Realizado anualmente no mês de abril, em Nyon, na Suíça, o Festival de cinema Visions du Réel consolidou‑se ao longo de mais de cinco décadas como um dos principais festivais internacionais dedicados ao cinema documental e às formas contemporâneas do chamado cinema do real. Em 2026, a 57ª edição do festival aconteceu entre os dias 17 e 26 de abril e reuniu uma programação extensa, marcada por estreias internacionais e por uma curadoria que insiste em uma pergunta cada vez mais urgente: o que ainda pode uma imagem, em um mundo onde a própria ideia de realidade parece cada vez mais instável?
Mais do que um espaço de exibição, o Visions du Réel afirma‑se como um lugar de reflexão crítica sobre a produção e a circulação das imagens. Em um contexto atravessado pela aceleração tecnológica, pela multiplicação de narrativas fabricadas e pela crescente presença da inteligência artificial, o festival propõe um cinema que assume o risco do ponto de vista e da subjetividade como posições éticas, recusando a ilusão de qualquer neutralidade possível.
A edição de 2026 refletiu de forma clara esse debate. Filmes que incorporam a inteligência artificial como ferramenta estética dividiram espaço com obras que fazem da própria tecnologia um tema central, questionando seus efeitos sobre a confiança nas imagens, a memória e a construção de narrativas. Sem adotar uma postura tecnofóbica ou celebratória, o festival reafirmou seu compromisso com a transparência e com a responsabilidade do gesto cinematográfico, reafirmando o cinema do real como um espaço de fricção entre imagem, mundo e espectador.
Nesse contexto, o Brasil esteve presente na edição por meio de duas produções que colocam o território brasileiro no centro da cena. A primeira foi Saudades Eternas, vencedora do Prix de la Critique Internationale – Prix FIPRESCI, dirigida pela cineasta francesa Emma Boccanfuso e realizada como uma coprodução entre a Suíça e a França. A segunda foi A Noite e os Dias de Miguel Burnier, único filme brasileiro da edição, dirigido por João Dumans e selecionado para a Competição Internacional de Longas‑Metragens.
Ambientado na favela Chapéu Mangueira, no Rio de Janeiro, Saudades Eternas constrói‑se como um filme de permanência. Quase toda a narrativa se desenvolve dentro de uma casa de tijolos, sob o comando de Sueli, matriarca de um clã barulhento, afetuoso e constantemente pressionado pela violência armada que atravessa o território. A opção formal é radical: a violência raramente é mostrada, mas está sempre presente, sobretudo no fora de campo sonoro — nos tiros que interrompem conversas, no medo que organiza os corpos, na rotina adaptada à imprevisibilidade.
Ao recusar a espetacularização da violência, o filme se concentra em seus efeitos acumulados sobre a vida cotidiana e sobre a saúde física e mental dos moradores. O estresse permanente, a ansiedade crônica e o trauma coletivo surgem como marcas silenciosas dessa convivência contínua com operações policiais e confrontos armados. Nesse sentido, Saudades Eternas dialoga com episódios emblemáticos do próprio Chapéu Mangueira, como o caso de Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, morador morto após ser confundido pela polícia por carregar um guarda‑chuva. Amplamente documentado pela imprensa, o episódio tornou‑se símbolo de uma lógica de suspeição permanente e ajuda a compreender a violência de Estado como um problema também de saúde pública, que produz efeitos duradouros muito além do momento do confronto.
Na opinião da brasileira Liliane Rodrigues Bacci, que assistiu ao filme no último sábado, “eu achei um filme que nos transporta a uma vida de quase confinamento na comunidade, mostrando a situação real, mas que com Sueli, que vive estressada, rimos muito. O filme mostra a violência policial, as mães solteiras, o jovem sem muita perspectiva e o a vida cotidiana de quem não tem muita escolha”, afirma ela.
Já A Noite e os Dias de Miguel Burnier desloca o olhar para o interior de Minas Gerais. O documentário acompanha os últimos moradores do distrito de Miguel Burnier, em Ouro Preto, após a instalação de um grande empreendimento minerário que comprou terras, esvaziou a comunidade e transformou o entorno em um espaço progressivamente estéril. Filmado ao longo de vários anos, o longa observa a vida que insiste em permanecer em meio ao abandono, ao desemprego e à ausência sistemática do poder público.
No centro do filme está a tentativa de sustentar vínculos e afetos onde o horizonte de futuro parece ter sido corroído. Ao acompanhar cenas de convivência, celebrações improvisadas e gestos cotidianos de cuidado, o documentário revela uma forma de resistência que não se apresenta como discurso, mas como prática de sobrevivência. A mineração surge não apenas como atividade econômica, mas como força que reorganiza o espaço de modo a torná‑lo hostil à vida.

Essa leitura atravessa também a fala do diretor João Dumans, para quem o debate não se limita à oposição simplista entre progresso e preservação. O que está em jogo, segundo ele, é a distribuição desigual dos custos desse modelo de desenvolvimento. “Nenhuma vida pode pagar sozinha por isso”, afirma. Para o cineasta, quando determinadas comunidades são continuamente expostas à precariedade e à violência, o problema não está nelas, mas na forma como a sociedade aceita que certas vidas sejam tratadas como sacrificáveis. Dumans destaca ainda a educação como elemento central para qualquer possibilidade de transformação, defendendo a escuta das populações afetadas e o investimento em formação crítica como caminhos indispensáveis para romper ciclos históricos de abandono.
O conjunto de filmes premiados no Visions du Réel 2026 reforça essa linha editorial. Vindas de diferentes regiões do mundo, as obras reconhecidas pelo júri e pela crítica internacional abordam temas recorrentes como migração, memória, transmissão entre gerações, conflitos armados, relações familiares e resistência cotidiana. Mais do que mapear territórios, o festival propôs uma cartografia de experiências humanas atravessadas por instabilidade, violência e tentativa de reconstrução.
Ao encerrar sua edição de 2026, o Visions du Réel reafirmou seu lugar como um festival que recusa respostas fáceis. Em um momento em que a inteligência artificial desafia a noção de autenticidade das imagens, o cinema do real mostrou‑se, mais uma vez, não como um espelho neutro do mundo, mas como um exercício de atenção, responsabilidade e escuta. Entre algoritmos e vidas precárias, o festival lembrou que a ética da imagem começa sempre pela pergunta: a quem ela serve, e a que custo?
