O Espaço Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação) promove, nesta quinta-feira (9), às 19h, na rua Olavo Bilac, 188, Cidade Baixa (Porto Alegre), uma conversa entre uma angolana e um professor e livreiro gaúcho sobre “O que o oceano separa, a história e a cultura nos unem”. A iniciativa faz parte do Projeto Porta Vermelha do Alice e é considerado a celebração do encontro “Brasil-Angola: Irmãos de Sangue”.
Os participantes são o ex-professor, historiador e livreiro Bolivar Gomes de Almeida, 76 anos, e a angolana Eunice Virgínia Cuta Lopes, 28 anos, fisioterapeuta e trancista – profissional especializada em criar, estilizar e cuidar de tranças e penteados, com foco especial em técnicas afro, considerado empoderamento da cultura negra, sendo agora reconhecido oficialmente no Brasil como uma atividade ocupacional. Bolivar fará o papel de mediador da conversa com Eunice.

Bolivar, professor aposentado, é um estudioso de geopolítica mundial. Estuda a história africana e sabe detalhes importantes de cada país, de cada governante. Hoje é um livreiro independente, vende livros adultos, infantis, a maioria de política. Alguns são livros raros, difíceis de se encontrar em qualquer livraria. Vende em todos os pontos possíveis. Mercado Público de Porto Alegre, repartições, Assembleia Legislativa, Câmara de Vereadores e onde mais for procurado por seus milhares de amigos e conhecidos e que sabem da sua atividade, através de redes sociais ou telefonemas.
Os amigos o chamam de Bolivros – talvez porque tenha sido proprietário de uma livraria, há muitos anos. Progressista, com forte atuação política em manifestações e ações de grupos de trabalhadores, Bolivar fala em política com desenvoltura, conhecimento e memória.

Eunice veio para o Brasil com 20 anos para construir uma nova vida. Está estabelecida em Porto Alegre onde exerce sua atividade de fisioterapeuta e trancista. Originária do povo Bakongo, do norte de Angola, com presença significativa na capital do país, Luanda, devido às migrações existentes no país africano.
Os Bakongos organizam-se por descendência materna (matrilinearidade) e têm tradições artísticas fortes, incluindo escultura, tecelagem e fabricação de máscaras. Sempre foram grandes comerciantes na área agrícola (mandioca e café) e pescadores. A língua é o Kigongo, um idioma banto falado por milhões de pessoas na região.
A força do povo Bakongo
O povo Bakongo teve um papel central na luta pela independência de Angola, proclamada oficialmente em 11 de novembro de 1975. O ato pôs fim a mais de quatro séculos de colonização portuguesa e 13 anos de luta armada, sendo proclamado por Agostinho Neto (MPLA- Movimento Popular de Libertação de Angola) em Luanda, enquanto outros movimentos declararam independência em outras regiões, como o Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita) do histórico Jonas Savimbi. A independência não selou a paz entre os grupos. Começou, a seguir, uma guerra civil que durou até 2002, quando Savimbi morreu. Hoje, a UNITA é um partido político de oposição, conhecido pelo símbolo de um “galo negro”.
União pelos séculos afora
Conforme Bolivar, o assunto do evento é Angola, que tem uma forte união com o povo brasileiro desde 1550, quando eles começaram a vir para o Brasil vendidos como escravos, contribuindo decisivamente para a formação do povo brasileiro. A maior parte dos escravos, comprados pelos mercadores europeus, principalmente portugueses, saiu de lá e veio para o Brasil. Prova disso é o número de palavras do idioma que falamos, originárias das línguas ambundo, ovimbundo, kikongo e outras.
Angola, no sul da África, tem um território de 1.247.000 quilômetros quadrados e uma população estimada pelas Nações Unidas de 39,9 milhões de pessoas. O seu território abrange praias tropicais do Atlântico, além de um sistema labiríntico de rios e desertos subsaarianos que se estende até a Namíbia. A história colonial do país se reflete em sua cozinha de influência portuguesa e em marcos históricos, como a Fortaleza de São Miguel, construída pelos portugueses em 1576 para defender a capital, Luanda. O idioma oficial é o português. Há centenas de dialetos espalhados pelo país.
A vida em Angola é marcada por intensos contrastes, unindo uma cultura rica e povo caloroso a desafios estruturais significativos. Luanda é um dos centros urbanos mais caros do mundo, com grande disparidade econômica. O país oferece oportunidades em setores como construção e agronegócio, mas enfrenta limitações na saúde pública e infraestrutura
Viajar para Angola é possível, mas exige cuidados redobrados com segurança, saúde e planejamento, sendo mais recomendado para viajantes experientes. Embora a situação tenha melhorado, crimes violentos, furtos e instabilidade exigem precaução. Quem vai à Luanda precisa de atenção redobrada à noite e áreas isoladas devem ser evitadas, conforme relato da empresa Real Seguro Viagem, que faz roteiros por lá. Brasileiros não precisam de visto para turismo para estadias de curta duração. Passaporte com validade mínima de seis meses é exigido.
Relações entre os dois países
As relações entre Brasil e Angola, baseadas em laços históricos e linguísticos, são consideradas uma parceria estratégica (desde 2010), focada na cooperação técnica, agricultura e petróleo. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência angolana em 1975. Atualmente, Angola é um dos principais parceiros comerciais brasileiros na África. Mais de 30 mil brasileiros moram por lá, a maioria trabalhando em áreas estratégicas, conforme site do governo brasileiro.
As principais parcerias são na área da agricultura. O Brasil oferece transferência de tecnologia (similar ao Cerrado brasileiro) para aumentar a produção local. Em 2024, as importações brasileiras de Angola (principalmente petróleo bruto) cresceram 52%, enquanto as exportações (aves, produtos industriais) aumentaram 20%, totalizando um fluxo comercial robusto. Há parcerias ativas em saúde (formação de recursos humanos), educação, defesa, segurança e cultura (incluindo o intercâmbio de novelas e música). A reaproximação diplomática, especialmente no governo Lula, busca retomar projetos de infraestrutura e aumentar a segurança alimentar.
As relações não são apenas comerciais e econômicas, mas também históricas e culturais, uma vez que ambos os países fizeram parte do Império Colonial Português.
A presença de empresas brasileiras em Angola é significativa, já que construtoras como a Odebrecht (atual OEC), participou da construção da principal hidrelétrica angolana (Central Hidroelétrica de Capanda), Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, firmaram nos últimos anos grandes contratos para a execução de obras públicas no país africano, cuja infraestrutura foi arrasada pelos 27 anos de conflito. Essas empresas, entretanto, tornaram-se alvo de parte dos ativistas contrários ao governo, que as consideram cúmplices da corrupção e do desvio de verbas públicas.
