Editorial

Miremos Cuba

Revolução Cubana segue sendo uma das maiores reservas morais e políticas da humanidade

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Liberações foram mediadas pelo Vaticano
Cuba é um país que existe para muito além de suas fronteiras | Crédito: wirestock/Freepik

Cuba é um país que existe para muito além de suas fronteiras. Mesmo asfixiada por um bloqueio criminoso imposto há mais de seis décadas pelos Estados Unidos, a Revolução Cubana resiste. 

Resistir significou e significa enfrentar isolamento econômico, sabotagens permanentes, limites materiais e uma guerra simbólica contínua e violenta. Significa sustentar um projeto político-histórico, mesmo quando dói. Mesmo quando falta luz

Nos últimos dias, Havana voltou a se iluminar parcialmente graças à chegada de um navio russo com 100 mil toneladas de petróleo, rompendo o cerco econômico imposto à ilha. A imagem diz muito sobre o nosso tempo, porque Cuba é território concreto da disputa geopolítica contemporânea e da construção de alternativas.

Fidel Castro recordava constantemente uma frase de José Martí que atravessa gerações: “Patria es humanidad”. A pátria não se limita às fronteiras; se concretiza na solidariedade entre os povos do mundo. Não reduz o termo patriotismo a amar um país como abstração sentimental, mas a uma construção ética e política permanente. Uma escolha histórica. 

Mas é preciso cuidado para não romantizar essa resistência, nem transferir a um único povo o peso da esperança coletiva. O povo cubano também cansa. Também quer viver plenamente, ter estabilidade material, transporte, energia elétrica, condições dignas de desenvolvimento e futuro. Sem bloqueio. Sem sanções. E dentro do modelo socialista. 

Por isso Cuba provoca tanto desconforto aos que se julgam donos do mundo. Porque sua existência, profundamente humana e imperfeita, desmonta uma das grandes mentiras do nosso tempo: a de que não há alternativa possível ao individualismo extremo e à lógica de exploração capitalista permanente da vida humana e de redução das nossas subjetividades.

Batalha pelos sentidos

Vivemos sob um monopólio cada vez mais sofisticado da produção e significação de sentidos. As redes sociais venderam ao mundo a ilusão da democratização da informação, quando apenas ampliaram a velocidade da disputa narrativa e da fragmentação da consciência coletiva.

A pergunta central do nosso tempo talvez já não seja se as pessoas sabem o que acontece no mundo. Todos viram Gaza. Todos ouviram falar do bloqueio contra Cuba. A questão é outra: que significado damos aos acontecimentos?

Com repetição suficiente, naturaliza-se o injustificável. Naturaliza-se a ideia de que Israel apenas “se defende”. Naturaliza-se a ideia de que Cuba é bloqueada porque representa uma “ditadura” ou uma ameaça ao mundo. E isso é reproduzido diariamente pelas grandes corporações de mídia, sem qualquer constrangimento.

Disputar consciência é, antes de tudo, uma disputa de interpretação da realidade. Quando falamos em projeto histórico, em resistência que atravessa gerações e em formação política, não existe exemplo mais vivo. Não há transformação profunda sem permanência. Não há construção de soberania sem enfrentar contradições, revisões e enorme esforço coletivo. Como dizia Fidel: “Revolução é sentido do momento histórico; é mudar tudo o que deve ser mudado”.

O Brasil de Fato reafirma sua posição histórica de contribuir no que estiver ao seu alcance para essa tarefa. Denunciar os crimes do imperialismo, defender a integração latino-americana e dos países do Sul Global, e sustentar a comunicação como instrumento de luta e consciência.

Efeito Cuba

O efeito Cuba em nós é, antes de tudo, a necessidade permanente de recalibrar nosso espírito e sentidos diante de um mundo treinado para naturalizar a barbárie.

Há algo profundamente pedagógico na experiência cubana. Cuba nos lembra que solidariedade não é compartilhar aquilo que sobra, mas compartilhar inclusive aquilo que falta. E talvez por isso também nos confronte com nossa própria impotência. Queremos contribuir mais, e agora. 

Mas a dimensão histórica carregada pelo povo cubano exige de todos nós mais do que solidariedade pontual, que se torna extremamente importante. Exige compromisso político permanente. 

Sabendo disso, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra mantém campanhas permanentes de solidariedade e doação de medicamentos para Cuba. Assim como diversas outras organizações populares e iniciativas internacionais que compreendem que a defesa da ilha não pode se limitar ao discurso.

É obrigação dos povos do mundo defender a Revolução Cubana e denunciar o bloqueio criminoso imposto pelos Estados Unidos. É obrigação das nações manifestarem solidariedade concreta, material e política. Com insubordinação ao bloqueio e coragem. Por todos nós, porque cada derrota infligida a Cuba é também uma derrota contra qualquer ideia ou experiência socialista e soberana. 

Quando as esquerdas estiverem distantes do povo, excessivamente capturadas pelas dinâmicas institucionais ou incapazes de produzir horizonte histórico, será necessário voltar os olhos para Cuba. Não para copiar mecanicamente sua experiência, mas para reencontrar princípios, reconstruir pilares e recuperar a fé na capacidade de construção da nossa própria realidade.

Cuba não pode falhar, dizia um amigo cubano. Complemento: porque, quando um cai, caímos todos. E seria um sinal de que perdemos um pouco mais da nossa própria humanidade.

Editado por: Rafaella Coury

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