O Elevado João Goulart, conhecido como “Minhocão”, no centro de São Paulo, recebe a terceira edição do Cine Minhocão em formato de festival. O projeto, iniciado em 2019, exibe curtas-metragens do Brasil e do exterior na rua elevada da capital. A programação é composta por oito sessões divididas em dois finais de semana, com encerramento e premiação agendados para o domingo, 3 de maio.
A seleção abrange filmes de países como Argentina, Coreia do Sul, França, Índia e Polônia. No Brasil, há obras de estados como Amazonas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo. O acervo inclui produções que passaram por festivais como Cannes, Berlim, Tiradentes e Roterdã, misturando gêneros como animação, documentário e ficção.

O idealizador do evento, Antônio Linhares, afirma que o formato evoluiu desde a criação do projeto. “Começamos com exibições mensais esporádicas, como se fosse um formato de cineclube, isso em 2019. Depois, descobrimos que o festival atraía mais interesse e algo que agora também consolidamos é ter a presença de convidados, debates e a premiação”, explica Linhares.
A infraestrutura do festival utiliza um sistema de transporte e projeção baseado em um triciclo de carga. O equipamento conta com som e baterias portáteis. Segundo a organização, a escolha pelo viário do elevado ocorre pela ausência de degraus, o que permite o acesso de pessoas com mobilidade reduzida e usuários de cadeiras de rodas.
Linhares destaca a relação entre o cinema e o planejamento urbano. “O Minhocão tem essa característica por ser um sistema viário originalmente feito para os carros. Conseguimos perceber, no momento em que o Minhocão é aberto para o uso das pessoas e não para os carros, como o automóvel tem a prioridade na cidade, possuindo a via plana, sem nenhum obstáculo ou degrau”, afirma.
O festival registrou a presença de aproximadamente 800 pessoas por dia no primeiro final de semana. O público utiliza meios de transporte alternativos para chegar ao local. “Se imaginássemos como 800 pessoas conseguiriam chegar a uma sala de exibição de carro, seria um caos. No caso, todos chegaram caminhando, pedalando, de skate ou em cadeira de rodas”, diz o idealizador.
A curadoria do evento baseia-se em três eixos: temático, estético e narrativo. O objetivo é selecionar obras que abordem memória, pertencimento e questões sociais, mantendo um apelo para a exibição em ambiente aberto. Linhares pontua que o personagem pode ser até a própria cidade ou a própria memória. “De toda forma, essa ideia de um personagem cativante permeia muitos dos filmes”.
Entre as produções nacionais exibidas está a animação “VivaCidade”, dirigida por Fernanda Giulia e Breno. O filme utiliza o cenário de São Paulo para abordar a arte urbana. “Queríamos mostrar esse lado das pichações e das artes de rua. O filme é um debate sobre arte de museu e arte de rua”, explica Fernanda Giulia.

A diretora detalha que a obra utiliza referências locais para construir a narrativa. “Esse filme se passa especificamente em São Paulo, por isso dialoga muito com o centro da cidade. Temos muita referência, tanto no cenário quanto na animação e nos grafites, de pichadores e grafiteiros reais. O Masp, por exemplo, é uma referência direta”, afirma Giulia.
“O filme conta a história da Clarice, que, depois de ser assaltada e ter sofrido o preconceito do policial, se revolta e começa a pichar como um ato de rebeldia. O que ela não sabia era que a pichação iria criar vida e eles criariam uma relação muito interessante. O filme é um debate sobre arte de museu e arte de rua. Não procuramos responder nada porque existe esse debate dentro das artes sobre se o grafite e as pichações são realmente arte”, conta.
As exibições do festival contam com legendas em todos os filmes, inclusive nos brasileiros. A medida visa atender pessoas com deficiência auditiva e garantir a compreensão do áudio em ambientes com ruídos externos. Além disso, a organização promove a presença de diretores para debates após as sessões.
Sobre o mercado de curtas-metragens, Antônio Linhares menciona a importância de políticas públicas e da descentralização da produção. “Vemos que as histórias boas vêm de todos os lugares, então sempre temos uma seleção muito ampla dos estados. Tentamos descentralizar ao máximo”, afirma o diretor, que cita a Lei Nacional Aldir Blanc como fator de fomento.
Após o encerramento no Elevado João Goulart, o projeto realiza uma sessão itinerante na zona sul de São Paulo. A exibição ocorrerá na quarta-feira, 6 de maio, no Bloco do Beco, no Jardim Ibirapuera. A atividade mantém a parceria com o Churraskino do Ibira Lab, iniciada no ano anterior.
* Lugar de Memória – Observatório Cultural é uma plataforma gratuita e de fácil acesso, dedicada ao registro, à difusão e à valorização da memória, da identidade e do patrimônio cultural material e imaterial da região central de São Paulo.
