ANÁLISE

Plano de Israel com guerras é ser potência hegemônica cercada de Estados falidos, diz analista

Projeto de Grande Israel pressupõe guerra permanente para ampliar ocupações para países vizinhos

No audio source provided.
Estragos causados por ataque iraniano a Tel Aviv
Estragos causados por ataque iraniano a Tel Aviv | Crédito: Jack Guez/ AFP

Em agosto de 2025, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, endossou em público a visão do Grande Israel, projeto sonhado por anos pela extrema direita do país para ampliar as fronteiras de Israel por sobre a Palestina e pedaços dos territórios dos vizinhos Síria, Jordânia e Líbano. Analistas dizem que as múltiplas guerras nas quais Tel Aviv se envolve no momento são parte do plano para alcançar essa visão.

“Entendo que Israel ser a potência dominante cercada por estados falidos é estratégia”, disse ao Brasil de Fato Bruno Huberman, professor de relações internacionais da PUC/SP.

“Desde 2023, Israel fez guerras no Egito, Síria, Líbano, Irã, Iêmen…anexou territórios do Líbano e da Síria e avança na anexação de Gaza e da Cisjordânia. Pode ser que não consigam sustentar todas essas frentes, mas essa é a estratégia”, diz ele.

Os defensores da ideia do Grande Israel a justificam dizendo que eram as fronteiras dos tempos bíblicos. Na prática, esses defensores se dividem entre os que pregam a expansão de Israel para o território que faz fronteira direta com ele e os que adotam a definição mais extrema de Grande Israel: entre os rios Nilo (Egito) e o Eufrates (Iraque).

Colapso militar israelense?

Duas notícias chamaram atenção recenetemente: O jornal The New York Times reportou que Netanyahu repreendeu o chefe do Mossad, David Barnbea, por ter garantido aos EUA que ocorreria uma inssurreição bem-sucedida após bombardeio no Irã, que derrubaria o regime dos aiatolás. Dias depois, o chefe do Exército, Eyal Zamir, disse que as forças armadas poderiam “entrar em colapso” por falta de pessoal. Seriam sinais de falta de controle israelense na condução da guerra? Huberman não vê assim.

“O problema de baixo recrutamento é crônico e vem desde as fases mais agudas do genocídio em Gaza. E a cultura política israelense acomoda reclamações. Não é sinal de insubordinação, eles jogam mesmo essas coisas ao vento.”

Quando a guerra começou em 28 de fevereiro, altos funcionários israelenses elogiaram a coordenação “sem precedentes” e “histórica” com os EUA, incluindo dois encontros e 15 telefonemas entre Netanyahu e o presidente Trump nos dois meses anteriores.

Juntos, os exércitos israelense e estadunidense lançaram uma campanha de bombardeio pesado, assassinando importantes figuras políticas, religiosas e militares, e danificando e destruindo infraestrutura de segurança, instalações industriais militares e lançadores de mísseis, bem como prédios civis e governamentais, incluindo depósitos de petróleo e campos de gás.

O Irã respondeu com ataques diários contra alvos israelenses. É difícil saber a extensão dos danos no lado israelense, dada a rígida censura, mas alguns alvos estratégicos foram atingidos em Israel, incluindo a área do reator nuclear em Dimona, a refinaria de petróleo de Haifa e o aeroporto Ben Gurion. Além disso, os israelenses passaram quatro semanas correndo para abrigos antibombas e salas seguras, e tiveram que fazê-lo com mais frequência nos últimos dias do que nos primeiros dias da guerra.

O que é consenso é que Teerã mostrou mais capacidade de retaliação do que o previsto, atingindo o Ocidente onde mais dói: no fluxo de petróleo, interrompido com o fechamento do Estreito de Ormuz. A crise energética que se seguiu é apontada como o principal motivo para a pressa de Trump para decretar o fim da guerra, mesmo sem mudança no regime iraniano ou destruição da capacidade bélica do país. Israel continuaria essa guerra sem o apoio de Washington?

“Penso que Israel tem capacidade de manter ataques, por conta própria, caso a a posição política americana seja diferente dos objetivos israelenses, o que pode provocar atritos maiores na relação entre Estados Unidos e Israel. Vejo isso acontecendo” diz o professor.

Projeto fascista

Bruno Huberman lembra que a guerra segue muito popular em Israel, que assim como o Irã, vê o conflito como “questão existencial”. Pesquisa publicada em 27 de março pelo The Times of Israel indica que 78% da população israelense apoia a continuidade da guerra.

“Da mesma forma que os iranianos, os israelenses mostram resiliência. Há um entendimento muito claro na sociedade israelense de que essa agressão é fundamental para sua sobrevivência, de que essa guerra é definitiva e que eles precisam ganhar para para assegurar a sua existência de longo prazo, Derrotar de forma definitiva o Irã, e, como Trump colocou, devolver o país para a Idade da Pedra”, afirma Huberman.

Ele explica que a doutrina de segurança israelense não entende como ameaça apenas as confirmadas, mas também as potenciais. Por isso, Israel considera legítimo destruir a capacidade de seus vizinhos de atingi-lo, mesmo que não exista indicação de que pretendam fazê-lo.

“Por isso falam que o [presidente turco Tayyip] Erdoğan é o próximo, porque o Erdogan tem capacidades, embora faça parte do Otan e tudo mais, mas tem uma retórica mais dura”, diz ele.

“A estratégia israelense é assegurar que o país continue sendo a única potência nuclear na região e impedir que os países vizinhos com potencial de serem adversários sejam submetidos a Israel”, afirma.

“É um governo que tem o projeto fascista de guerra permanente, assim como foi o nazista”, completa.

Editado por: Thaís Ferraz

|

Newsletter