O preço dos alimentos é um termômetro diário que o brasileiro tem à disposição para perceber como anda a economia do país. De fatores climáticos a decisões sobre a política monetária, passando por guerras de impacto global, o que, afinal de contas, mais impacta o preço da cesta básica?
O estudo “A inflação dos alimentos no Brasil”, realizado pelo economista Valter Palmieri e pela ACT Promoção da Saúde, em parceria com a Cátedra Josué de Castro, traz dados interessantes, como a queda de 31% no poder de compra de frutas do brasileiro entre 2006 e 2026. Muitas dessas famílias, sem dinheiro para manter uma alimentação saudável, tornam-se consumidoras de ultraprocessados, impactando a segurança alimentar e nutricional do país.
O modelo agroexportador, que empurra para a margem o pequeno produtor e faz com que a concentração de mercado mantenha os preços altos, também foi um ponto identificado na pesquisa.
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, o autor do estudo Valter Palmieri explica que a inflação sobre alimentos no Brasil foi muito mais alta nas últimas duas décadas e subiu 62% acima da inflação geral. “É um problema estrutural da nossa economia. A inflação não pode ser considerada apenas por fatores pontuais. O preço do tomate subiu muito esse último mês, mas durante o ano vai cair. É uma sazonalidade e isso não é preocupante. O problema é quando o conjunto dos alimentos vai subindo de preço ao longo do tempo e não cai”, aponta.
Palmieri também explica que o Brasil é reconhecidamente um país agroexportador e isso, por si só, não é um problema. “O Brasil é o país que tem o maior saldo comercial de alimentos do mundo: quatro vezes maior esse saldo do que o segundo país”, pontua. “A questão é que a exportação é muito elevada. Nós exportamos 209 toneladas de alimentos.”
Esse cenário conflita com outro também estrutural, que é a desigualdade agrária histórica do país, segundo Palmieri. “Já existe uma desigualdade do acesso à terra, à tecnologia, ao financiamento, ao crédito. O grande produtor e o médio também foram produzindo cada vez mais commodities para exportar. E a quantidade de terras disponíveis no Brasil para produzir o alimento que a gente consome, arroz, feijão, as frutas, hortaliças, foi caindo. Olha só o número que eu decorei de tão alarmante: o Brasil hoje, de toda a área agrícola, 82% é para plantar soja, milho e cana-de-açúcar. É uma área, em milhões de hectares, que dobrou em duas décadas. É o tamanho da Alemanha só para produzir essas três commodities, que são as que a gente mais exporta”, afirma.
Para ouvir e assistir
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