As pesquisas eleitorais divulgadas nas últimas semanas confirmam um cenário que já se desenhava há meses: a disputa presidencial de 2026 será marcada por uma polarização intensa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Segundo levantamento da Paraná Pesquisas, os dois empatam em um eventual segundo turno, com vantagem para Lula no primeiro. Para a cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, esse quadro revela a ausência de espaço para discursos alternativos.
“A polarização se mantém forte. O que a gente observa é a ausência de um espaço para o que se entende por terceira via, para o portador de ideias ou de símbolos alternativos aos símbolos que estão aí”, afirma no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato. “Uma simbologia à direita que orbita em torno da figura de Jair Bolsonaro e que ele transferiu para seu herdeiro, Flávio Bolsonaro, e um outro polo que orbita em torno da figura do Lula e que organiza o campo progressista, mas se expande para além dele. Esses dois polos mobilizam a rejeição ao outro, e é essa mais ou menos a estrutura do sistema político na eleição nacional hoje.”
Apesar da vantagem de Lula no primeiro turno nas pesquisas, Mayra Goulart considera improvável que a eleição seja resolvida já em outubro. “O eleitor, no primeiro turno, ainda faz um voto de protesto, um voto num candidato sem viabilidade eleitoral para demarcar que ele não está contente com a polarização, com essa oferta limitada de candidatos e discursos”, explica. “Mas quando chegar no segundo turno, ele vai fazer um voto que a gente chama de voto útil, um voto no candidato que vai impedir aquele que ele rejeita chegar ao poder.”
A candidatura de Caiado e o papel do PSD
O lançamento da pré-candidatura do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), pelo PSD, na última segunda-feira (30/03), foi interpretado por analistas como mais uma tentativa do centrão de se posicionar no tabuleiro eleitoral. Para Mayra, no entanto, a candidatura não representa uma alternativa real ao bolsonarismo.
“Ratinho Júnior desistiu da pré-candidatura para focar no Paraná. Os 12% que ele chegava a ter nas pesquisas eram meio ilusórios, por dois motivos: foram auferidos antes que a candidatura bolsonarista se estabilizasse — ou seja, antes que o eleitor identificasse quem era o candidato que representaria Jair Bolsonaro — e pela homonímia com o pai, que é muito conhecido”, analisa.
A comparação com o papel cumprido pelo Padre Kelmon em 2022 é inevitável. Naquele ano, o então candidato do PRTB foi visto como uma “linha auxiliar” do bolsonarismo, assumindo um discurso mais radical e permitindo que Jair Bolsonaro se apresentasse como uma opção mais moderada. Mayra Goulart vê potencial para que Caiado desempenhe função semelhante em 2026.
“Essa analogia é perfeita e é muito interessante. Ronaldo Caiado não apresenta um discurso alternativo. Ele em vários momentos se apresenta como um ator à direita e aderente a vários elementos do bolsonarismo. Diferentemente de Eduardo Leite, que de fato portava um discurso alternativo, com uma identidade que não se enquadra no bolsonarismo. A não aposta nele mostra que os atores políticos não acreditam que haja espaço na sociedade para um discurso efetivamente de terceira via”, observa.
O enrosco do STF e a prisão domiciliar de Bolsonaro
A concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro, após sua condenação por tentativa de golpe, gerou um novo campo de tensão entre o Judiciário e o bolsonarismo. Mayra Goulart avalia que o Supremo Tribunal Federal (STF) desperdiçou parte de seu capital político ao se envolver em episódios como o caso Daniel Vorcaro, e agora tenta recompô-lo com concessões.
“O STF cumpriu um papel histórico na defesa da democracia ao condenar aqueles que estiveram envolvidos num golpe de Estado. Porém, desperdiçou parte desse capital a partir de envolvimentos com atores excluídos da esfera privada, nomeadamente Daniel Vorcaro, que teve envolvimento com dois ministros do Supremo, cujas famílias tiveram ganhos financeiros a partir da relação com ele. Esse capital que foi desperdiçado está tentando ser recomposto a partir de algumas concessões”, detalha.
Uma dessas concessões, segundo ela, é a prisão domiciliar a Jair Bolsonaro. “Isso esquece, ignora o fato de que ele colocou uma solda de ferro na sua tornozeleira eletrônica. Ou seja, ele não é um prisioneiro com bom comportamento e, portanto, não merece esse tipo de benesse.”
A cientista política alerta para os riscos dessa situação em ano eleitoral. “Caso o Bolsonaro esteja preso e lhe aconteça alguma questão de saúde, a culpa vai ser do STF. Caso fique em domiciliar, a corda será esticada o tempo todo, testando os limites do Supremo, inclusive podendo interferir de forma definitiva nas eleições.”
Rio de Janeiro: eleição direta ou indireta?
Mayra Goulart também analisa a crise institucional no Rio de Janeiro, onde o Supremo deve decidir se haverá eleição direta ou indireta para governador após a cassação de Cláudio Castro. Para ela, qualquer que seja a decisão, o desgaste será significativo.
“Essa eleição, quando ela acontecer, vai ser um marco de um processo de fragilização institucional. É fruto de uma chapa que foi eleita porque alterou os padrões de competição eleitoral ao fazer prevaricação com recurso público, usando-o para ter privilégios eleitorais. Isso implica não só um desgaste do vice e do candidato eleito, mas também da própria Alerj, cujo presidente é acusado de envolvimento com tráfico de drogas”, analisa.
A professora é categórica ao defender a eleição direta. “Deixar para políticos escolher quem vai ser o governador que vai estar com a máquina no período eleitoral me parece uma temeridade. A despeito do custo, é fundamental que haja uma eleição direta para governador para substituir Cláudio Castro.”
Para ouvir e assistir
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