O presidente da junta militar do Mali, Assimi Goita, que não havia sido visto em público e cujo paradeiro era desconhecido desde os ataques rebeldes sem precedentes de sábado (25), reapareceu nesta terça-feira (28). Goita recebeu o embaixador da Rússia no país, informou a Presidência do Mali, que divulgou fotos do encontro.
Os ataques realizados no sábado pelos rebeldes tuaregues da Frente de Libertação de Azawad (FLA) e pelos jihadistas do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) nos arredores de Bamako e em várias cidades do centro e do norte do país deixaram pelo menos 23 mortos. Segundo o comunicado divulgado pela Presidência do Mali, as duas partes trataram da situação atual do país.
O embaixador russo em Bamako, Igor Gromyko, “reafirmou o compromisso de seu país ao lado do Mali na luta contra o terrorismo” e garantiu que “a Rússia sempre será amiga do Mali”, segundo o texto. A ausência e o silêncio de Assimi Goita alimentaram durante três dias especulações sobre sua capacidade de se manter no poder, enquanto seu ministro da Defesa, Sadio Camara, um dos principais nomes da junta, morreu em um dos ataques.
Camara era considerado o arquiteto da aproximação dos últimos anos com a Rússia.
Revoluções do Sahel
O país africano é governado por uma junta nacionalista que tomou o poder em 2020 e tenta se libertar do domínio pós-colonial francês, o antigo colonizador. Em 2022, os governantes militares do Mali pediram às tropas francesas que deixassem o país “sem demora”, momento apontado em que os países do Sahel, na África Ocidental, iniciaram sua verdadeira jornada rumo à independência.
Cada um dos três principais países do Sahel (Mali foi seguido por Burkina Faso e Níger no ano seguinte) exigiu que as tropas francesas deixassem seus territórios em pouco tempo, pondo fim a um longo período de domínio pós-colonial. Os países se aproximaram então da Rússia, especialmente para combater a ameaça de grupos jihadistas, que há mais de uma década atacam a região para instituir califados.
Nos últimos anos, os três países reduziram radicalmente suas relações com Paris, incluindo a presença de soldados franceses. Esses governos nacionalistas decidiram que a França, com seus reflexos imperialistas e sua inclinação por soluções militarizadas violentas, tinha pouco a lhes oferecer no combate aos islamistas.
Cada um desses países, assim como o Chade, que fica mais a leste, passou a ser liderado por militares. Nas três nações centrais, os chefes de Estado são nacionalistas que usam uniforme e cuja retórica se baseia no panafricanismo de Kwame Nkrumah, que liderou Gana rumo à independência em 1957, e, mais recentemente, de Thomas Sankara, o jovem oficial revolucionário que mudou o nome de Alto Volta para Burkina Faso – terra de pessoas íntegras – em 1984, e governou como um populista progressista até ser deposto, provavelmente com a aprovação francesa, em 1987.

A aproximação entre a Rússia e os países da região do Sahel intensificou-se a partir de 2023-2024, consolidando-se como uma mudança geopolítica estrutural na África Ocidental. A aliança baseia-se em cooperação militar direta, segurança, troca de recursos e apoio político.
Situação permanece volátil
Após os intensos combates entre soldados malineses e os grupos armados, a situação voltou a uma relativa calma nesta terça-feira em Bamako, onde, no entanto, ainda se ouvia o barulho de drones de vigilância.
“Consideramos importante que o país recupere o mais rápido possível uma trajetória pacífica e estável”, declarou o porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov, em sua entrevista coletiva diária.
O porta-voz se recusou a responder à pergunta sobre se o Corpo Africano da Rússia, a força paramilitar que apoia a junta no poder, seria capaz de controlar a situação. A entidade, conhecida também como Grupo Wagner, teve que se retirar da cidade de Kidal, norte do Mali, quando grupos armados tomaram essa cidade-chave.
A retirada ocorreu em virtude de um “acordo” com o JNIM, aliado da Al-Qaeda, e com a rebelião tuaregue, segundo esses grupos. O vice-ministro russo das Relações Exteriores, Gueorgui Borisenko, declarou nesta terça-feira que os paramilitares russos sofreram “baixas” durante “ataques em inúmeras regiões do país”.
“O inimigo não abandonou suas intenções agressivas e está se reagrupando. A situação na República do Mali continua difícil”, afirmou, por sua vez, o Ministério da Defesa russo em comunicado publicado nas redes sociais.
