A prestação de contas do prefeito Álvaro Damião (União), realizada na segunda-feira (6), na Câmara Municipal de Belo Horizonte, foi marcada por cobranças de vereadores e moradores sobre temas centrais da gestão, como obras atrasadas, déficit orçamentário, crise na saúde e transporte público. Apesar de apresentar um balanço positivo do primeiro ano à frente do Executivo, o prefeito evitou detalhar prazos e respondeu de forma genérica a questionamentos mais sensíveis.
Antes de abrir espaço para perguntas, Damião destacou ações como a redução da fila de exames, a nomeação de 3,8 mil profissionais da saúde, ampliação de vagas na educação, plantio de 51 mil árvores e a gratuidade no transporte coletivo aos domingos e feriados. Ainda assim, a ausência de cronogramas concretos para obras em andamento gerou frustração entre parlamentares e o público presente.
Promessas sem prazo e cobranças diretas
Logo no início da reunião, o prefeito reagiu a cartazes exibidos por moradores. Questionado sobre a reforma da Praça do Papa, limitou-se a afirmar que a entrega deve ocorrer até o fim do semestre. Já sobre a compra de 40 iPhones pelo Executivo, afirmou que os aparelhos são oriundos de apreensões da Receita Federal e destinados à comunicação institucional, sem uso por ele ou secretários.
O encontro também evidenciou um contraste recorrente entre os dados apresentados pela prefeitura e a realidade percebida pela população. Vereadores apontaram que, enquanto o relatório oficial descreve uma cidade em avanço, moradores seguem convivendo com problemas estruturais, como obras de drenagem inacabadas e impactos das chuvas.
Durante a sessão, foram questionados ainda os pedidos de empréstimos enviados pelo Executivo, que somam cerca de R$ 3 bilhões. Parlamentares cobraram prioridade na conclusão de obras já iniciadas antes da contratação de novos financiamentos. Em resposta, Damião reconheceu que há intervenções incompletas, mas afirmou que elas já contribuíram para reduzir alagamentos, sem, no entanto, indicar prazos para finalização.
Anel Rodoviário e Orçamento Participativo travado
A recente municipalização do Anel Rodoviário também entrou no debate. Questionado sobre o número de radares instalados, o prefeito justificou a medida com dados de mortalidade no trânsito, afirmando que os equipamentos são necessários para salvar vidas.
Já sobre obras do Orçamento Participativo (OP), muitas paralisadas há anos, Damião afirmou que seguirá a ordem cronológica de execução. A resposta, no entanto, não esclareceu quando intervenções aguardadas pela população sairão do papel, mantendo a incerteza sobre a retomada efetiva dessas políticas.
Políticas para mulheres e incertezas no orçamento
A vereadora Luiza Dulci (PT) questionou o destino do orçamento municipal para políticas voltadas às mulheres, especialmente diante do aumento da violência de gênero.
A parlamentar destacou o papel do Centro Especializado de Atendimento à Mulher – Benvinda, criado na gestão de Patrus Ananias (PT), e levantou dúvidas sobre a continuidade e possível ampliação do serviço diante da implementação da Casa da Mulher Brasileira.
Em resposta, Damião afirmou que não haverá redução de recursos nem encerramento do Benvinda, mas indicou que o serviço pode ser incorporado à nova estrutura, sem detalhar como isso ocorrerá. Também não confirmou aumento de investimentos na área, apesar do cenário de agravamento da violência.
“A Casa da Mulher Brasileira será a resposta no combate ao avanço da violência contra a mulher. Preciso agradecer ao governo federal que é quem nos ajuda a fazer essa obra acontecer”, afirmou Damião.
A prefeitura iniciou as obras da Casa da Mulher Brasileira, no bairro União, com previsão de entrega em 2026 e investimento de R$ 15,5 milhões, em parceria com o governo federal. O espaço deve concentrar serviços especializados para atendimento a mulheres em situação de violência.
Ainda durante a sessão, Luiza Dulci chamou atenção para a situação dos catadores de materiais recicláveis. O prefeito afirmou que pretende enviar um projeto à câmara para o setor, com previsão de investimentos em equipamentos e reconhecimento profissional, mas novamente sem apresentar prazos.
“PL da especulação” e disputa sobre o centro
O projeto de requalificação da região central, chamado por críticos de “PL da especulação imobiliária”, dividiu opiniões. Parlamentares apontaram risco de favorecimento ao setor imobiliário e criticaram a tramitação acelerada, sem debate amplo com a população.
O vereador Pedro Patrus (PT) cobrou garantias de inclusão social no texto, defendendo que ao menos 50% dos empreendimentos sejam destinados à habitação popular.
“Ninguém é contra revitalizar o centro, mas o que está em debate é a forma como isso será feito”, afirmou. Ele também criticou a postura da prefeitura ao classificar críticas ao projeto como desinformação.
Damião respondeu que a proposta considera a população mais pobre, mas não garantiu percentual mínimo de moradias populares.
Ao comentar a gratuidade nos ônibus aos domingos e feriados, o prefeito classificou a política como um sucesso e indicou, sem compromisso, a possibilidade de ampliação para estudantes universitários de baixa renda.
Crise na saúde e risco de cortes
A situação da saúde pública foi um dos pontos mais críticos do debate. O vereador Dr. Bruno Pedralva (PT) destacou que, apesar de atender pacientes de todo o estado, o município arca com a maior parte dos custos, enquanto o governo estadual contribui com apenas 12,9% da receita da área.
Com um déficit projetado de R$ 787 milhões no orçamento de 2026, o parlamentar questionou a possibilidade de novos cortes. Damião afirmou que pretende equilibrar as contas sem reduzir investimentos, mas não explicou como isso será feito.
Em entrevistas anteriores, Pedralva denunciou o contingenciamento de quase R$ 200 milhões da saúde, o que teria impactado diretamente o atendimento nas unidades.
A prestação de contas ocorre em meio a denúncias recorrentes sobre o colapso do sistema de saúde na capital. Em 2025, paralisações de servidores expuseram falta de insumos, demissões e precarização do atendimento.
