A oficialização da candidatura do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), pelo PSD, na segunda-feira (30/03), reacendeu o debate sobre o papel do centrão nas eleições presidenciais de 2026. Para o cientista político Rudá Ricci, a movimentação revela muito mais sobre a lógica de sobrevivência do bloco fisiológico do que sobre uma real disputa pelo Planalto.
“Todo mundo que sai candidato sem nenhuma chance, ele sai para vender”, afirma Ricci, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “E a venda não é exatamente só o apoio dele, mas é, por exemplo, dinheiro para as bancadas que eles querem eleger. Isso é muito comum na política.”
Para o cientista político, a candidatura de Caiado cumpre duas funções principais. A primeira é tentar ocupar um espaço no campo bolsonarista, que hoje se divide entre lideranças como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A segunda é fortalecer a direita no Centro-Oeste, região onde Caiado tem sua base eleitoral.
No entanto, Ricci é enfático ao lembrar o histórico do governador goiano em disputas presidenciais. “O Caiado já foi candidato a presidente em 1989 e obteve 0,67% dos votos totais, ou seja, menos de 1%. Ele já tinha muito espaço político, era presidente da União Democrática Ruralista (UDR), de extrema direita, tinha uma liderança fortíssima junto ao agronegócio, e teve 1% dos votos. Portanto, ele não tem muito espaço. A questão aqui é realmente de vender o apoio pro segundo turno.”
Ricci traça um perfil do centrão brasileiro que ajuda a entender suas movimentações eleitorais. “O centrão é uma mistura de lideranças que se vinculam à tradição da Arena, o partido governista da ditadura militar, portanto vinculado às perseguições políticas, assassinatos, com recursos de estado, tortura e assim por diante. É um pessoal que não tem uma vocação histórica com a democracia.”
O outro lado do bloco, segundo ele, é o “baixo clero clientelista, que quer dinheiro para a sua base eleitoral, que quer se reeleger. São deputados que raramente a gente vê na televisão, não têm expressão pública, não são carismáticos, mas têm muito peso nos municípios brasileiros”.
Para Ricci, esse pragmatismo do centrão levará a um racha no apoio à candidatura de Caiado. “Eu acho que o centrão vai rachar. Quase ninguém vai apoiar a candidatura do Caiado. Uma parte vai para a extrema direita por causa dessa linhagem tradicional da Arena. Mas uma parte vai para o Lula, eu não tenho dúvida nenhuma. Pode demorar um pouquinho, mas vai para o Lula, porque é muito pragmática. Na medida que perceber que o Lula pode se reeleger, a tentativa vai ser: o que que eu ganho apoiando o Lula? Algum dinheirinho eu vou conseguir, algum ministério. É aí que começa as negociações.”
O cientista político identifica um padrão nas movimentações da direita para 2026 que se assemelha ao que ocorreu nas eleições de 1989, a primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar.
“O padrão que está se formando nessa eleição é muito parecido com 89, com um monte de candidatura de direita. E eles sempre acreditam no mesmo mantra: que se tiver muita candidatura, o apoio automático se dá no segundo turno, eles ganham eleição. O problema é que eles não ganham.”
Ricci cita o caso do governador do Paraná, Ratinho Júnior, que desistiu da pré-candidatura presidencial. “A história do Ratinho é o medo do Moro. Ele sai candidato e o Moro engole o campo de direita e extrema direita do Paraná.” E faz um paralelo com Tarcísio de Freitas: “A história do Tarcísio de Freitas é o medo do Kassab. Ele sair candidato e o Gilberto Kassab engolir o estado de São Paulo, que aliás é o que ele está fazendo.”
Para Ricci, a classificação ideológica tradicional não se aplica facilmente ao cenário brasileiro. “Do ponto de vista ideológico, o Lula é a terceira via, ele não é esquerda. Em muitas das políticas dele não é nem de centro-esquerda. Por exemplo, o Ministério da Agricultura, há muito tempo, nos governos do Lula, fica na mão do agronegócio, que parte justamente no Centro-Oeste, Goiás do Caiado.”
Ele completa: “Uma coisa é o que aparece publicamente, a outra coisa é o que aparece no bastidor. É difícil falar do Brasil.”
Os Bolsonaro: despreparo e tropeços iniciais
Sobre a atuação dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro no último fim de semana, Ricci é duro na avaliação. Eduardo Bolsonaro gravou um vídeo em que afirmava que ia “fazer um vídeo pro pai” — uma possível violação das condições da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, que proíbe o uso de celular e a captação de imagens.
“Ele anunciou um cometimento de uma ilicitude. Nesse caso, o ministro Alexandre de Moraes já falou, já arguiu e vai estar perguntando formalmente de onde vem esse vídeo. Porque se ele está nos Estados Unidos, alguém filmou na casa. Se filmou na casa, é alguém que está do lado dele, que está proibido de filmar”, aponta.
Sobre Flávio Bolsonaro, que fez um discurso sobre a importância do Brasil para os Estados Unidos por conta das terras raras, Ricci critica o entreguismo da família. “Flávio vai pro Texas. Pelo visto ele vai fazer campanha para presidente da República dos Estados Unidos, porque ele só falava dos Estados Unidos, não falou nada do Brasil.”
A avaliação final do cientista político sobre os irmãos Bolsonaro é contundente. “É um pessoal despreparado. Eles são despreparados, eles não conseguem ter habilidade política. Eles tentam um pouquinho o que o marqueteiro diz para falar assim ou assado. Aí eles começam a ganhar volume — típico da família Bolsonaro — e ele já começa a trocar os pés pelas mãos. O Eduardo cometeu mais um erro gravíssimo, não só político, mas jurídico, e o irmão dele deu munição para as candidaturas contra eles.”
Resta saber se o campo progressista conseguirá capitalizar esses erros e se manter unido em torno da candidatura de Lula — ou se a polarização, mais uma vez, será decidida nos detalhes. “A sorte deles é que ainda nem começou a campanha, nós estamos muito longe das eleições, eles têm como ajustar”, diz Ricci sobre os Bolsonaro. “Mas começou muito mal.”
Para ouvir e assistir
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