Cúpula secreta

Reunião Bilderberg reúne elites do Atlântico Norte em meio a fissuras na Otan e agressão ao Irã

Encontro a portas fechadas tem presença de petroleiras, gigantes da IA, bancos centrais e comandantes militares

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Manifestação contra reunião anual do Grupo Bilderberg em Telfs, Áustria, em 13 de junho de 2015, em um hotel de luxo nos Alpes austríacos.
Manifestação contra reunião anual do Grupo Bilderberg em Telfs, Áustria, em 13 de junho de 2015, em um hotel de luxo nos Alpes austríacos | Crédito: Christian Bruna/AFP

Em meio a ameaças dos principais funcionários do governo estadunidense de retirar os EUA da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), começará nesta sexta-feira (10) em Washington mais uma Reunião Bilderberg, um dos principais encontros anuais a portas fechadas das elites políticas e empresariais estadunidenses e europeias.

Fundada em 1954 no Hotel Bilderberg, na Holanda, a reunião ocorre anualmente desde então, sem registro público das discussões e sem coletivas de imprensa, reunindo uma centena de lideranças políticas, empresariais e militares da Europa e da América do Norte, além de alguns representantes das mídias hegemônicas dessa região.

Rutte em Washington

Como é de costume, entre os 123 participantes desta edição está o secretário-geral da Otan, cargo hoje ocupado por Mark Rutte, que chegou a Washington na quarta-feira (8) para se reunir com o presidente estadunidense Donald Trump, o secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Guerra Pete Hegseth.

O ex-secretário-geral da aliança, o norueguês Jens Stoltenberg, que chefiou a Otan de 2014 a 2024, participou regularmente do encontro durante todo o seu mandato e, desde novembro de 2024, passou a presidir o próprio Comitê Diretor do Bilderberg. Rutte, por sua vez, já frequentava o encontro desde 2012, quando era primeiro-ministro dos Países Baixos.

A expectativa era de que o encontro esclarecesse o futuro da aliança, após Trump declarar ao jornal britânico The Telegraph que a retirada estadunidense da Otan estava “além de reconsideração”, descrevendo a aliança como um “tigre de papel”. À agência Reuters, Trump também afirmou que estava “definitivamente” considerando a saída.

Rutte se limitou a dizer ao canal CNN que Trump estava “claramente desapontado” com os aliados e que a conversa foi “muito franca, entre dois bons amigos”, mas se recusou a responder se o presidente estadunidense chegou a discutir diretamente a saída da aliança. 

Logo após o encontro, Trump publicou em sua rede social Truth Social: “A OTAN NÃO ESTAVA LÁ QUANDO PRECISAMOS DELES, E NÃO ESTARÁ LÁ SE PRECISARMOS NOVAMENTE”.

A saída formal dos EUA, no entanto, enfrenta obstáculos legais: uma lei aprovada pelo Congresso estadunidense em 2023, ironicamente apoiada pelo próprio Marco Rubio quando era senador, impede que qualquer presidente retire os EUA da aliança sem aprovação do Legislativo.

As divergências europeias no apoio à agressão ao Irã

O questionamento mais explícito à agressão ao Irã iniciada em 28 de fevereiro foi da Espanha, que fechou seu espaço aéreo a aeronaves estadunidenses envolvidas nos ataques. A França bloqueou rotas de munições e a Itália negou às forças estadunidenses o uso da base aérea de Sigonella, na Sicília.

A Suíça rejeitou a maioria dos pedidos estadunidenses de uso de seu espaço aéreo, invocando sua neutralidade, e a Polônia se recusou a realocar seus sistemas antimísseis Patriot para o Oriente Médio.

Bilderberg: militares, banqueiros e CEOs de IA

A edição deste ano conta com participantes de 21 países, segundo uma lista vazada. Os EUA lideram com 24 representantes, quase um em cada cinco presentes, seguidos por organizações internacionais e pelo Reino Unido, com 11 cada.

Cerca de 53% dos participantes são executivos do setor privado, contra apenas 23% de representantes eleitos.

Entre os presentes estão executivos das cinco principais corporações de inteligência artificial do Ocidente: Anthropic, Google DeepMind, Mistral AI, Microsoft e Thinking Machines Lab. Ao lado deles, o comandante estadunidense do Indo-Pacífico, Samuel Paparo, e o secretário do Exército, Daniel Driscoll. 

Também participam a presidenta do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, o secretário do Tesouro estadunidense, Scott Bessent, e os editores-chefes da Bloomberg, do The Economist e do Financial Times.

Críticas ao Bilderberg

O líder cubano Fidel Castro dedicou em agosto de 2010 três das oito páginas do jornal cubano, Granma, a reproduzir trechos do livro “Os Segredos do Clube Bilderberg”, do escritor lituano Daniel Estulin.

Fidel disse que o Bilderberg é uma camarilha e grupo de lobby que busca instalar um governo mundial “que não responde perante ninguém além de si mesmo”. No livro, Estulin argumenta que o grupo articula decisões sobre política, economia e cultura globais longe de qualquer controle democrático.

O próprio site da organização descreve as reuniões como um espaço para “discussões informais e off-the-record sobre temas de interesse atual“.

Ao longo de suas mais de sete décadas de história, a Reunião Bilderberg contou com a presença de figuras como David Rockefeller, cofundador e participante por mais de 60 anos; Henry Kissinger, secretário de Estado dos governos Nixon e Ford, presença regular desde 1957; e Bill Clinton, que participou em 1991 como governador do Arkansas, um ano antes de ser eleito presidente dos Estados Unidos.

O WikiLeaks, plataforma fundada por Julian Assange em 2006 especializada na publicação de documentos sigilosos de governos e corporações, mantém uma página dedicada ao Grupo Bilderberg em seu arquivo público. Ali estão disponíveis relatórios internos de reuniões entre 1957 e 1980, obtidos de uma base de dados biográfica que se tornou pública após encerrar suas atividades em 2006, além de cabos diplomáticos estadunidenses desclassificados que fazem referência às reuniões, entre eles um telegrama de 1973 da embaixada em Estocolmo relatando protestos contra a presença de Kissinger, e cabos de 2005 discutindo sua participação na reunião realizada na Alemanha. Os documentos estão acessíveis aqui.

Editado por: Thaís Ferraz

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