SOBERANIA

Seminários em MG expõem riscos da corrida por terras raras no estado

Debates apontam impactos socioambientais, críticas ao PL 2780/2024 e defendem transição energética justa

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Seminário
O IF -Sul de Minas, em Poços de Caldas, em parceria com o Polo Agroecológico do Sul e Sudoeste de Minas, promoveu em 24 de abril o Seminário Regional “Mineração de Terras Raras, Território e Soberania no Sul de Minas Gerais” | Crédito: Reprodução/ IF SUL DE MINAS

Minas Gerais se tornou palco de um intenso debate sobre a exploração de terras raras, minerais considerados cruciais para a transição energética e tecnológica global. Seminários recentes em Poços de Caldas e Belo Horizonte, organizados pelo Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), sindicatos e instituições de ensino, revelaram as preocupações de especialistas, comunidades e trabalhadores com os impactos socioambientais e a perda de soberania que essa corrida mineral pode acarretar.

O Instituto Federal do Sul de Minas Gerais (IF -Sul de Minas), em Poços de Caldas, em parceria com o Polo Agroecológico do Sul e Sudoeste de Minas, promoveu em 24 de abril o Seminário Regional “Mineração de Terras Raras, Território e Soberania no Sul de Minas Gerais”. O evento buscou fomentar o debate sobre o modelo de mineração e seus impactos, especialmente na região do Planalto Vulcânico, onde megaprojetos de exploração são planejados a poucos metros de áreas urbanas, levantando alertas sobre riscos à saúde, à água e à vida das populações locais.

Paralelamente, em 22 de abril, o Centro Popular de Educação e Cultura Carolina Maria de Jesus (Cepec), em Belo Horizonte, sediou o seminário “Minerais Críticos e Poder Popular”. Este encontro, de iniciativa do MAM, reuniu sindicatos e vozes de territórios diretamente atingidos, como o Vale do Jequitinhonha e o Sul de Minas, para discutir a corrida mineral e a necessidade de uma transição energética justa e soberana.

“O que está por trás da centralidade do uso desses elementos de terras raras é a indústria bélica, a indústria da guerra”, afirmou, durante um dos seminários, Luiz Paulo Siqueira, coordenador nacional do MAM.  

A geopolítica dos minerais e o PL 2780/2024

A pauta das terras raras é considerada urgente por especialistas e está no centro de uma disputa no Congresso Nacional. Projetos de lei como o PL 2780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, avançam sob regime de urgência, propondo acelerar a exploração com incentivos fiscais e facilitação de licenciamento. 

No entanto, a integrante do MAM Esther Maria Guimarães, em artigo para o Brasil de Fato MG, critica essa “nova era do setor mineral” que, segundo ela, “repete a velha receita: produção massiva de crimes ambientais, violência contra trabalhadores e comunidades e fechamento à participação democrática”.

:: ARTIGO: Minerais críticos: seminário em BH debate caminhos para soberania popular e controle social :: 

Guimarães destaca que a tramitação do PL 2780/2024 em regime de urgência tem um “efeito silenciador sobre povos, comunidades e trabalhadores em um debate que concentra tensões e atenções do atual cenário geopolítico”. 

A pesquisadora aponta que a ausência dessas vozes no debate institucional e midiático representa “mais uma ferida à democracia brasileira, demonstrando como o setor mineral permanece entre os mais fechados ao controle social”. 

Discurso verde x realidade da exploração

Marcelo Barbosa, agrônomo e integrante do MAM, relatou no seminário em BH as contradições da mineradora de lítio canadense Sigma Lithium em Araçuaí (MG). Barbosa destacou “os profundos contrastes entre o discurso verde e inclusivo da empresa e a realidade de sua relação com o território”. 

:: Relembre: Pesquisadores denunciam violações da mineradora Sigma no Vale do Jequitinhonha (MG) :: 

Ele citou “enormes pilhas de rejeito em desacordo com normas de segurança ameaçam desabar sobre moradias; o acesso à água das populações ribeirinhas é controlado pela mineradora; faltam informações acessíveis sobre o empreendimento; e diversos conflitos comunitários foram ativamente provocados pela atuação da empresa”.

:: Leia também: Mineradora Sigma deve mais de R$ 3 milhões aos cofres de Araçuaí (MG), diz vereador :: 

Riscos em Poços de Caldas e a crítica aos ‘Minerais Críticos’

No Sul de Minas, a situação não é diferente. Nathalia Francisco, integrante do MAM e do movimento Terra Viva/Água Rara, participou do seminário propondo uma reflexão sobre os interesses que definem o que é considerado crítico. 

Ela alertou que “a separação das terras raras é um processo extremamente violento, que envolve risco radioativo, consome e contamina enormes quantidades de terra e água”. 

Francisco ressaltou que, no raio de 1 km dos projetos em Poços de Caldas, há “um hospital de referência regional, um instituto federal, creches, escolas e uma unidade habitacional a menos de 300 metros da cava”. 

Ela também destacou o consumo de cerca de 3 milhões de litros de água por dia previsto para a separação dos minerais e os riscos radioativos do processo natural de “lavagem” do solo. Diante disso, questiona o que é, de fato, mais crítico para as comunidades: a água e o território ou o mineral extraído.

A pesquisadora disse ainda que prefere o termo “minerais para eletrificação” em vez de “minerais críticos”.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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