A Polícia Civil de São Paulo investiga o uso do heliponto do Palácio dos Bandeirantes por um operador ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) em março de 2022, na gestão do ex-governador João Doria.
A apuração indica que o empresário João Gabriel de Melo Yamawaki pousou no local para ir a uma partida no estádio do MorumBIS após obter autorização com apoio de contatos políticos. Yamawaki já havia sido alvo de outra investigação iniciada em 2024, que identificou movimentações financeiras bilionárias ligadas ao PCC por meio de empresas. Desde março deste ano, ele está preso por tráfico de drogas.
Segundo a investigação, a liberação ocorreu em poucas horas e foi intermediada pelo então vereador suplente de Santo André, Thiago Rocha de Paula (PSD), que teria informado que a aeronave transportava uma delegação do Japão.
O caso faz parte da Operação Contaminatio, que apura a atuação de um grupo ligado ao chamado núcleo político da facção. A investigação aponta tentativa de infiltração em prefeituras da Grande São Paulo e do interior com o objetivo de lavar dinheiro e influenciar decisões administrativas e processos eleitorais. Também há suspeita de apoio a candidaturas nas eleições municipais de 2024.
De acordo com a polícia, o grupo buscou inserir municípios em uma fintech chamada 4T Bank, usada para movimentação de recursos. A empresa atuaria na gestão de receitas públicas, como emissão de boletos e recebimento de tributos.
O delegado Fabrício Intelizano afirmou que o esquema envolvia a circulação de valores para ocultar a origem dos recursos. “Recebimento de tributos de programas da receita, como, por exemplo, a função de mata fiscal premiada. Eles queriam explorar esse mecanismo para poder fazer o dinheiro que eles inseriam no mercado financeiro através da Fintech, fazer esse dinheiro circular e tentar limpar esse dinheiro na extensão dessas tratativas aí”, disse em entrevista ao g1.
A apuração também identificou uma rede de contatos em administrações municipais. “Eles tinham uma rede de contatos, pessoas que atuavam na administração dos municípios, no secretariado, pessoas que eram vinculadas de alguma forma à administração desses municípios e, com isso, fazendo com que eles conseguissem ter influência nas decisões daqueles municípios, lavando dinheiro dentro das administrações públicas”, disse o delegado.
“Em um determinado município, eles queriam colocar o banco para fazer o recebimento dos tributos. A investigação segue nesse sentido para verificar se houve de fato essa infiltração, até onde essa infiltração alcançou e buscar, no final das contas, proteger o Estado brasileiro como um todo dessa presença nociva do crime organizado”, acrescenta.
Na segunda-feira (27), a operação cumpriu mandados de prisão e de busca em cidades de São Paulo, além de Goiás, Paraná e Distrito Federal. Houve apreensão de celulares, computadores, documentos e veículos. A Justiça também determinou o bloqueio de mais de 500 milhões de reais em contas e bens. Ao menos seis pessoas foram presas, entre elas Thiago Rocha de Paula e outros investigados apontados como operadores ou intermediários.
Em nota, a Câmara de Santo André informou que Thiago Rocha de Paula permaneceu poucos dias no cargo e não participou de processos de contratação da administração.
O ex-governador João Doria afirmou que não tem responsabilidade sobre o uso do heliponto. “Eu não controlo o heliponto. Nem precisa de autorização do governador para fazer uso do heliponto no Palácio dos Bandeirantes. Quem tem que se manifestar, quem tem que responder sobre essa circunstância é a Casa Militar do Governo de São Paulo, não é o governador, nem Tarcísio [de Freitas], nem João Doria, nem Rodrigo, nem Alckmin. Imagina. Nós não controlamos quem pousa e quem decola do heliponto do Palácio”, disse.
O governo de São Paulo não se manifestou, e as defesas de parte dos investigados não foram localizadas. O espaço segue aberto.
