Com centenas de pessoas, a 6ª Caminhada do Silêncio ocorreu no domingo (29), com início na Rua Tutóia, local onde funcionou o destacamento do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) durante o regime militar em São Paulo (SP), um dos principais órgãos de tortura do país. O evento, que integra o calendário oficial da capital paulista pela Lei nº 17.886, reuniu familiares de mortos e desaparecidos políticos, além de movimentos sociais.
Conforme registrado pela Agência Brasil, a coordenadora do Instituto Vladimir Herzog, Lorrane Rodrigues, afirmou que a mobilização visa “aproximar o passado e o presente para a população”, sob o argumento de que a democracia atual não atende de forma igualitária a todos os setores sociais.
Ela ainda destacou que o conjunto de recomendações da Comissão Nacional da Verdade é uma das ferramentas para alcançar resultados no campo da memória, verdade e justiça.
“São 49 recomendações ao Estado [brasileiro] e que, até esse momento, do período que foi lançado até agora, foram pouco ou parcialmente cumpridas. A gente já tem um caminho, o instituto faz o monitoramento das recomendações a cada dois anos, e o que a gente tem percebido é que são movimentações pequenas, alguns avanços significativos, mas acho que muito pouco perto do que as recomendações propõem para a sociedade”, relatou.
O grupo seguiu em silêncio até o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, próximo ao Parque Ibirapuera, portando fotografias de vítimas de diferentes períodos históricos.
Segundo os organizadores, o ato constitui um exercício de cidadania para que as violências do passado não se repitam e as atuais não sejam ignoradas.

Rogério Sotilli, também diretor do Instituto Vladimir Herzog, declarou à Agência Brasil em nota que a iniciativa surge como resposta a tentativas de apagamento histórico e no contexto de enfrentamento a ataques contra o Estado Democrático de Direito, como os ocorridos em janeiro de 2023.
“Após cinco edições, queremos retomar o sentimento que originou essa manifestação. Temos vivido tempos em que a defesa do Estado democrático de Direito ficou muito delegada às mais altas instituições, mas seguimos enfrentando ataques graves contra a democracia. Por isso, este é o momento de dizermos que estamos na rua, de voltarmos a demonstrar nossa força”, disse.

Durante a mobilização, os participantes destacaram a tese defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre a possibilidade de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos de crimes permanentes, a exemplo da ocultação de cadáver.
O historiador César Novelli, do Núcleo Memória, relatou ao Brasil de Fato que a mobilização vincula a memória do regime militar às questões contemporâneas, pois, para determinados estratos da sociedade, a violência de Estado permanece em curso.
Segundo ele, o trajeto da marcha possui caráter histórico, mencionando que, em 2024, a organização passou diante do Círculo Militar e do Comando do Sudeste, enquanto, em 2025, a Polícia Militar vetou o mesmo percurso sob justificativa de segurança devido a outra manifestação na Avenida Paulista.

Para Novelli, o episódio demonstrou que a memória “continua andando, ainda que tentem interditar o caminho”, reforçando que o movimento persiste porque os problemas originados no período militar não foram solucionados e, para grande parcela da sociedade, a ditadura “não terminou”.
Durante o encerramento da atividade, organizadores realizaram a leitura de um manifesto que descreveu o silêncio dos participantes como uma forma de presença e resistência contra o esquecimento de pessoas que sofreram tortura ou morte por agentes estatais.
“Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência.
Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer.
Saímos de um lugar marcado pela dor, o antigo DOI-Codi, onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias. E seguimos até um monumento que insiste em lembrar: as histórias não foram apagadas.
Nossos mortos não estão no passado. Nossos desaparecidos não são ausência.
Cada vítima de violência do Estado é permanência.
Se a Caminhada do Silêncio nasceu da urgência de resistir, seguimos caminhando porque ainda é preciso.
Este ato nasceu quando a democracia voltou a ser ameaçada de forma aberta, quando o autoritarismo deixou de ser lembrança e voltou a ser projeto.
Hoje, anos depois, seguimos aqui, porque a ameaça não desapareceu. Ele se transformou, se reorganizou e segue à espreita.
Nunca foi tão importante defender a democracia. E nunca podemos esquecer: essa luta é contínua.
Relembrar para não repetir. Ocupar a memória para não esquecer nossa história.
Porque, sem memória, a violência se naturaliza. Sem verdade, a mentira se institucionaliza. E sem justiça, a barbárie se repete.
A violência de Estado não ficou no passado.
Lutar por memória, verdade e justiça é afirmar que não aceitamos a impunidade. É exigir a responsabilização de torturadores, de seus cúmplices e daqueles que financiaram o terror.
É dizer, com todas as letras: ditadura nunca mais. Tortura nunca mais.
Este manifesto não é apenas denúncia. É compromisso.
Por isso, fazemos um chamado:
Às novas gerações que não viveram o terror, mas herdam suas consequências. À sociedade civil que não pode se calar. Às instituições, que precisam ser defendidas, mas também transformadas.
Este é um tempo de escolha: entre esquecer ou lembrar. Entre repetir ou transformar. Entre silenciar ou agir.
Sabemos que resistir não é apenas lembrar o passado. Mas disputar o futuro.
Hoje, nosso silêncio fala. E o que ele diz é simples e inegociável:
Para que nunca se esqueça.
Para que nunca mais aconteça.
Seguiremos caminhando.”
Por fim, foram lidos os nomes das vítimas de violência de Estado do período da ditadura e de quem sofreu com isso também nos dias atuais. Após a leitura de cada um dos nomes, os manifestantes gritaram, em coro, “presente”.
