“Neste momento, cada míssil iraniano vinga uma criança e uma mulher palestina. Cada ataque iraniano que atinge as Forças Armadas de Israel vinga os povos do mundo, que devem ser sempre solidários à causa palestina.” Com essa declaração, o jornalista Breno Altman iniciou sua intervenção no debate “A resistência palestina ao genocídio e à opressão do Estado de Israel”, realizado na tarde de sábado (28), dentro da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre de 26 a 29 de março.
Altman prosseguiu situando o conflito no Oriente Médio como um divisor central do cenário internacional. “A questão palestina é a régua moral e geopolítica do mundo. É a régua moral porque divide a parte sã da humanidade da parte doente, porque nos permite ver quem está do lado certo e quem está do lado errado da história. Mas também é a régua da justiça, porque a consolidação do regime sionista é uma peça essencial da estratégia imperialista.”

Ao relacionar diretamente Israel à política externa dos Estados Unidos, ele apontou possíveis desdobramentos do conflito. “Se esse cão de guarda for derrotado, a estratégia norte-americana para o Oriente Médio se despedaça. E, se essa estratégia se despedaça, os povos do mundo terão um enorme avanço na luta pela emancipação”, afirmou.
O jornalista encerrou sua intervenção destacando sinais de desgaste da legitimidade do sionismo e o crescimento de jovens judeus que rompem com a ideologia e passam a apoiar a causa palestina, um indicativo de uma crise mais ampla. Ao concluir, reforçou o caráter histórico e prolongado da disputa e o sentido da resistência: “Será uma luta longa e difícil, mas é uma luta que vale a pena.”

A atividade lotou o Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), reunindo um público marcado por denúncias ao avanço de uma ofensiva global de caráter fascista, associada à atuação dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio. Antes da fala dos palestrantes e debatedores, ocorreram apresentações de dança dabka, com o grupo folclórico palestino Terra e o grupo Guapas 60+, formado por educadores aposentados.
O jornalista Leandro Demori, do ICL, abriu a mesa chamando os palestrantes. A mediação foi de Gabi Tolotti, presidenta do Psol-RS e integrante da Global Sumud Flotilha, que situou a Palestina como expressão concreta de uma escalada mais ampla de violência. Ao destacar mais de oito décadas de ataques e a intensificação recente em Gaza, apontou que o genocídio ocorre diante de uma normalização inquietante, sendo acompanhado em tempo real enquanto a vida cotidiana segue sem ruptura.
Fascismo e estratégia global
Ualid Rabah, que preside a Federação Árabe Palestina (Fepal), caracterizou o momento atual de ataque à Palestina como uma fase avançada do fascismo, definida por um “totalitarismo genocidário”. Ele lembrou que o processo não pode ser reduzido a governos específicos. “O genocídio em Gaza não começa com Trump. Começa antes, com Biden, com os democratas. Isso não significa que Trump não seja genocida, mas é preciso entender que há uma continuidade, uma política de Estado.”

Na avaliação de Rabah, o que está em curso inaugura um novo padrão de violência. “É o maior extermínio de crianças da história em termos proporcionais. É o ataque às mulheres, aos ventres. É a primeira tentativa de colapsar a capacidade reprodutiva de toda uma sociedade.” Segundo ele, trata-se de uma lógica que ultrapassa o campo militar e atinge a própria base social palestina.
Ele também situou o sionismo como uma inflexão dentro do colonialismo. “É a primeira ideologia colonial que resolve exterminar toda uma população originária como objetivo.” Ainda assim, destacou a permanência palestina como elemento de resistência histórica. “Eles não conseguiram cumprir esse objetivo até hoje. Essa é a principal vitória palestina.”
Rabah apontou ainda que esse modelo se expande para o conjunto do Oriente Médio, articulado à estratégia dos Estados Unidos, como o ataque ao Irã. “Estamos diante de um paradigma em que a limpeza étnica passa a ser o objetivo, e isso exige níveis cada vez maiores de violência e controle.”
Mobilização e resistência internacional
O militante Thiago Ávila, da Global Sumud Flotilha, destacou o papel das mobilizações internacionais em apoio à Palestina e situou o Irã dentro do campo de resistência regional. “A gente tem hoje uma janela importante, em que a resistência acontece no Irã, no Líbano, na Palestina. São povos enfrentando esse projeto de dominação.”

Segundo ele, o levante global dos últimos anos já produziu efeitos concretos. “Cada pessoa que se mobilizou ajudou a derrotar planos que previam a expulsão em massa do povo palestino.” Para Ávila, essas ações demonstram capacidade real de enfrentamento ao projeto imperialista.
O militante também criticou a narrativa da existência de um cessar-fogo na região. “Se, em qualquer cidade do mundo, como Londres ou Paris, centenas de pessoas fossem assassinadas por drones, bombas e tanques, alguém chamaria isso de paz?” Ao descrever o cotidiano em Gaza, afirmou: “Estamos falando de uma população cercada, sob ataque constante. Isso não é cessar-fogo, isso é tecnofascismo.”
Apesar disso, apontou mudanças no cenário internacional. “A consciência global avançou, mas precisa virar ação concreta. Só assim será possível enfrentar esse sistema.”
Solidariedade e pressão internacional
Também participou da mesa o embaixador da Palestina, Marwan Jebril, que destacou o impacto da solidariedade internacional. Segundo ele, mobilizações ao redor do mundo ajudam a sustentar a resistência, especialmente em momentos de desgaste. Também afirmou que não há trégua efetiva e que mortes ocorrem diariamente.

Ao mencionar o efeito concreto desse apoio, Jebril ressaltou o papel simbólico das manifestações globais. “Quando às vezes nos faltam forças, vemos tantas bandeiras da Palestina, tantas pessoas mobilizadas, e isso nos dá ânimo, esperança e fé para seguir nesse caminho de resistência”, afirmou.
Ibrahim Alzeben, embaixador da Liga Árabe, ressaltou a dimensão global da causa palestina e agradeceu o apoio brasileiro. Ao encerrar um ciclo de quase 25 anos em que foi embaixador da Palestina no Brasil, afirmou que a causa mobiliza milhões de pessoas e atravessa fronteiras.

Ele também enfatizou o vínculo construído ao longo desse período e o reconhecimento internacional à posição do Brasil. “Transmito o sentimento de mais de 400 milhões de árabes que apoiam a Palestina. Podem acreditar que o Brasil está presente em cada lar árabe”, declarou.
Maren Mantovani, do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), relacionou o apoio à Palestina à necessidade de países da América Latina e do mundo romperem relações com empresas militares, tecnologias de controle e doutrinas de segurança desenvolvidas por Israel. Defendeu que o enfrentamento passa por interromper essas conexões. “Não se trata apenas de denunciar, mas de cortar relações, não normalizar o apoio a Israel e interromper fluxos concretos que sustentam esse sistema”, afirmou.

Ela destacou o papel do movimento internacional e os resultados já alcançados. “O BDS é a ferramenta que o povo palestino ofereceu ao mundo para construir uma solidariedade eficaz, que não apenas protesta, mas rompe relações de cumplicidade e pressiona mudanças reais”, afirmou.
A docente Muna Muhammad Odeh, integrante do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), também afirmou a necessidade de “romper relações diplomáticas, comerciais e de todos os tipos com Israel”. Ela trouxe dados sobre o apoio da população de Israel aos ataques militares em Gaza. “O Instituto Lemkin para Prevenção do Genocídio classificou Israel como um Estado genocida apoiado por uma sociedade que sustenta esse processo.”

Odeh disse que “a limpeza étnica, infelizmente, não é incomum na história”, mas destacou que o que ocorre atualmente é sem precedentes. “Uso massivo de armamentos modernos, bombardeios intensivos, bombas de grande potência e munições altamente destrutivas. Em 1948, a limpeza étnica ocorreu majoritariamente com armas leves e confrontos diretos. Hoje, trata-se de outro patamar de destruição.” Lembrou também que a atenção internacional tem sido desviada para outros conflitos, como o Irã, o que, segundo ela, abre espaço para a intensificação da violência nos territórios ocupados, com avanço de ataques de colonos armados em níveis alarmantes.
Direito internacional, resistência e papel do Brasil
Após as intervenções dos palestrantes, subiram ao palco três debatedores. Sayid Marcos Tenório, do Instituto Brasil Palestina (Ibraspal), afirmou que a situação na Palestina não pode ser tratada como um conflito convencional, mas como um processo histórico de colonização. Segundo ele, o direito internacional reconhece a legitimidade da resistência de povos sob ocupação, inclusive por meios armados. “Não se trata de opinião a favor ou contra a luta de resistência do povo palestino. Trata-se da legalidade internacional”, afirmou, ao citar instrumentos como a Carta das Nações Unidas e a Convenção de Genebra.

Tenório apontou uma mudança no cenário geopolítico e avaliou que o “mito da invencibilidade de Israel está ruindo”. Segundo ele, reações do Irã estão “pondo por terra” essa imagem de poder absoluto, indicando o início de um colapso histórico do projeto colonial de ocupação. “Israel caminha não para a vitória, mas está destinado a desaparecer das páginas do tempo e da história”, afirmou, ao concluir que a libertação palestina se insere em um processo mais amplo de derrota do fascismo, do neofascismo e do imperialismo.
A vereadora de Campinas (SP), Mariana Conti (Psol), afirmou que o conflito evidencia os limites do projeto sionista e da ordem internacional. “Israel e Estados Unidos não escondem isso. O projeto do Grande Israel está na mesa, está sendo mostrado. A causa palestina revela até onde essa burguesia, essa oligarquia burguesa colonial é capaz de ir e revela o quão necessário é a resistência do mundo”, disse.

Conti mencionou a Global Sumud Flotilha, da qual faz parte, como exemplo de solidariedade internacional e retomada de formas de luta. Segundo ela, a iniciativa é um aprendizado para uma geração que havia se distanciado do horizonte da greve geral e da luta internacionalista e recoloca em pauta mobilizações mais amplas. Lembrou a reação de portuários europeus após a prisão da flotilha por Israel: “Se tocarem na flotilha, nós paramos a entrada de mercadorias da Europa”.
Já a vereadora de Porto Alegre e líder da bancada do PT, Juliana de Souza, destacou o papel das mulheres, que “são linha de frente da resistência histórica da luta palestina”, e que também são as maiores vítimas dos ataques. “São também as mulheres palestinas as maiores vítimas das armas apontadas pelos homens genocidas. Começo com isso porque é importante que a gente posicione alguns pontos e perspectivas que muitas vezes são invisibilizados”, disse.

Na sequência, Juliana destacou o papel histórico do Brasil no reconhecimento do Estado palestino, lembrando que o país formalizou essa posição em 2010, durante o governo Lula, e que o presidente, em 2025, foi o primeiro líder de nação a chamar os ataques de genocídio. Ela também mencionou a atuação recente no Conselho de Segurança da ONU e avaliou que os vetos dos Estados Unidos evidenciam a crise do multilateralismo. “Genocídio não é apenas matar. Genocídio é tornar impossível viver”, afirmou.
Articulação internacional e memória política
Ao longo do debate, os convidados apontaram a conferência como espaço estratégico de articulação internacional para enfrentar a ofensiva autoritária global, fortalecer a solidariedade entre povos e organizar respostas concretas em defesa da democracia e da soberania. Lembraram de Porto Alegre como berço do Fórum Social Mundial, situando a cidade como referência histórica de articulação internacional de movimentos sociais e de construção de agendas contra-hegemônicas.

No encerramento, a mediadora Gabi Tolotti reforçou o papel da luta coletiva como motor das transformações históricas e retomou o sentido político da solidariedade internacional. “A gente precisa entender é que só a luta muda a vida. Nós não vamos parar de lutar até que a Palestina seja livre, porque, enquanto ela não for, nenhum de nós será livre”, afirmou, encerrando o debate sob o coro de “Palestina livre”.
