SABEDORIA POPULAR

Farmácia viva, plantas medicinais e saberes ancestrais reúne grupo de cuidado no litoral norte gaúcho

Cartilha Mulheres-árvore dissemina conhecimentos sobre cura através das plantas e terá distribuição gratuita à população

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Lançamento marca conclusão do projeto Reverdecer, que promoveu vivências em diversos terrórios, como o encontro relizado na Tekoa Mbya Guarani Guyra Nhendu
Lançamento marca conclusão do projeto Reverdecer, que promoveu vivências em diversos terrórios, como o encontro relizado na Tekoa Mbya Guarani Guyra Nhendu | Crédito: Mirellara Baioli

A partilha dos conhecimentos ancestrais sobre cura e cuidado através das plantas medicinais ganha força com a cartilha Mulheres-árvore – Encontros da Farmacinha em Territórios de Bem Viver. A publicação será lançada com a realização de um evento no dia 25 de abril, às 15h, na Farmacinha Comunitária Filhas da Esperança, em Maquiné (RS).

O encontro vai reunir mulheres e comunidades em torno de histórias que atravessam o tempo, de folhas e raízes de plantas que curam e de ações de cuidado comunitário. Serão compartilhados saberes que carregam o patrimônio cultural e imaterial cultivado ao longo do projeto Reverdecer, viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.

A publicação reúne registros das experiências vividas nesses espaços coletivos de sabedoria popular que trazem as plantas e o bem-estar integral como protagonistas do cuidado e da cura para enfermidades. Guardiãs desses saberes trazem consigo receitas de chás, tinturas, pomadas e xaropes, além de uma profunda conexão com o os corpos físico, emocional e espiritual.

“Esse conhecimento vem, em grande parte, de tradições ancestrais, transmitidas entre gerações e articuladas com princípios da agroecologia e da saúde integral”, explica a produtora executiva, pesquisadora e fotógrafa da iniciativa do projeto, Mirella Rabaioli.

Encontro do projeto Reverdecer em Três Cachoeiras
Encontro do projeto Reverdecer em Três Cachoeiras | Crédito: Mirellara Baioli

Uma publicação construída por várias mãos e diversos olhares

Como todo conhecimento popular, a cartilha é uma construção coletiva que costura saberes de várias mulheres e histórias que viajam o tempo e as localidades. São relatos, textos poéticos, fotografias e materiais produzidos durante os encontros que vem sendo realizados na região.

A cartilha se faz em folhas de papel e palavras escritas, mas se constitui também de escuta e permanência. “Ela busca honrar e manter vivos esses saberes que sustentam modos de vida inteiros”, afirma a escritora da publicação Michele do Caminho. A proposta é ampliar o olhar sobre práticas que, embora muitas vezes invisibilizadas, sustentam redes de cuidado, autonomia e bem-viver.

Projeto Reverdecer e territórios de encontro

O Reverdecer existe desde 2024, quando a semente começou a germinar ao receber mulheres na Farmacinha, em Maquiné, para começarem a partilha de saberes. Uma segunda etapa do projeto teve início em 2025 e, desde então, vem ampliando suas atividades em mais territórios. Os encontros aconteceram atualmente em Maquiné, Viamão, Triunfo, Três Cachoeiras, São Francisco de Paula e Porto Alegre.

Em cada lugar, uma história. No assentamento Filhos de Sepé, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do RS (MST), em Viamão, a agroecologia se apresenta como prática cotidiana e política. Em Triunfo, na Comunidade Kilombola Morada da Paz – Território de Mãe Preta, o cuidado com a vida é conduzido por mulheres que sustentam um espaço matriarcal.

No município de Três Cachoeiras, o saber das pomadas artesanais atravessa gerações com o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Há ainda vivências nos territórios Tekoa Guyra Nhendu, aldeia Mbya Guarani (Maquiné); Retomada Gãh Ré, do povo Kaingang (Porto Alegre); e Retomada Xokleng Konglui (São Francisco de Paula).

Encontro na retomada do povo Kaingang Gãh Ré, em Porto Alegre
Encontro na retomada do povo Kaingang Gãh Ré, em Porto Alegre | Crédito: Mirellara Baioli

“Ir até esses territórios foi fundamental para compreender as realidades, as lutas e a potência dessas mulheres. Cada encontro foi um aprendizado e uma construção coletiva de sentido”, completa Rabaioli.

Farmacinha ancestral em Maquiné

A Farmacinha Comunitária Filhas da Esperança, em Maquiné, existe há mais de 30 anos e virou referência. Teve início como um espaço que possibilitava às mulheres e à comunidade fugir do isolamento e, hoje, virou uma rede de cuidado que faz brotar farmacinhas vivas por todo o país.

A cartilha Mulheres-árvore foi construída a partir do trabalho da equipe de pesquisa, memória e registro — formada por mulheres da própria Farmacinha. Ela é parte do fechamento do projeto Reverdecer, que encerra em abril. A Farmacinha Comunitária Filhas da Esperança atende gratuitamente toda última quarta-feira do mês, e nas outras quartas-feiras está aberta a receber interessados em aprender sobre as práticas.

Farmacinha Comunitária Filhas da Esperança existe há mais de 30 anos
Farmacinha Comunitária Filhas da Esperança existe há mais de 30 anos | Crédito: Mirella Baioli

Após o lançamento, a cartilha ficará disponível na Farmacinha e será distribuída gratuitamente em escolas, bibliotecas, associações comunitárias, movimentos sociais e espaços culturais. Parte dos exemplares também será destinada a instituições públicas, além da versão digital, que poderá ser acessada gratuitamente no site farmacinhacomunitaria.com.br.

Editado por: Marcelo Ferreira

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