sob investigação

Família aponta execução e cobra respostas sobre morte de jovem pela PM no interior de SP

Caio Mateus Justino, 21, foi morto em Tupã em julho do ano passado

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Caio foi morto pela PM na manhã de 18 de julho de 2025, em uma chácara na zona rural do município
Caio foi morto pela PM na manhã de 18 de julho de 2025, em uma chácara na zona rural do município | Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

Quem acessa o perfil do Instagram de Emanuelle Lima, de 19 anos, se depara com uma imagem que beira o impossível — ou o paranormal. A foto mostra Caio Mateus Justino, 21, abraçando a esposa e os filhos. O estranhamento não está no gesto de carinho, mas na presença de Caio, morto seis meses antes pela Polícia Militar de São Paulo (PMESP).

Emanuelle recorreu à inteligência artificial para satisfazer um desejo simples para a tecnologia, mas impossível para os humanos: que o marido estivesse na foto de família do aniversário do filho mais velho. Diante dos pequenos, que só conhecerão o pai por relatos saudosos, qualquer recurso imagético torna-se prova de existência. No retrato artificial, mas cheio de significado e afeto, ela faz o pai estar presente.

Caio foi morto na manhã de 18 de julho de 2025, em uma chácara na zona rural do município. Desde então, a família tenta entender o que aconteceu. Até hoje, eles não tiveram acesso sequer ao boletim de ocorrência, e a investigação segue sob segredo de Justiça.

O que se sabe é que há duas frentes no caso: um Inquérito Policial Militar (IPM), remetido ao Tribunal de Justiça Militar, e um inquérito comum, finalizado e encaminhado ao Judiciário.

Mãe contesta versão de confronto e fala em execução

A investigação que levou Caio ao sítio começou em 18 de maio de 2025, após uma operação da Polícia Militar em um imóvel apontado como ponto de venda de drogas no Parque Bela Vista, em Tupã. Três homens foram presos em flagrante, e a polícia apreendeu 306 gramas de drogas, além de balanças de precisão, embalagens e dinheiro. Na ocasião, Caio não era mencionado nos autos do processo aos quais a Ponte teve acesso.

O nome dele passou a integrar a investigação cerca de um mês depois, quando a proprietária do imóvel apresentou um contrato de locação, firmado em 2023, em nome do jovem. Com base nesse documento, a Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) concluiu que ele exerceria papel de liderança no tráfico. A Justiça decretou sua prisão preventiva em 23 de junho de 2025, e Caio passou a se esconder em um sítio da família.

Inicialmente, ele foi para o local com a companheira e os filhos. Um dia antes da ação policial, porém, pediu que a esposa voltasse para casa com as crianças, que tinham consultas médicas.

Quando a polícia chegou no dia seguinte, por volta das 7h, Caio estava sozinho. Após quatro disparos, o jovem foi levado à Santa Casa de Tupã, mas não resistiu. O laudo de necrópsia do Instituto Médico Legal (IML) aponta que ele foi atingido no pescoço, nas costas, na virilha e no umbigo.

Desde então, Mércia Gracieli de Souza, 45, mãe de Caio, contesta a versão apresentada à família: a de que ele teria resistido à prisão e, por isso, foi baleado e morto.

Para ela, a ação foi premeditada. Ela afirma que o entorno da chácara seria composto majoritariamente por familiares de policiais, e a casa vizinha ao sítio pertenceria à mãe de um dos agentes que participaram da operação. Acredita que houve uma denúncia indicando onde o filho estava.

Mércia também afirma que Caio estava dormindo quando a Polícia Militar acessou o imóvel naquela manhã, em razão do horário. Segundo ela, o que reforça a convicção de que o filho foi executado é o fato de ele ter recebido ameaças de um dos policiais que participaram da ação.

O relato foi levado ao Ministério Público de São Paulo (MPSP). Em depoimento, ela afirmou ao órgão que as ameaças haviam sido presenciadas por seus outros filhos e voltou a contestar a narrativa de confronto, reiterando que Caio estava desarmado e sozinho.

Até a publicação desta reportagem, os únicos documentos acessados pela família foram o laudo do IML, a certidão de óbito e a requisição de exame necroscópico. No pedido do procedimento, a Polícia Civil chega a afirmar que Caio “estava armado”, mas não efetuou disparos.

Diante das inconsistências, Mércia solicitou à Promotoria a análise de imagens de câmeras de segurança de uma residência vizinha, na tentativa de esclarecer a dinâmica da ação na chácara. Sem acesso aos autos do processo, nem ao boletim de ocorrência da morte, ela afirma não saber se as imagens foram localizadas.

“Eu preferia ele preso. Dez anos vendo ele numa cela do que um dia morto, como está”, lamenta.

Perícia indica disparos de cima para baixo

A Ponte teve acesso ao laudo de necrópsia, que aponta que Caio foi atingido por quatro disparos, sendo os três primeiros com trajetória de cima para baixo e o último com ângulo reto.

Um dos pontos trazidos no laudo é que o corpo chegou sem roupas ao hospital e foi submetido à necrópsia nessas condições. O perito que examinou o corpo de Caio estimou que os tiros ocorreram a uma distância superior a 60 centímetros, mas ressaltou que a análise é imprecisa, porque as roupas da vítima não foram entregues para exame.

A reportagem buscou o perito criminal Tiago Silva para analisar o documento e compreender a dinâmica dos disparos. Ele pontua que, mesmo sem as roupas, é pouco provável que os tiros tenham sido dados a curta distância, porque nenhum deles deixou elementos secundários, como “zona de tatuagem, zona de esfumaçamento ou zona de queimadura”.

Sobre o disparo no umbigo, explicou que “um atirador de joelhos conseguiria fazer um disparo perpendicular. Da mesma forma, a vítima também pode estar deitada no chão e o atirador efetuar o disparo”, para que a trajetória do tiro fosse reta.

Os tiros disparados de cima para baixo chamam atenção. Primeiro, porque indicam que a vítima estava deitada, abaixada ou em um nível inferior aos policiais. Outra hipótese, levantada por Tiago, seria a de que a vítima fosse muito mais baixa em comparação aos agentes. Caio tinha 1,75 m de altura.

Tiago sugere ser mais provável que “o primeiro tiro tenha ocorrido quando ele [Caio] estaria de costas e, então, ele vira”. Depois, com a movimentação dos policiais — que “nunca se cerca um indivíduo com todos disparando ao mesmo tempo, pelo risco de um acertar o outro” — os demais disparos teriam ocorrido em sequência.

De todo modo, ele reforça que a perícia na cena do crime é fundamental. No caso de Caio, ele foi socorrido, o que pode ter comprometido a preservação da dinâmica da cena.

Caso é alvo de investigação do Ministério Público

Após a morte do filho, Mércia buscou auxílio jurídico na Defensoria Pública de São Paulo (DPESP) e foi atendida pela Rede Apoia, que atende familiares de vítimas de violência letal do Estado.

Segundo Mércia, a Defensoria informou que o MPSP abriu uma investigação interna, com uso de técnicos e peritos próprios para avaliar o caso, após entender que as provas podem indicar execução ou excesso de legítima defesa.

Em nota enviada à reportagem, a DPESP informou que “o Ministério Público solicitou diligências próprias e ainda não tomou uma decisão sobre propositura ou não de ação penal”.

Procurado pela reportagem, o MPSP afirmou que o caso tramita sob segredo de Justiça e que não pode dar detalhes. Disse ainda que os elementos de prova serão analisados após a conclusão das diligências.

Família enfrenta entraves para acessar direitos

Mércia é categórica: sente dor como mãe, mas também como avó. Os filhos sentem a ausência do pai, que sempre foi muito próximo, conta.

Emanuelle, que do dia para a noite se tornou viúva e mãe solo de duas crianças, ainda não conseguiu dar entrada em nenhum tipo de benefício para suprir a perda de renda do marido. Desde que tudo aconteceu, tem crises de ansiedade e depressão, relata Mércia.

A filha menor de Caio, que nasceu 29 dias antes da morte do pai, permanece sem o nome dele no registro. Agora, a mãe precisará propor uma “ação de investigação de paternidade post mortem”, com realização de exame de DNA em parentes de Caio, a fim de pleitear a regularização do registro, explica a Defensoria.

sobre a pensão por morte concedida pelo INSS, a Defensoria ressaltou que Caio precisa preencher requisitos legais e que o “Estado somente poderia pagar pensão por morte a herdeiros após ação de responsabilidade civil julgada procedente”.

De burocracia em burocracia, a família aprende a lidar com a saudade e com a ausência de respostas.

O que dizem as autoridades

A reportagem procurou a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) e a PMESP para questionar as circunstâncias da morte de Caio.

Em nota, a PM informou que “em 18 de julho de 2025, após a ocorrência de Morte em Decorrência de Intervenção Policial, foram adotadas as medidas preliminares pela Polícia Judiciária Militar e instaurado Inquérito Policial Militar para a devida apuração dos fatos”. Além disso, “ao término, o IPM foi encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar”.

a SSP respondeu que “um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para apurar os fatos, sendo concluído e encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar (TJM)”. Além disso, que “paralelamente, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Tupã conduziu inquérito policial, finalizado em 26 de dezembro de 2025 e remetido ao Poder Judiciário”.

A secretaria, ainda, ressaltou que “a mãe da vítima compareceu diversas vezes à unidade, onde recebeu esclarecimentos” e que “a família teve acesso integral ao inquérito durante a oitiva formal”.

Nenhum dos dois informou que os policiais envolvidos na ocorrência foram afastados, ou comentou sobre as ameaças denunciadas pela família de Caio.

Editado por: Ponte Jornalismo
Conteúdo originalmente publicado em: Ponte Jornalismo

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