A edição 559 da revista América Latina em Movimento, da Agência Latino-Americana de Informação (Alai) em coordenação com o Observatório Latino-Americano de Geopolítica, toma a inteligência artificial (IA) como uma chave para ler a reorganização do poder no capitalismo global. Sob o título Pax Silica: nova estratégia de guerra, a publicação reúne análises sobre o avanço das big techs, a concentração de infraestrutura tecnológica e a produção de novas formas de dependência para os países do Sul Global.
O dossiê trata a IA menos como novidade técnica e mais como peça de uma transformação profunda nas formas de coerção, vigilância e guerra. Em vez de aparecer apenas como ferramenta de produtividade ou automação, a inteligência artificial é percebida como parte de uma engrenagem que conecta extração massiva de dados, poder corporativo, sistemas de controle e aparato militar.
Para a economista mexicana Ana Esther Ceceña, diretora da publicação, esse debate se impõe porque a tecnologia, no capitalismo, não opera como ferramenta neutra. “A tecnologia no capitalismo é um dispositivo de poder”, afirma em entrevista ao Brasil de Fato. “É por meio da tecnologia que se intervém nas relações sociais, que se desenha a organização da sociedade e a maneira como o poder se organiza dentro dela.”
Na leitura de Ceceña, o momento atual deve ser entendido como um salto de época. “Temos outro salto tecnológico. Poderíamos inclusive falar em revolução tecnológica pela maneira como isso está ocorrendo”, diz.
Trata-se, segundo ela, de uma transformação já em curso, com impacto direto sobre a vida social, os processos políticos e os modos de disciplinamento. “É um salto tecnológico que vai moldar nossas vidas, que já está moldando nossas vidas, e que precisamos entender.”
Ao longo da edição, autores de diferentes países discutem como cadeias de semicondutores, centros de dados, nuvens, cabos submarinos e sistemas algorítmicos vêm redesenhando a geopolítica contemporânea. Nesse tabuleiro, a América Latina aparece pressionada a ocupar um lugar subordinado, cedendo território, energia, água e dados para sustentar uma economia digital controlada de fora.
‘Pax Silica’
O texto de abertura, assinado pelo fundador da plataforma The Syllabus, Evgeny Morozov, dá nome e densidade a esse processo ao definir a “Pax Silica”, iniciativa internacional liderada pelos Estados Unidos, como uma arquitetura de poder baseada no controle das cadeias de inteligência artificial e semicondutores. Mais do que competição econômica, trata-se de organizar alianças, fluxos tecnológicos e acesso à infraestrutura de modo a produzir dependência. A hegemonia tecnológica, sugere o autor, deixa de se apoiar na aparência de mercado e passa a se afirmar de forma mais direta como estratégia de Estado.
Na sequência, a jornalista Sally Burch desloca o debate para o terreno da disputa cognitiva. Seu artigo aborda o poder de “hackear mentes” e discute como a inteligência artificial vem sendo mobilizada para captura da atenção, manipulação de comportamentos e corrosão de instituições cívicas. Ao mesmo tempo, relaciona esse processo à guerra híbrida, na qual vigilância, controle narrativo, intimidação e exploração de dados passam a integrar novas formas de conflito.
O pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam) Raúl Ornelas, por sua vez, analisa a IA como eixo de transformação do paradigma produtivo do capitalismo. Seu texto mostra como o processamento crescente de informação, articulado à automação e à plataformização da economia, amplia o poder dos monopólios tecnológicos e aprofunda desigualdades. Já o professor das Faculdades de Filosofia e Letras (FFyL) e de Ciências Políticas e Sociais (FCPyS) da Unam Cristóbal Reyes chama atenção para a materialidade dessa disputa ao discutir cabos submarinos e centros de dados como infraestruturas físicas decisivas, cujo controle corporativo reforça polarizações globais e novas dependências.
Modelos alternativos e propostas desde o Sul Global
Mas a revista não se limita ao diagnóstico da dominação tecnológica. Um dos movimentos mais importantes do dossiê é justamente mostrar que a disputa em torno da inteligência artificial não está encerrada nem tem um único desfecho possível. Frente à hegemonia das corporações transnacionais estadunidenses, a edição reúne contribuições que procuram abrir caminhos de soberania digital, uso social da tecnologia e organização popular no terreno das infraestruturas e dos dados.
Nesse sentido, o artigo do secretário-geral do Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg), Xiong Jie, examina a experiência chinesa e a apresenta como uma via alternativa de democratização da IA, baseada na expansão de modelos abertos, na regulação estatal e em aplicações vinculadas à economia real. Em outra frente, a presidenta da União Cubana de Cientistas da Informática, Ailyn Febles Estrada, discute os desafios de Cuba para avançar rumo a uma inteligência artificial soberana mesmo sob sanções e bloqueios, associando a agenda tecnológica à autodeterminação nacional.
A edição também se volta para experiências construídas desde organizações populares. As pesquisadoras Natália Lobo, da Organização Feminista Sempreviva; Carol Cruz, da Associação Internacional para a Cooperação Popular (Baobab), e Paula Veliz, da Frente de Tecnologia da Informação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), apresentam a proposta da IARAA, uma inteligência artificial popular para a agroecologia, vinculada à construção de alternativas no campo brasileiro. O secretário de Saúde da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar da Central Única dos Trabalhadores (Contraf-CUT), Mauro Salles Machado, discute a criação de uma rede federada, popular e soberana de dados, pensada como instrumento para que trabalhadores e organizações retomem controle sobre suas próprias informações e sobre as infraestruturas que as sustentam.
No artigo sobre soberania digital no Sul Global, o historiador e pesquisador do Instituto Tricontinental Miguel Enrique Stédile situa essa agenda como uma das disputas políticas centrais do presente, porque atravessa trabalho, democracia, economia e dependência. Já o coordenador de Baobab, Luiz Zarref, e a coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil, Tica Moreno, encerram o número com uma reflexão sobre inteligência artificial e nova era tecnológica na perspectiva socialista, defendendo que os povos não podem entrar nesse debate apenas para denunciar riscos, mas para formular projetos, disputar usos e ampliar o campo do possível a partir das necessidades concretas da vida popular.
Ceceña afirma que esse é precisamente o objetivo da edição. “Na revista América Latina em Movimento estamos sempre tentando discutir os temas de vanguarda, os temas de ponta, aqueles que estão condicionando nossas vidas, nossos processos políticos”, diz. Por isso, segundo ela, o debate sobre inteligência artificial precisa ser acompanhado de perto, em suas implicações materiais, militares, econômicas e culturais.
A diretora da publicação sustenta que compreender esse cenário é condição para agir sobre ele. “É fundamental estar aí, entender e, além disso, encontrar o modo de intervir nisso”, afirma.
