PELA CIDADE BAIXA

Mocambo se transforma em espaço de resistência e de luta democrática da comunidade negra em Porto Alegre

Local surgiu da cervejaria Implicantes, mas sofre pressões e enfrenta burocracia oficial para expandir

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Mocambo tem dois sócios negros: Marcelo Pires, 26 anos, e seu primo Daniel Dias, 34 anos, e uma multidão de parceiros em toda a região
Mocambo tem dois sócios negros: Marcelo Pires, 26 anos, e seu primo Daniel Dias, 34 anos, e uma multidão de parceiros em toda a região | Crédito: Rafa Dotti

Mocambo nasceu para ficar como espaço da cerveja, da resistência e da democratização da população preta na Joaquim Nabuco, 46, Cidade Baixa. É um lugar que se dá ao respeito e exige respeito. Não aceita racismo e nem preconceito e está sempre aberto a quem quiser ir lá conhecer, provar suas variadas e artesanais cervejas, todas com sabores especiais, e tem dois sócios negros: Marcelo Pires, 26 anos, e seu primo Daniel Dias, 34 anos, e uma multidão de parceiros em toda a região. Uma empresa de caráter familiar.

É um lugar que se dá ao respeito e exige respeito. Não aceita racismo e nem preconceito e está sempre aberto a quem quiser ir lá conhecer | Foto: Rafa Dotti

O bar é cultural, diz Marcelo. Nasceu através da cerveja Implicantes, cujo símbolo é um gato preto, em 2018. Fabricavam a própria bebida com técnica e qualidade e muito estudo. Aí, veio a pandemia. Venderam a fábrica para a Quatro Árvores de Porto Alegre, Paralelo 30 de Eldorado e uma empresa de Campo Bom – a Cervejaria Brew Up, reconhecida por prêmios, incluindo ouro na Copa Gaúcha, com destaque para a Pilsen e Imperial Stout. “Estas cervejarias é que produzem para nós, têm nossas receitas, são terceirizadas e parceiras permanentes”, diz Marcelo.

Rótulos das cervejas homenageiam personalidades históricas de destaque da comunidade negra | Crédito: Rafa Dotti

“Quando fabricávamos homenageávamos, nos rótulos, personalidades históricas de destaque da comunidade negra, como a atriz Ruth de Souza, o craque de futebol Leônidas (que ficou conhecido como Diamante Negro), o advogado abolicionista Luiz Gama ou a primeira escritora romancista negra, Maria Firmina dos Reis, além de personagens da escravatura e de heróis africanos.

Na parede, um mural gigantesco da cantora Elza Soares (morta em 2022, com 91 anos), pintado com maestria pelo designer Gui Menezes de Canoas | Foto: Rafa Dotti

Depois do caos da covid-19, surgiu em 2023 o Mocambo e todo o seu simbolismo negro. Um mural gigantesco da cantora Elza Soares (morta em 2022, com 91 anos), pintado com maestria pelo designer Gui Menezes de Canoas. As placas da Rua Marielle Franco (vereadora do Rio, assassinada em 2018) e a expressão gravada em madeira “Respeito não se compra” são as mais visíveis. Imitações de cercas africanas bem definidas e a frase “Siga em frente, reconheça o seu passado”, formam o lado esquerdo de quem entra, além de latinhas de cerveja com destaques da comunidade negra.

O surgimento do nome

O nome Mocambo surgiu do simbolismo negro que significa: um local usado como refúgio para escravos fugidos | Crédito: Rafa Dotti

O nome definido do local foi Mocambo e surgiu do simbolismo negro que significa: um local usado como refúgio para escravos fugidos, construção rústica, ou senzala, localizada nas proximidades de uma lavoura. E foi decidido de um conjunto de conversas entre membros da comunidade.

“Esse projeto é um ato de liberdade e coragem. O Mocambo é um quilombo contemporâneo. Este quilombo é nosso espaço de resistência, cultura e luta por liberdade, onde preservamos ancestralidade, nossa vida familiar e o modo de vida coletivo”, garante Marcelo. “Aqui, somos felizes”, afirma, “mas enfrentamos sérias dificuldades com os órgãos municipais”.

Conforme conta Marcelo, para o Mocambo tudo é difícil, tudo excessivamente burocrático. É complicado obter, diria quase impossível, licença para eventos musicais com artistas locais na rua, prática recorrente em outros bares da região. É dificílimo também conseguir instalar um parklet (extensão temporária ou permanente das calçadas, instaladas em vagas de estacionamento para criar espaços públicos de lazer, convivência e paisagismo).

O Mocambo é um quilombo contemporâneo. Este quilombo é nosso espaço de resistência, cultura e luta por liberdade | Crédito: Rafa Dotti

O Mocambo até contratou um arquiteto, Gustavo Castro, conhecido por seus trabalhos sociais, como o Museu do Hip Hop. Foram investidos recursos na esperança de concluir o projeto até junho de 2024. “Não avançou até agora”, conta. O espaço seria oferecido gratuitamente para feiras de afro-empreendedores, para exposições sem custo para artistas venderem e divulgarem suas obras, um lugar para cursos e rodas de conversa e fomentar a arte da comunidade.

O Mocambo ainda espera pela liberação do Parklet, mas não está parado. Enquanto aguarda, realiza investimentos internos, iniciando o projeto de uma reforma para ampliar espaço para pessoas com mobilidade reduzida, tornar o ambiente mais acolhedor e acessível, adicionar local para exposição de artistas e venda de obras e implantação de isolamento acústico para eventos noturnos.

Enchente virou ação solidária

As placas da Rua Marielle Franco (vereadora do Rio, assassinada em 2018) e a expressão gravada em madeira “Respeito não se compra” adornam o espaço | Crédito: Rafa Dotti

O pedido do parklet foi feito em 2024, mas até agora não houve nenhuma resposta. O material está comprado e armazenado e nada da licença sair. Ele mostra os pedidos protocolados, sem resposta e sem qualquer perspectiva de sair. “Em análise, em análise, em análise”, diz, rindo. Mas ele lembra que a enchente de 2024, que chegou perto do Mocambo, mas não o atingiu, também afetou. “E depois não houve nem sinal de fumaça”, lembra. O pessoal do Mocambo, porém, transformou a enchente em limonada, em ação comunitária.

“Abrimos o Mocambo como ponto de coleta de alimentos e roupas para os atingidos da região e de outros pontos da cidade. Criamos também o quentão solidário – quem doava roupas e alimentos, bebia de graça. Participamos também do Passaporte Solidário em parceria com outros bares da Cidade Baixa, destinando lucros para apoiar os afetados. São coisas que a gente não esquece. Legal demais!”, recorda.

“O Mocambo vive lidando com barreiras desproporcionais, revelando ausência absoluta de políticas públicas que incentivem espaços culturais voltados para a comunidade negra. Essa realidade evidencia o descaso com iniciativas que promovam diversidade e representatividade na cena cultural de Porto Alegre e a enchente foi uma delas”, se queixa Marcelo. “Mas vamos em frente. Não esmorecemos.”

A negativa da prefeitura que mais desconsolou a turma do Mocambo foi o pedido para comemorar os cinco anos do surgimento da cerveja Implicantes (2023) na rua. Não houve explicação, nem conversa. Tudo ficou no vazio e a data ficou para depois e ainda nem começou.

Também houve um caso racial com a síndica de um prédio próximo. Ela implicou com o barulho em uma determinada noite, ofendeu o pessoal com palavras pesadas, virou confusão. “Recebemos solidariedade, registramos boletim de ocorrência na Polícia. Empacou na Justiça e está lá, sem perspectiva imediata de solução. Hoje, ela não incomoda mais”, afirma.

Público variado

O bar nasceu através da cerveja Implicantes, cujo símbolo é um gato preto, em 2018 | Crédito: Rafa Dotti

O local comporta 40 pessoas e ali acontece muita coisa. Música, declamações de poesias culturais, inclusive já foi feito uma sessão de poemas do Islã, festas, encontro de professores, principalmente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) para papos, pessoal LGTBQI+, gente na faixa de 25 a 40 anos. Não se gasta muito.

As cervejas mais vendidas são a Pilsen, Brown IPA e um “espaço de coração” para a Stout, com toda certeza. A Stout é um estilo de cerveja escura, de alta fermentação, originária do Reino Unido do século 18 como uma variação mais “forte” (Stout) das Porters. Caracteriza-se por notas intensas de café, chocolate e torrefação, provenientes do malte torrado, com corpo que varia de leve (Dry Stout) a muito denso (Imperial Stout).

“Nosso grande trunfo é a parceria com grande parte dos bares da Cidade Baixa. Aqui, trocamos, emprestamos, vivemos nos ajudando”, conta Marcelo Pires | Crédito: Rafa Dotti

“Nosso grande trunfo é a parceria com grande parte dos bares da Cidade Baixa. Aqui, trocamos, emprestamos, vivemos nos ajudando. Ninguém fica mal, todo mundo se dá a mão democraticamente. Estamos ajudando a construir coletivamente uma comunidade mais solidária e acessível”, conclui.

História: Mocambos também se tornaram metáforas de pertencimento e identidade – ser “cria de mocambo” é afirmar uma raiz histórica e cultural ligada à luta por dignidade. No campo das artes e da cultura, a noção de mocambo ressoa em práticas musicais, danças, rituais e religiosidades afro-brasileiras, reiterando que a favela, a periferia e o mocambo não são apenas espaços de carência, mas sobretudo territórios de produção de saberes, espiritualidades e potências criativas. Na contemporaneidade, pensar o mocambo é abrir espaço para compreender a favela como herdeira de trajetórias de resistência que remontam ao período colonial. É reconhecer que memória, cidadania e religiosidade se entrelaçam em territórios populares, atualizando permanentemente os modos de ser, viver e existir no mundo urbano.

Editado por: Katia Marko

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