A construção de respostas internacionais diante do avanço da extrema direita, o fortalecimento da mobilização social e a necessidade de enfrentar o poder do capital financeiro e das potências imperialistas marcaram a conferência “Resistências, Articulações e Alternativas Democráticas”, realizada em Porto Alegre, neste domingo (29), no âmbito da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em Porto Alegre.
A mesa, mediada pelo integrante do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial Damian Hazar, reuniu lideranças políticas e representantes de organizações de diferentes países, como Donka Atanassova (Colômbia), Manon Aubry (França), Fernanda Gadea (Espanha), Ana Maria Prestes, Roberto Robaina e Valter Pomar. Os debatedores foram a integrante da coordenação do Fórum Social Mundial Liége Rocha e o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont.
Ao longo do encontro, as falas apontaram que o avanço do fascismo não é um fenômeno isolado ou conjuntural, mas parte de uma reorganização global do capitalismo em crise, que combina autoritarismo político, concentração de renda e intensificação de conflitos geopolíticos.
“Um outro mundo é possível quando estamos juntos e juntas com nossas diferenças, mas também com nossa unidade antifascista e anti-imperialista. Em tempos de ofensiva global da extrema direita, Porto Alegre reafirma que a resistência também se internacionaliza e que a luta continua”, ressaltou Hazar.
Crítica ao capital financeiro e propostas de ruptura
A representante da Asociación por la Tributación de las Transacciones Financieras y la Acción Ciudadana – Espanha (Attac), Fernanda Gadea, afirmou que a própria conferência já expressa uma alternativa em construção. ”Isto que estamos fazendo aqui, depois de três dias de trabalho e de um acúmulo prévio muito grande, é um primeiro passo.”
Ela apresentou um conjunto de propostas defendidas pela organização, como a fiscalidade progressiva, o controle dos fluxos de capital, a anulação das dívidas ilegítimas e a reestatização de serviços públicos ─ medidas concretas que enfrentam diretamente o poder do capital financeiro. “A dívida mata. E isso não é uma metáfora. A dívida impede investimento social, impõe austeridade e aprofunda desigualdades.” Segundo ela, experiências na América Latina já demonstraram que é possível questionar a legitimidade dessas dívidas.
Ao aprofundar o debate econômico, Gadea destacou que o atual modelo impõe limites à democracia. Para ela, o poder do capital transnacional atravessa fronteiras sem restrições, enquanto populações são submetidas a controles cada vez mais rígidos. “Não existem fronteiras para o capital. Como podemos admitir que existam fronteiras para as pessoas?”, questionou. “Nenhuma pessoa é ilegal.”
A dirigente também criticou a ideia de “transição ecológica” como solução suficiente para a crise climática. Em sua avaliação, o conceito pode mascarar a continuidade de um modelo insustentável. “A transição significa passar de uma coisa a outra. Nós entendemos a bifurcação como abandonar esse caminho e ir para outro caminho. É um desafio mais social do que técnico.”
Ela ainda destacou campanhas internacionais, encontros ecossocialistas e contracúpulas como parte da construção de uma articulação global, além de defender o reconhecimento da dívida dos países centrais. “Há uma dívida histórica, e ela não se paga com palavras, mas com ações.” Encerrando, evocou José Martí: “Uma causa justa, ainda no fundo de uma cova, tem mais poder do que qualquer exército. E nós não estamos em nenhuma cova.”

Colômbia: da revolta social à disputa institucional
A dirigente do Pacto Histórico da Colômbia e vereadora de Bogotá, Donka Atanassova, enfatizou que a experiência colombiana é resultado de um longo processo histórico de mobilização. “Não é algo que surge de uma conjuntura eleitoral. É um ciclo de 12, 15 anos de organização e luta.”
Ela destacou que o país foi historicamente controlado por elites que concentraram o poder político e econômico por mais de dois séculos, e que a mudança recente resulta da articulação de movimentos sociais diversos. Entre os marcos desse processo, apontou o Acordo de Paz da Colômbia de 2016, além das mobilizações estudantis, agrárias, indígenas, feministas e o levante social entre 2019 e 2021. “A gente saiu às ruas, perdeu o medo, e isso mudou o sentido comum da sociedade.”
Esse acúmulo permitiu a vitória eleitoral de 2022 pela esquerda no país, com a eleição de Gustavo Petro e Francia Márquez. “Não foram apenas propostas ou lideranças. Foi todo um processo que tornou isso possível.”
Atanassova também destacou medidas do governo, como a redistribuição de mais de um milhão de hectares de terra, valorização salarial e ampliação de políticas sociais. “Coisas que nos diziam que eram impossíveis começaram a acontecer.”
Segundo a dirigente, esse processo exigiu uma mudança na forma de fazer política. “Nos tornamos mais amplos. Interpelamos a população não somente desde a ideologia, mas desde a sua vida cotidiana, desde os problemas concretos das pessoas.” Ao mesmo tempo, ela alertou para os limites enfrentados mesmo após avanços institucionais. “Ainda não temos a capacidade suficiente para confrontar esse poder e ganhar”, disse. “O poder que enfrentamos é muito grande, muito organizado e atua em escala global.”
Ela também situou a conjuntura internacional como um fator de pressão. “Hoje temos um mundo novamente em um cenário de guerra terrível, que ameaça a vida e a dignidade dos povos”, afirmou Atanassova, relacionando conflitos armados à disputa por poder e recursos. “Ter um governo nosso não significa parar de lutar. Seguimos organizados e mobilizados, e isso fortalece o governo.”

Europa: crescimento da extrema direita e desafios da esquerda
A eurodeputada francesa Manon Aubry ressaltou sua trajetória política e o vínculo com os movimentos sociais. Antes de assumir o Parlamento Europeu, atuou na Oxfam, trabalhando contra evasão fiscal e desigualdades. Hoje, preside seu grupo político e é membro do movimento França Insubmissa.
Para Aubry, é essencial unir movimentos sociais e ação política. “Nas últimas eleições, nosso movimento tinha como slogan ‘um outro mundo é possível’. Esse lema nasceu aqui, em Porto Alegre, e inspirou nossas mobilizações. Somos herdeiros dos movimentos sociais brasileiros, que ecoaram até a França”, afirmou.
Ela alertou para o avanço da extrema direita na Europa. “No Parlamento Europeu há três grupos de extrema direita, que atuam de forma coordenada contra direitos fundamentais: aborto, direitos LGBTQIA+ e políticas de ‘remigração’ que expulsam pessoas de origem estrangeira. Vivemos um novo momento do fascismo.”
Aubry criticou setores da esquerda que não enfrentam a extrema direita: “Quem se reivindica da esquerda, mas recusa essa batalha, já aceita a derrota.” Para ela, a resistência é responsabilidade de todos. “Todo eleito de esquerda deve se lembrar de onde vem e usar o mandato como ferramenta de resistência.” Citou exemplos concretos de resistência extraparlamentar: na Polônia, ajudou mulheres afetadas por restrições ao aborto; na Hungria, enfrentou a proibição da Parada do Orgulho LGBTQIA+. “O orgulho e a mobilização social são centrais na luta antifascista.”
Aubry destacou também a solidariedade internacional, especialmente à Palestina. “Quando genocídios ocorrem com a cumplicidade de Estados europeus, temos a responsabilidade de agir. Participamos de iniciativas como a Flotilha da Liberdade, pressionando a União Europeia a rever suas relações com Israel.”
Ela concluiu reforçando a necessidade de unir esquerda e movimentos sociais: “A transformação social não se constrói sem eles. Quando se unem, é possível enfrentar o fascismo e abrir caminhos de esperança. Na França, com a França Insubmissa e Jean-Luc Mélenchon, nas últimas eleições alcançamos 22%. A próxima eleição será decisiva. Precisamos seguir propondo um projeto de ruptura e esperança, com e para os movimentos sociais.”
América Latina sob pressão e a centralidade da solidariedade
A análise geopolítica da mesa foi aprofundada pela cientista política Ana Maria Prestes, que destacou o papel dos Estados Unidos na reorganização do cenário internacional. “Não nos iludamos. Há uma pretensão de transformar este hemisfério no seu quintal”, afirmou.
Ela mencionou diferentes formas de intervenção, econômicas, políticas e militares, como parte de uma estratégia mais ampla de controle. “As bombas que caem em Gaza, no Irã, no Líbano, são destinadas a todos nós. É uma mensagem de poder, de que eles podem agir onde quiserem.”
Segundo Prestes, essa lógica impacta diretamente a América Latina. “O cerco que se faz a Cuba é um cerco que se faz a todos nós”, disse, relacionando sanções econômicas a mecanismos de pressão política.
A dirigente também destacou que o avanço dessas estratégias exige respostas articuladas entre os povos. “A solidariedade internacional não é um gesto simbólico. É uma necessidade concreta de sobrevivência.”
Ao resgatar a trajetória da Coluna Prestes e da tradição antifascista no Brasil, reforçou a dimensão histórica da luta. “Se estamos aqui hoje é porque há uma urgência histórica para a organização dos antifascistas.”
Continuidade, estratégia e disputa global
O dirigente da Fundação Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar, avaliou positivamente a realização da conferência e defendeu a continuidade como elemento central para o acúmulo político do campo antifascista.
Segundo ele, experiências semelhantes no passado foram importantes, mas não tiveram sequência, o que reforça a necessidade de consolidar o processo atual. “É muito importante que os organizadores façam um bom balanço da atividade, que tem que apontar no sentido de perpetuar a diversidade e garantir espaço para todos debaterem com tranquilidade.”
Pomar destacou que o espaço deve preservar sua pluralidade, garantindo a participação tanto de movimentos sociais quanto de partidos políticos. Também situou a disputa em escala global, ressaltando o papel estratégico da América Latina e da África. Para ele, o combate ao fascismo não pode ser dissociado do enfrentamento ao neoliberalismo e ao imperialismo, que teriam como epicentro os Estados Unidos, centro do capitalismo mundial.
Ao abordar o cenário brasileiro, relembrou o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, além do apoio de setores da direita tradicional à extrema direita. “Essa polarização está dada na realidade”, afirmou, defendendo que a luta antifascista exige coerência política e mobilização da classe trabalhadora.
Pomar também recorreu a Mao Tse-Tung para caracterizar o imperialismo: “Pode ser um tigre de papel estrategicamente, mas é um tigre de aço no plano tático.” Em referência à Guerra Civil Espanhola, destacou a violência do fascismo e seus impactos históricos.
Para o dirigente, o cenário global tende a se agravar antes de apresentar saídas, o que exigirá mobilizações em larga escala. Ainda assim, defendeu a combinação entre resistência e horizonte político transformador, evocando Karl Marx: “Não queremos apenas resistir, queremos vencer”.
Unidade e dimensão internacional do encontro
O vereador de Porto Alegre Roberto Robaina (Psol) destacou o caráter internacional da conferência, que contou com a presença de lideranças de diferentes países, como delegações da Argentina, Estados Unidos, Irã e outros. Em sua intervenção ressaltou as mobilizações recentes, como grandes marchas na Argentina e protestos nos Estados Unidos, como expressões concretas de resistência à extrema direita.
Robaina avaliou que o encontro representou um esforço de superação do que chamou de “imobilismo da esquerda”. “Essa conferência foi um esforço de unidade”, afirmou, destacando que a construção de um bloco antifascista exige respeito às diferenças, sem abrir mão de objetivos comuns.
A realização das atividades em espaços da Universidade Federal do Rio Grande do Sul também foi apontada como sinal da capacidade de articulação, mesmo diante de um contexto adverso.
Desinformação, capital e controle social
O ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont chamou atenção para os desafios enfrentados no cotidiano, especialmente no campo da comunicação e das relações de trabalho. Segundo ele, a desinformação promovida por monopólios de mídia e a repressão política no ambiente laboral seguem como obstáculos concretos à organização popular.
Pont afirmou que militantes continuam sendo perseguidos e até demitidos por sua atuação política, o que evidencia a permanência de mecanismos de coerção. Ele também ressaltou a importância das articulações internacionais, citando experiências como o Fórum Social Mundial e o Fórum de São Paulo.
Ao mencionar experiências de democracia participativa, como o Orçamento Participativo, destacou sua permanência em diferentes contextos. “Outro mundo é possível, mas precisamos dar um indicador concreto de como ele será”, afirmou.
Mulheres, territórios e luta cotidiana
A integrante do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial e da Federação Democrática Internacional das Mulheres (FDIM), Liége Rocha enfatizou o protagonismo das mulheres nas lutas sociais e políticas. “Não somos cidadãs de segunda categoria, somos protagonistas da história”, afirmou, ao lembrar mobilizações como o movimento Ele Não.
Ela destacou o papel central das articulações entre movimentos sociais no enfrentamento ao fascismo. “Essa articulação dos movimentos sociais, do movimento de mulheres, da juventude, sindical, movimentos comunitários, são fundamentais na resistência ao imperialismo, ao capitalismo e ao fascismo.”
Para a dirigente, é necessário ampliar a presença dessas articulações nos territórios e no cotidiano da população. “A luta de ideias não se dá só na plateia. É no dia a dia, no ponto de ônibus, na escola, no local de trabalho, é olho no olho.” Ela encerrou sua intervenção com uma adaptação da música de Gonzaquinha Viver e não ter a vergonha de ser feliz.
