Conhecido pelo seu mandato coletivo na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH), no qual dá destaque para pautas dos movimentos populares e sindicais, Bruno Pedralva (PT) lançou, no domingo (29), sua pré-candidatura a deputado estadual.
Médico de família e comunidade no Sistema Único de Saúde (SUS) da capital mineira e mestre em saúde pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele foi reeleito para seu segundo mandato na CMBH com mais de 10,8 mil votos, em 2024. Pedralva é considerado também o pré-candidato do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Uma de suas principais bandeiras é a saúde pública de qualidade.
“Nossa missão histórica é levar o SUS para o centro da luta política em Minas Gerais, por meio de um possível mandato na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG)”, destacou, em entrevista concedida ao Brasil de Fato MG.
Além disso, dialogamos com o pré-candidato sobre a organização do campo progressista em 2026, as consequências deixadas pelo governo de Romeu Zema (Novo) no estado e sobre quais projetos ele pretende levar à ALMG, caso seja eleito.
Confira a conversa completa:
Brasil de Fato MG – Se eleito para uma vaga na ALMG, como a coletividade e os movimentos populares devem se expressar na construção do mandato?
Bruno Pedralva – A nossa pré-candidatura para a ALMG nasceu não de um desejo individual, mas de uma discussão coletiva; eu diria até de um desafio necessário, colocado pelos movimentos sociais e populares e também pela luta em defesa do SUS.
Nossa avaliação é de que precisamos ter a força de um mandato na Assembleia Legislativa como parte fundamental para estimular, ajudar a organizar e potencializar a luta por um projeto popular para Minas Gerais e para o Brasil, mas principalmente para termos movimentos sociais e sindicais mais fortes no estado.
Você é considerado também o pré-candidato do MST em MG. O que significa influenciar e ser influenciado por um dos maiores movimentos sociais da América Latina?
O MST foi fundamental na minha formação enquanto militante, desde o início dos anos 2000 até hoje. A gente ocupa a terra junto, faz formação junto e luta nas pautas gerais, ombro a ombro com o movimento.
O MST é responsável não só pela minha formação e organização, mas também de um contingente muito grande de mulheres e homens, de pessoas, em Minas Gerais e no Brasil, que se movimentam na luta por justiça. Reforma agrária nada mais é do que justiça social.
Portanto, ter o MST como propositor dessa pré-candidatura é um orgulho para mim. Espero corresponder a essa necessidade do MST de Minas Gerais, fazendo uma luta que leve esse exemplo para a classe trabalhadora e para o povo brasileiro em cada ação e iniciativa, tanto na pré-candidatura, quanto na luta cotidiana.
Diante dos desafios deixados pela gestão de Zema e do Mateus Simões (PSD), se eleito ao cargo de deputado estadual, quais devem ser suas principais bandeiras em relação à saúde?
O Zema foi um desastre para a saúde mineira. Ele não abriu nenhum dos seis hospitais regionais que prometeu em campanha. Nenhum desses hospitais está entregue e funcionando para atender a população. O único que será entregue à população de Minas Gerais será o Hospital de Divinópolis, que só será aberto graças ao governo Lula (PT). O governo federal assumiu a gestão por meio da antiga Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, em uma parceria com a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
Além de não ter aberto os hospitais prometidos, o Zema fechou hospitais em Minas Gerais. O fechamento do Hospital Maria Amélia Lins em Belo Horizonte representou menos mil cirurgias ortopédicas realizadas em 2025 para o povo mineiro. Foi um crime. Nós acompanhamos de perto o drama dos profissionais de saúde e dos usuários. Estivemos várias vezes no hospital e víamos pacientes esperando semanas por uma cirurgia ortopédica urgente, enquanto o bloco cirúrgico estava fechado.
O projeto do Zema de destruição do serviço público e da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) foi desenhado com a construção de um novo hospital na região da Gameleira, mas que será privatizado, construído e gerenciado pelo serviço privado. Como justificativa para esse novo hospital, o Zema fecha outros quatro.
Eu estava de plantão vendo a superlotação da UPA. Idosos no corredor ou em cadeiras, porque não havia vaga, enquanto hospitais com a estrutura do Eduardo de Menezes ou do Alberto Cavalcante correm o risco de fechamento por um capricho do ex-governador, que quer privatizar a saúde. Por isso, assumimos esse desafio de dar voz à luta pelo SUS. Nossa missão histórica é levar o SUS para o centro da luta política em Minas Gerais por meio deste possível mandato na Assembleia Legislativa.
Outra questão foi a atuação sistemática de Zema para privatizar empresas públicas mineiras. A Copasa, por exemplo, está em vias de ser vendida. Você pretende trabalhar, na ALMG, para retomar essa pauta e tentar reverter a entrega dessa e de outras estatais à iniciativa privada?
Certamente. A recuperação ou o renascimento da Copasa e trazer essa empresa de volta para o povo mineiro vai ser um dos desafios. Será uma luta compartilhada com o movimento sindical, social e lideranças do campo progressista. A Copasa foi privatizada na lei, mas ainda não na prática, e vamos lutar até o último momento para evitar essa entrega, que é a privatização da água e do esgoto. A água é um bem fundamental, ninguém sobrevive sem ela. Entregar um bem tão essencial a empresas privadas é um crime contra a soberania do povo mineiro.
Em Belo Horizonte, entramos com uma ação no Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) questionando o convênio assinado entre a prefeitura e a Copasa, pois a população não foi escutada. Temos um projeto de lei para garantir um plebiscito para que o povo opine se quer saneamento privatizado ou não. A Câmara Municipal não participou de um convênio que renovou a concessão por 50 anos. Isso é um ataque ao direito do povo belo-horizontino e da região metropolitana.
Uma das narrativas do governo Zema para privatizar a Copasa era o pagamento da dívida de Minas Gerais. Em 2019, a dívida era de aproximadamente R$ 113 bilhões. Ao final de 2025, ultrapassou R$ 201 bilhões. Como o legislativo deveria lidar com a questão da dívida mineira?
Zema e Mateus Simões contaram uma mentira ao povo mineiro. Vender a Copasa não era necessário para pagar a dívida, que está em negociação com o governo federal. O governo federal não exigiu privatização, pelo contrário, propôs assumir algumas empresas mineiras para facilitar o pagamento e evitar a desestatização.
Foi uma decisão exclusiva do governador e da maioria da Assembleia Legislativa, apesar da oposição de alguns deputados. Não há relação entre a venda da Copasa e o pagamento da dívida. Precisamos aproveitar que temos o governo Lula, que tem interesse em Minas, para garantir uma negociação generosa e ter mais recursos para saúde, educação e infraestrutura.
Você teve, até então, 31 projetos de lei aprovados em seus dois mandatos na Câmara Municipal de BH. Quais desses projetos provavelmente vão incorporar as suas propostas para abarcar o cenário estadual?
Certamente levaremos a experiência do parlamento belo-horizontino para o mineiro. Um elemento importante é garantir que os hospitais de Minas Gerais comprem alimentos produzidos pela reforma agrária, pela agricultura familiar. A luta pela saúde passa pelo acesso a alimentos saudáveis.
Outro projeto é o “Prêmio do Conhecimento”, para valorizar pesquisas das universidades públicas que dialoguem com os problemas mineiros. Por fim, o projeto de combate ao assédio moral no serviço público. Precisamos de uma legislação mineira mais dura para combater o assédio em todos os ambientes de trabalho.
Em relação à organização do campo progressista, do qual você faz parte, qual deve ser a tônica nas eleições de 2026 para o executivo?
Temos uma missão estratégica: vencer em Minas Gerais para vencer no Brasil. Desde a redemocratização, o candidato que vence no estado vence a eleição nacional. Nossa missão é dar a vitória a Lula em Minas.
Para isso, precisamos deixar claro o que o governo Lula representa: reconstrução nacional, isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e taxação de grandes fortunas. É fundamental reeleger Lula para garantir o fim da escala 6×1 e viver com dignidade.
Precisamos de uma ampla aliança de todos que defendem a democracia contra a extrema direita golpista e negacionista. O povo mineiro tem que estar afiado para contribuir com esse projeto de crescimento com distribuição de renda.
E o legislativo?
O ano de 2025 ficou marcado como o ano em que o povo brasileiro entendeu que o Congresso pode ser um inimigo. Derrotamos a “PEC da Bandidagem” e denunciamos a “PEC da Anistia”, que tentava proteger golpistas. As eleições de 2026 devem dar sequência à consolidação da presença real do povo no parlamento. O parlamento hoje é dominado por empresários, ricos e conservadores.
Eleger parlamentares que são compromissados com as causas sociais e que traduzam as posições da classe trabalhadora, do povo que trabalha e que se dedica a construir uma sociedade mais justa, é fundamental nas eleições de 2026.
Você domina muito bem as redes sociais. Tem uma atuação muito marcada por publicações informativas, vídeos com posicionamentos firmes sobre questões de BH e Minas. Qual é a sua visão sobre a importância da comunicação nas eleições?
A imprensa no Brasil tem lado, com raras exceções, como o Brasil de Fato e a Mídia Ninja, e é mantida por interesses econômicos e políticos. Se não ocuparmos as redes sociais e a mídia popular, perderemos a disputa das ideias. Nas eleições de 2026, as redes sociais serão definidoras.
Temos feito um trabalho intenso de qualificação para dialogar com o povo usando essas ferramentas para o bem comum, e não para espalhar fake news, como faz a direita, não para espalhar maldade e preconceito, mas para divulgar propostas e novidades que dizem respeito ao que pode melhorar a vida em sociedade.
Se eleito para a Assembleia Legislativa, o que o público pode esperar de sua atuação a partir de 2027?
O povo mineiro vai poder contar com o mandato coletivo popular, que luta pelo SUS, que luta pelos direitos sociais, que luta pela reforma agrária, por alimentos saudáveis na mesa do povo mineiro e por justiça social.
Teremos compromisso com as lutas sociais. Nossa missão lá não é substituir nenhuma luta social, não é canalizar nenhuma luta social, pelo contrário, é catalisar, é estimular, é agregar e é potencializar as lutas por justiça, seja dos trabalhadores e das trabalhadoras, dos servidores, dos movimentos sociais e populares.
Além disso, certamente, um mandato comprometido em ajudar o governo Lula a acabar com a escala 6×1, a continuar taxando as grandes fortunas e a continuar desenvolvendo uma política de saúde, de educação, de assistência social, que garanta os direitos fundamentais para o povo brasileiro.
