Os índices macroeconômicos brasileiros parecem não indicar problemas. Nos primeiros três anos do atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Brasil teve um crescimento acumulado de 8,9% no seu Produto Interno Bruto (PIB), índice superior aos anos de Temer (3,1%) e Bolsonaro (5,6%). A inflação acumulada nos quatro anos do Lula 3 pode ficar abaixo dos 5%, melhor que o Lula 2, se tornando o menor aumento de preços durante um governo desde o Plano Real (1993). A taxa de desemprego ao fim de 2025 era de 5,6%. Mesmo assim, pesquisas indicam que metade da população brasileira considera que a economia do país vai mal.
Este foi um dos temas sobre os quais o Brasil de Fato Pernambuco conversou com João Pedro Stedile, economista e dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No Recife (PE) para participar do 1º Encontro Nacional do movimento Mãos Solidárias, Stedile também falou sobre as lideranças da esquerda no pós-Lula, as dificuldades das organizações da esquerda brasileira para acessar a classe trabalhadora e a importância de investir energia em atuar politicamente no território onde a maioria do povo brasileiro vive: as periferias dos grandes centros urbanos.
Indagado sobre a percepção negativa que a população tem afirmado sobre a economia, o dirigente do MST resume que “a vida do povo mudou muito pouco”, destacando que o baixo índice de desemprego esconde uma elevada taxa de informalidade e salários baixos. “A macroeconomia para os capitalistas vai bem. Inflação controlada, juros lá em cima, é tudo que eles querem. Mas para mudar a vida do povo é preciso mudanças estruturais, um grande programa de instalação de indústrias para gerar empregos de qualidade”, afirma Stedile. “O setor de comércio e serviços não garante empregos de qualidade. Ninguém quer ser balconista ou recepcionista a vida inteira”, pontua.


Empregos de baixa qualificação, baixos salários e muita gente na informalidade. Segundo dados do IBGE (2025), cerca de 2% da população ocupada no setor privado trabalha para plataformas como Uber, 99, Ifood e afins. Metade deles têm idade entre 25 e 39 anos e a categoria é composta majoritariamente por homens (84%). Mais de um milhão de brasileiros têm esta como sua única fonte de renda.
Entre os motoristas por aplicativo, o ganho aproximado é de R$ 13,90 por hora trabalhada, com jornadas médias de 45,9 horas semanais, resultando em rendimentos mensais de R$ 2.743. Já entre os condutores de motocicletas que trabalham para aplicativos os ganhos por hora eram de R$10,90 quando da realização da pesquisa. Eles trabalhavam em média 45,2 horas semanais, alcançando pagamentos médios de R$ 2.119 ao mês. A categoria também se encontra em maior vulnerabilidade em caso de doença ou acidentes de trabalho: apenas 36% dos plataformizados contribuem para a previdência.
Estes trabalhadores muitas vezes não buscam emprego formal e não aparecem nos índices de desempregados, mas são muito sensíveis às oscilações de preços. “Lembro do café, que sem motivo nenhum aumentou de preço [em 2025]. A produção no Brasil era a mesma. Por que dobrou de preço?! A Nestlé e outras grandes empresas que controlam esse mercado por algum motivo decidiram aumentar — e nós ficamos reféns”, reclama Stedile. “A carne foi a mesma coisa. Continuamos com o mesmo rebanho, os mesmos abates, mas de repente o preço dispara. O povo vai ao supermercado e sente”, explica o economista. “Então há uma desconexão entre a economia capitalista e a vida do povo”, conclui.
Em fevereiro de 2026, o Brasil tinha 38,3 milhões de brasileiros trabalhando na informalidade. O número é próximo ao de trabalhadores com carteira assinada (39,2 milhões). Havia outros 26,1 milhões de “trabalhadores por conta própria”, em geral microempreendedores individuais (MEIs), profissionais liberais e prestadores de serviço – são formalizados, exercem atividades regulamentadas, mas não possuem vínculo empregatício, tendo rendimentos instáveis, assumindo os custos operacionais do seu trabalho e não tendo direitos garantidos a férias, 13º salário ou FGTS.


O governo Lula, avalia João Pedro Stedile, precisa ser cobrado por uma estratégia para resolver essas vulnerabilidades da população e da própria economia brasileira. “Falta um programa de longo prazo, que redirecione os investimentos para a indústria e que também resolva os problemas de infraestrutura, porque nossas cidades viraram um inferno”, pontua o dirigente do MST. “Preocupados com questões eleitorais, nós ficamos medrosos de fazer críticas ao governo, pensando que isso vai somar força para a direita. Mas a reflexão crítica nunca somou para a direita”, diz ele, em tom de autocrítica sobre a esquerda.
Ele também pondera que o governo Lula é vítima do momento histórico. “Vivemos há 30 anos um descenso do movimento de massas. Isso deixa o governo refém das articulações no ‘andar de cima’, com a burguesia, com a política institucional, o Centrão, a Globo, menos com o povo, já que o povo está parado, acomodado. Por isso o governo não tem coragem de avançar”, avalia o economista.
Stedile defende que “todo militante de esquerda tem que ser indignado, revoltado contra qualquer problema ou injustiça” e que a indignação deve servir como motor para o trabalho junto ao povo, onde a reflexão crítica servirá “para que as pessoas tomem consciência sobre sua realidade e atuem sobre ela”.
O chamado “trabalho de base” nas periferias urbanas foi a pauta central do evento no qual participou o economista sem terra, de 28 a 30 de março, no Recife. O evento do Mãos Solidárias reuniu militantes e ativistas de 20 estados brasileiros, que atuam em projetos comunitários nas áreas de alimentação, agricultura urbana, saúde, cultura, educação popular e cidadania.
Mãos no trabalho de base

A composição da classe trabalhadora do Brasil, explica Stedile, tem tudo a ver com as dificuldades de realizar o trabalho de base. “Ao longo do século 20 [anos 1900], os trabalhadores estavam concentrados no operariado e no campesinato. Mas o capitalismo mudou suas formas de exploração nas últimas décadas, acumulando capital através de juros e especulação. Grande parte dos trabalhadores foi lançada na informalidade pelo capitalismo. A esquerda, acostumada a organizar sindicatos e partidos, agora não sabe onde encontrá-los. O único lugar que sabemos onde estão é o lugar onde moram: as periferias das grandes cidades”, diz o dirigente do MST.
Por isso, avalia João Pedro, o encontro do Mãos Solidárias no Recife “é um momento histórico da classe trabalhadora brasileira”. O movimento planeja para 2026 uma nova iniciativa, unindo a metodologia dos “agentes populares”, mas agora com foco nas questões ambientais. “Estamos dando um novo passo, organizando jovens para nos ajudar a cuidar do meio ambiente nos bairros, cuidando de hortas, reflorestando e impedindo agressões à natureza”, resume.
O futuro da esquerda brasileira
Os rumos da esquerda no pós-Lula também foi tema na conversa do Brasil de Fato Pernambuco com Stedile, que não culpa o presidente da República por não conseguir “criar” um sucessor natural. “Quem produz os líderes é a luta dos povos, o movimento de massas. Foi assim que Lula surgiu. Ninguém o conhecia como presidente de sindicato lá em São Bernardo. Mas ele é fruto das greves operárias, uma grande mobilização popular daquela época”, diz o dirigente do MST, que referencia o pernambucano João Paulo (PT) como outro exemplo daquela geração.
E, apesar dos debates apontando Fernando Haddad (PT), Camilo Santana (PT), Guilherme Boulos (Psol), Manuela D’Ávila (Psol) e João Campos (PSB) como potenciais sucessores, Stedile considera a discussão improdutiva. “Não percamos tempo com hipóteses. Líder popular quem escolhe é o povo, não importa que cargos eles ocupem”, dispara. “O que faz falta é o trabalho de base, conscientizar o povo, estimular as lutas de massa. Elas, sim, resolvem os problemas do povo e geram um caldo de cultura que acumula para grandes mobilizações de massa. Destas mobilizações surgem os novos líderes”, conclui.

