O governo de Donald Trump tem dado cada vez mais sinais contraditórios que evidenciam fragilidade na guerra contra o Irã, que segue mantendo a posição de que não abrirá qualquer negociação com os Estados Unidos.
“Esse primeiro mês mostrou que os EUA incorreram em um grande erro estratégico nessa guerra. Eles subestimaram a capacidade militar do Irã, a capacidade de resiliência iraniana, cederam às pressões de Israel para iniciar esse conflito e até perderam popularidade dentro da base aliada do governo Trump. O lema America First agora é posto em xeque ao se tornar refém do próprio Netanyahu (Benjamin, premiê de Israel), já que ao invés de estar preocupado com o cidadão norte-americano, o governo está em guerra em função de Israel”, avalia Henrique Gomes, analista internacional e doutorando em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Nesta terça-feira (31), Teerã anunciou que atingiu uma base secreta e um alojamento estadunidense nos Emirados Árabes e no Bahrein. “Os analistas internacionais costumam dizer que existe uma espécie de Guerra Fria no Oriente Médio: de um lado o Irã xiita e do outro a Arábia Saudita sunita alinhada ao eixo ocidental. É um conflito que tem caráter religioso e geopolítico”, explica Gomes. Para ele, o conflito já assumiu contornos regionais, quando, “nos primeiros dias, o Irã retaliou os países do Golfo Pérsico” alinhados aos Estados Unidos.
O analista lembra que, apesar de o foco atual do Irã estar nos ataques direcionados a bases militares dos Estados Unidos, houve ações contra aliados, que poderão promover retaliações. “Há ataques de Israel contra o Líbano em função do Hezbollah, que é um ator pró-Irã, então é um conflito que tem proporções maiores. A depender de como eles irão retaliar, essa proporção pode escalonar mais”, explica, ao mencionar que não é possível descartar uma ação de países árabes liderados pela Arábia Saudita.
Gomes define como expressão da tradição diplomática coercitiva, ou “diplomacia do porrete”, a declaração do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, de que o país está preparado para “negociar com bombas”. “Os EUA defendem negociações diplomáticas cordiais mas respaldadas por ameaças diretas militares: ‘Vamos negociar, mas estou com um porrete, ou melhor uma ogiva nuclear’, apontado para sua cabeça”.
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