Doutrina Monroe

Pequim manifesta ‘firme oposição’ à medida dos EUA que restringe negócios da Venezuela com a China

Governo chinês exigiu ainda o levantamento imediato das sanções unilaterais ilegais impostas contra a Venezuela

Porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China, Mao Ning, em coletiva de imprensa - 25 de novembro de 2025
Porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China, Mao Ning, em coletiva de imprensa | Crédito: CCTV+

O governo chinês manifestou, nesta quarta-feira (1º), firme oposição às novas licenças gerais emitidas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac, na sigla em inglês) do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que buscam restringir a participação da China, Rússia, Coreia do Norte, Cuba e Irã nas operações do setor mineral venezuelano.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, fez a declaração em coletiva de imprensa em Pequim, em resposta a questionamentos sobre as medidas publicadas na véspera, 31 de março, pelo Ofac.

“A China se opõe firmemente ao fato de os EUA usarem as chamadas ‘licenças gerais’ para impor restrições à cooperação sino-venezuelana. Os direitos e interesses legítimos da China na Venezuela devem ser protegidos”, afirmou Mao.

A porta-voz exigiu ainda o levantamento imediato das sanções unilaterais ilegais contra a Venezuela. Para ela, as chamadas licenças gerais são um instrumento para dar verniz de legitimidade a ações que, na prática, continuam violando os direitos e interesses legítimos da Venezuela e de outros países envolvidos.

As novas licenças gerais abrem caminho para que empresas estadunidenses operem no setor mineral venezuelano, incluindo a extração e comercialização de ouro, além de atividades nos setores de petróleo, gás e petroquímica. As autorizações estabelecem que contratos com entidades venezuelanas devem ser regidos pela legislação estadunidense, que pagamentos a pessoas ou entidades bloqueadas sejam direcionados a um fundo supervisionado pelos EUA, e impõem obrigações periódicas de relatórios ao Departamento do Tesouro.

Insolitamente, as licenças impõem restrições unilaterais à participação de empresas da China, da Rússia, do Irã, da Coreia do Norte e de Cuba nas operações que Washington busca controlar no setor energético e mineral venezuelano. Ofac afirma que o objetivo seria garantir que as transações ocorram por “canais legítimos e autorizados”, em linha com os “esforços para restaurar a prosperidade e a segurança da Venezuela”.

A medida atinge diretamente interesses estratégicos chineses na Venezuela. A China é um dos principais parceiros comerciais do país, com intercâmbio bilateral que superou US$ 5 bilhões nos dez primeiros meses de 2025, segundo a Administração Geral das Alfândegas da China.

Empresas chinesas, como a estatal CNPC, operam joint ventures com a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), e Pequim tem décadas de empréstimos e investimentos em infraestrutura no país sul-americano.

A medida está em linha com a Estratégia Nacional de Segurança lançada pelo governo Trump em dezembro de 2025, que coloca a China no centro de suas preocupações geopolíticas e defende explicitamente a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência estadunidense no Hemisfério Ocidental. O documento afirmava que “competidores não hemisféricos” fizeram grandes incursões na América Latina, numa referência velada a Pequim.

Após a invasão militar estadunidense na Venezuela no início deste ano, com bombardeios, mais de cem mortos e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e Cília Flores, Washington cumpre à força o que anunciou na estratégia: tomar o controle dos recursos, neste caso, venezuelanos para empresas estadunidenses e expulsar os países que classifica como adversários.

Editado por: Rafaella Coury

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