Em março de 1996, o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) colocou em circulação a primeira edição do Extra Classe. A proposta era incomum no universo sindical brasileiro: produzir jornalismo profissional, com reportagem, edição e projeto gráfico próprios, capaz de dialogar não apenas com os professores, mas também com a sociedade.
Três décadas depois, o jornal tornou-se uma das experiências mais longevas da imprensa vinculada a entidades de trabalhadores no país. A publicação acompanhou as transformações da educação, da política e do mundo do trabalho desde o final do século 20, ampliou presença no ambiente digital e acumulou quase 60 prêmios de Jornalismo.
Para a editora-chefe Valéria Ochôa, chegar aos 30 anos é um marco institucional e editorial. “Trata-se de um projeto muito bem elaborado, estruturado, com qualidade técnica, uma equipe engajada e que conquistou a credibilidade e a confiança dos professores e da sociedade em geral”, destaca. “Ao longo dessas três décadas, foram publicadas centenas de reportagens e entrevistas sobre temas de interesse público, com foco especial em temas sociais e do mundo do trabalho, retratando a atualidade de cada época. Conteúdo, aliás, muito utilizado em sala de aula”. Para ela, a longevidade do projeto se explica por fatores : “A compreensão da direção do Sinpro/RS sobre a importância da comunicação e do jornalismo para a consolidação da democracia; a necessidade de investimento representativo e contínuo na área; a profissionalização da equipe; e, claro, a qualidade editorial, a relevância do conteúdo e o zelo pelos princípios éticos e profissionais do jornalismo”.
Da reinvenção sindical ao jornal Extra Classe

A criação do Extra Classe foi resultado de uma mudança estratégica iniciada no final dos anos 1980, em meio à redemocratização do Brasil. O Sinpro/RS passou a defender que a ação sindical deveria ultrapassar reivindicações corporativas e participar ativamente do debate público. Internamente, a proposta ficou conhecida como projeto do “Sindicato Cidadão”.
O professor Marcos Fuhr, diretor de Comunicação do Sinpro/RS e um dos pioneiros na defesa e implementação do projeto, situa a origem dessa inflexão na própria transformação do sindicalismo brasileiro. “O novo sindicalismo que emerge a partir de 1978 e 1979 se sustenta em dois pilares: a luta pela reposição das perdas inflacionárias e a luta pela democracia”, recorda. Com a estabilização econômica dos anos 1990, esse ciclo perdeu força. “O movimento sindical perdeu aquelas condições objetivas de enfrentamento direto. E aí fomos obrigados a repensar o próprio projeto do Sinpro/RS.”
A conclusão foi ampliar a atuação para além da negociação salarial. “A gente percebeu que não podia se limitar à defesa do poder aquisitivo. O professor não é apenas trabalhador. Ele é um cidadão inserido na vida cultural, política e social.” A comunicação tornou-se um eixo estratégico dessa mudança.
O salto para o Jornalismo
Antes do Extra Classe, o sindicato editava o Jornal do Sinpro, publicação informativa e voltada à categoria. A virada começou com a chegada do então jovem jornalista Marcelo Menna Barreto, em 1991. “Era aquele jornal clássico do movimento sindical, muito voltado ao ‘companheiros, vamos à luta’. Eu pensei: por que não tratar outros assuntos? Por que não fazer jornalismo de verdade?”, relembra, empolgado.
Reportagens externas começaram a dividir espaço com informes sindicais. O ponto de inflexão ocorreu com a série investigativa sobre a Fundação Padre Landell de Moura (Feplam), responsável por cursos financiados com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). A apuração revelou indícios de irregularidades.
“Começamos a puxar o fio e apareceram denúncias de cursos que não aconteciam, carga horária não cumprida e até pessoas diplomadas depois de mortas”, afirma Menna Barreto. A repercussão chegou à Assembleia Legislativa e resultou em questionamentos oficiais.
Os jornalistas foram processados. “Nós fomos processados pessoalmente. Não processaram o sindicato, processaram os jornalistas.”
O Sinpro/RS assumiu a defesa. Durante o processo, a série recebeu o Prêmio ARI de Jornalismo.
“Fomos para a primeira audiência com o troféu do prêmio na mão. Estávamos sendo acusados por fazer aquilo que tinha acabado de ser premiado: jornalismo.”
A Justiça absolveu os repórteres. Para Fuhr, o episódio consolidou uma convicção: “O jornalismo investigativo teve mais efeito do que muitas ações políticas tradicionais”. Isso deu força para avançar com o novo projeto.
Para além da categoria
Em março de 1996, o novo projeto ganhou nome e formato próprios. O lançamento ocorreu na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, simbolizando a intenção de inserir o jornal no espaço público estadual. “O desafio era deixar de produzir apenas boletins e construir um jornal de verdade”, resume Fuhr.
Desde as primeiras edições, o Extra Classe ampliou o escopo editorial. Passou a abordar financiamento da educação, políticas públicas, desigualdade social, direitos humanos, cultura, ciência, meio ambiente e transformações econômicas. A edição inaugural contou com a participação de Luis Fernando Verissimo, que se tornaria colaborador mensal até seu falecimento, no ano passado.
Ao longo dos anos 2000, a publicação consolidou reputação com reportagens especiais e entrevistas aprofundadas. “O jornal ajudava a sindicalizar. As pessoas queriam receber o Extra Classe”, observa Menna Barreto. Editores de grandes veículos passaram a acompanhar a publicação. “Muita gente da grande imprensa dizia que esperava o jornal chegar à redação.”
Convivência do impresso com o digital

Em março de 2014, ao completar 18 anos, o Extra Classe lançou sua versão on-line. A presença digital ampliou o alcance e permitiu atualização contínua do conteúdo. “Foi com o on-line que conseguimos, de fato, chegar além. Hoje o jornal é lido fora do estado e até fora do país”, afirma Valéria Ochôa. Só no ano passado, o EC teve mais de 4,5 milhões de acessos e um bom tempo de leitura, mesmo em matérias mais longas, o que é incomum na web.
Na década de 2020, o jornal ajustou formato e logística, mantendo a edição impressa bimestral e reforçando a integração digital. Em um cenário de concentração midiática e desinformação, os idealizadores avaliam que o papel do veículo ganhou relevância. “Nunca foi tão importante ter informação confiável e de credibilidade como agora”, diz Ochôa.
Para este ano, há uma agenda comemorativa e novos colaboradores passam a integrar a equipe do Extra.
O experiente jornalista Renato Dornelles, além das reportagens sobre segurança pública, inaugura sua coluna mensal sobre o tema. E, nesta edição comemorativa dos 30 anos, o escritor José Falero faz sua estreia como cronista, também com periodicidade mensal, tanto no impresso como on-line.
Ainda em março, o Extra Classe contará com o lançamento de seu novo site, totalmente reestruturado e com novo visual.
Trocando em miúdos, trinta anos depois, o jornal permanece como parte estruturante da ação sindical do Sinpro/RS. “Se uma parcela significativa das pessoas tem o jornal como referência informativa, isso já cumpre uma função social importante”, pondera Ochôa.
Ao sintetizar o percurso iniciado em 1996, ela reafirma o propósito original: “Vida longa ao Extra Classe!”
