A feira que encerrou na última sexta-feira (27) em Porto Alegre (Brazil, sim Brazil) foi de uma jequice constrangedora e ululante.
Os caras acham que a inserção da cidade no circuito internacional de alta tecnologia acontece pela simples promoção de feiras, eventos comerciais ou logotipias/cartazetes no idioma inglês.
Porto Alegre é sede de uma das principais fábricas de chips e semicondutores da América Latina.
A unidade industrial de alta tecnologia chama-se Ceitec. É uma estatal federal, e permaneceu inativa por anos (por descaso do golpista Temer e por ignorância do governo Bolsonaro), sem que essa gente que hoje brinca de “novos negócios” e festeja o que chamam equivocadamente de “ecossistema de inovação”, tivesse a menor preocupação com os graves fatos que ocorriam debaixo dos seus narizes.
Pois, o governo Lula recuperou a Ceitec. E os jecas ignoraram tudo isso.
Esse pessoal, que se acha “muderno” e inovador, deveria conhecer uma autora italiana, que também é professora em UK e USA, chamada Mariana Mazzucato.
Na obra chamada “O Estado empreendedor: Desmascarando o mito do setor público versus setor privado”, a professora Mazzucato mostra que o Estado foi fundamental nas revoluções tecnológicas mais recentes do mundo – seja nos USA, seja na Europa ocidental, seja na Rússia, no Vietnã ou na China.
A empresa Apple – para citar apenas um singular exemplo – é reconhecida mundialmente por seus produtos tecnológicos inovadores.
Ainda que seu sucesso no mercado reflita o desempenho de sua capacidade organizacional, a história não contada é o papel do Estado por trás dessas tecnologias, segundo Mariana Mazzucato.
Tecnologias revolucionárias como a internet, o GPS, telas sensíveis ao toque, disco rígido, microprocessadores, semicondutores, bateria de lítio, telas LCD e outras tecnologias de comunicação (a China já lançou um satélite dotado de tecnologia quântica), foram desenvolvidas graças a investimentos enormes e continuados feitos pelo setor público em distintos países do mundo.
Suspeito que os organizadores desta feira-jeca de Porto Alegre desconheçam completamente essa realidade.
Falar em novas tecnologias, inovação e empreendedorismo sem lembrar o papel do Estado é uma falha gravíssima.
Não insere a cidade no circuito internacional pretendido e frustra o jovem estudante que acorre à feira como se fosse o portal de uma nova era.
E a reforma do cais do porto?
O que revolta neste evento é o fato de a empresa espanhola que a promove em várias partes do mundo (e ganha uma grana preta com isso) chegue aqui e arranque recursos públicos do estado RS e da prefeitura de Porto Alegre. Lembrando que o ingresso para este evento não fica por menos de mil reais.
Notem bem: os espanhois (privados) forram o poncho de dinheiro, e a prefeitura e o Piratini pagam com recursos que – na sequência – irá faltar para a educação, saúde, etc.
E o local do evento no cais do porto? Ora, foi maquiado provisoriamente, e agora segue esgualepado, sujo, deteriorado e habitado pelos únicos mamíferos voadores, os morcegos.
Leitinho e o homem do chapéu de palha chamado Sebastião, sequer cogitaram de exigir dos promotores do evento uma contrapartida justa: reformar os galpões do cais do porto da capital. Aí tem!
*Cristóvão Feil é sociólogo.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
