o projeto bolsonarista. Para o cientista político Cláudio Gonçalves Couto, tudo isso compõe um quadro de riscos significativos para a democracia brasileira.

“O Rio de Janeiro realmente tem mostrado um histórico na política estadual de muita complicação”, avalia no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “Veja quantos governadores ou ex-governadores do Rio de Janeiro acabaram em cana. Não é um número desprezível. E agora a gente vê mais um exemplo disso.”

O estado do Rio de Janeiro vive mais um capítulo de sua crise institucional. Com o governador Cláudio Castro afastado e o presidente da Assembleia Legislativa preso, a sucessão estadual se transformou em um imbróglio jurídico e político que reflete a captura do poder público por interesses escusos.

“Para tudo ficar mais complicado, você não tinha um vice que pudesse assumir com o afastamento do governador por conta de decisões anteriores. Então a gente tem essa situação completamente em aberto”, explica Couto. “O próprio presidente da Assembleia Legislativa é um sujeito que tá preso. Então você também tem essa consequência tornando tudo mais complicado.”

O cientista político aponta que a crise fluminense é sintoma de um problema mais profundo: a captura do estado por segmentos vinculados ao crime organizado e às milícias. “Os governos, ao longo de vários anos, têm sido objeto de captura por parte de certos segmentos muito problemáticos da política do estado. Segmentos vinculados ao crime organizado, vinculados às milícias, ou com práticas completamente absurdas como essa do governador Cláudio Castro de instrumentalizar contratações no âmbito da Uerj para transformar os contratados em cabos eleitorais.”

Congresso paralisado e o protagonismo de Hugo Motta

Enquanto o Rio vive sua crise particular, o Congresso Nacional também tem dado mostras de inoperância em um ano decisivo. Couto critica a condução da Câmara dos Deputados pelo presidente Hugo Motta.

“A gente tem o ano avançando, já estamos quase em abril e, do ponto de vista de decisões importantes para resolver questões do país, simplesmente até agora não tivemos nada de muito significativo. Isso também tem a ver com a condução da presidência das duas casas, principalmente por Hugo Motta, na Câmara dos Deputados. Hugo Motta tem se mostrado um deputado tremendamente fraco na condução da casa legislativa.”

Para o cientista político, essa paralisia tem consequências diretas para o processo eleitoral. O eleitor, tradicionalmente mais atento à disputa presidencial, precisa agora redobrar a atenção para as eleições legislativas.

“O eleitor muitas vezes presta pouca atenção na eleição para o Congresso, dá muita atenção à eleição presidencial, mas é bom lembrar que não só o Congresso sempre foi importante, mas nessa atual conjuntura eu diria que se tornou ainda mais importante, ainda mais relevante. Então, mais um motivo para a gente ter muito olho aberto sobre como vai votar nas eleições do legislativo”, alerta.

Bolsonaro em prisão domiciliar: peregrinação política ou repouso necessário?

A concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro acendeu um alerta sobre os possíveis usos políticos de sua nova condição. Durante o período em que esteve detido na Papuda, as visitas de aliados já eram disputadas; agora, em casa, o temor é que o imóvel se transforme em um QG eleitoral informal.

Couto acredita que o Supremo Tribunal Federal, especialmente o ministro Alexandre de Moraes, deve impor limites. “Quando ele esteve em prisão domiciliar por conta da precaução para evitar que ele fugisse, não era todo mundo que podia visitar. Assim como não era todo mundo que podia visitá-lo a qualquer hora dentro da cadeia. Na realidade, o que a gente deve ter é a continuidade disso, ou seja, algum tipo de restrição a essas visitas para que aquilo ali não vire de repente um lugar de peregrinação.”

O cientista político ressalta que, se a intenção é preservar a saúde frágil de Bolsonaro — um dos argumentos usados para justificar a prisão domiciliar —, faz sentido limitar as visitas. “Se é alguém com saúde tão frágil, não dá para ficar sendo visitado o tempo inteiro. A pessoa com saúde tão frágil precisa de repouso.”

Um episódio recente acendeu um sinal de alerta ainda mais forte. O jornal The New York Times publicou que a família Bolsonaro teria influenciado o governo Trump para transformar facções criminosas brasileiras em organizações terroristas — uma medida que poderia ter impactos severos sobre a diplomacia e a soberania nacional.

“Veja que o prejuízo não foi pequeno ao longo desse tempo que as sanções estiveram sendo exercidas sobre o Brasil”, avalia Couto. “Houve uma postura muito habilidosa da diplomacia brasileira nesse caso, que tentou provocar o governo estadunidense sem bater de frente com ele, como fizeram outros governos que acabaram se colocando numa situação muito vulnerável.”

O cientista político alerta para o risco de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais. “Se a gente tiver aqui um candidato que é um serviçal dos Estados Unidos, a interferência nas eleições brasileiras tem que ser considerada e não é pequena. Imagine se esse candidato por ventura fosse presidente do país. Como é que ele se colocaria nessa situação?”

Uma das narrativas construídas em torno da candidatura do senador Flávio Bolsonaro é a de que ele seria mais “moderado” ou “aberto ao diálogo” do que o pai. Couto refuta essa ideia com base no histórico do parlamentar.

“É muito mais talvez um estilo pessoal do que propriamente diferenças de posicionamento político. Sabe como é que a família Bolsonaro opera? Sabe, inclusive, de toda a proximidade que Flávio Bolsonaro teve com as milícias do Rio de Janeiro. Chegou a empregar parentes milicianos no seu gabinete. Sabemos também que ele condecorou esse indivíduo com uma comenda do estado do Rio quando era deputado estadual. Então não dá para imaginar que se trata de um indivíduo realmente moderado”, explica.

O cientista político lembra ainda que Flávio Bolsonaro já defendeu publicamente a presença de navios de guerra estadunidenses na Baía de Guanabara. “É muito perigoso para a democracia, para a soberania nacional, uma candidatura que, se vitoriosa, leve um extremista ao governo brasileiro. Quando a gente fala em bolsonarismo, está necessariamente falando em extremismo. Não existe extremismo moderado. Portanto, não existe bolsonarismo moderado.”

Com a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro se consolidando e a dificuldade de uma terceira via viável, analistas apontam a possibilidade real de que a eleição seja decidida já no primeiro turno. Para Couto, o cenário exige que a sociedade esteja atenta ao que está em jogo.

“Uma eleição que, se vitoriosa, leve um extremista ao governo brasileiro. E a gente, quando fala em bolsonarismo, está necessariamente falando em extremismo. Esse modo distinto de se comportar de Flávio em relação ao pai e aos dois irmãos não significa um posicionamento diferente na condução dos negócios de governo”, destaca.

O cientista político enumera os riscos: “Ele já declaradamente disse que tem que indultar os golpistas, seu pai, os peixes pequenos ali do 8 de Janeiro, e a quadrilha toda que se associou ao pai dele na tentativa de golpe, os militares que foram presos, Braga Netto, Augusto Heleno, o Ramagem que está foragido nos Estados Unidos. Toda essa quadrilha, no governo de Flávio Bolsonaro, poderia se ver beneficiada.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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