VENEZUELA E GUIANA

Corte Internacional retoma audiências sobre disputa histórica entre Venezuela e Guiana sobre território de Essequibo

Venezuela questiona competência do tribunal e defende acordo de 1966; Guiana está de olho no petróleo da região

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Essequibo era parte da Venezuela desde sua independência em 1811 mas foi alvo de uma manobra internacional em 1899.
Essequibo era parte da Venezuela desde sua independência, mas foi alvo de uma manobra internacional | Crédito: Pedro Mattey/AFP

A Corte Internacional de Justiça (CIJ) iniciou, nesta segunda-feira (4), uma nova rodada de audiências sobre o território de Essequibo. A disputa envolve a Venezuela e a Guiana e essa nova fase em Haia deve durar uma semana. Representantes guianenses abriram os trabalhos afirmando que a questão tem “importância existencial” para o país por atingir mais de 70% de suas terras.

“Este caso tem importância existencial para a Guiana. Afeta mais de 70% do nosso território soberano”, declarou Hugh Hilton Todd, ministro das Relações Exteriores do país, no início da audiência.

“Para os guianenses, a própria ideia de nosso país ser desmembrado é uma verdadeira tragédia, porque seríamos privados da vasta maioria de nossas terras e de seus habitantes. […] A Guiana deixaria de ser Guiana sem eles”, agregou.

Na quarta-feira (6), será a vez do governo venezuelano apresentar seus argumentos. Caracas deve reafirmar seu entendimento de que o tribunal não tem autoridade para decidir sobre o tema, que foi levado à CIJ em 2018 unilateralmente por Georgetown. 

Para a Venezuela, o processo atual ignora o Acordo de Genebra de 1966, que prevê uma solução negociada e amistosa entre as partes. O país denuncia a interferência dos Estados Unidos e da petroleira ExxonMobil, que exploram as riquezas naturais da área de forma ilegal desde 2015.

O broche da discórdia

Um pequeno broche virou mais um motivo de discórdia entre os países que disputam o Essequibo. O acessório contém um mapa da Venezuela dourado com a região da Guiana Essequiba — como é chamada pelos venezuelanos — integrada ao território nacional e costuma ser usado cotidianamente por autoridades em sessões oficiais, sem que isso jamais tenha chamado a atenção. 

No entanto, às vésperas da retomada das audiências em Haia, o governo guianense passou a criticar o uso do broche pela presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. O presidente Irfaan Ali classificou o ato como uma provocação direta e disse que apresentaria uma queixa formal à Comunidade do Caribe.

Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, usando o broche que virou motivo de reclamação do governo guianense.
Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, usa o broche que virou motivo de reclamação do governo guianense | Crédito: Prensa Presidencial VE

Delcy Rodríguez respondeu aos questionamentos durante um ato político no estado de Carabobo. A presidenta afirmou que o acessório mostra o único mapa que ela conhece. 

“Vocês sabem que agora o presidente da Guiana anda com um escândalo porque eu uso sempre o broche com o mapa da Venezuela. Com o único mapa que conheci na minha vida. Agora os incomoda até como a pessoa se veste. E eu disse ao chanceler: ‘Bem, diga a ele se também vão vir queimar os livros de história’, porque os direitos da Venezuela sobre o Essequibo são históricos, são irrefutáveis.”

Entenda a controvérsia

A região do Essequibo fazia parte da Venezuela desde sua independência em 1811, mas foi alvo de uma manobra internacional em 1899. Naquele ano, o chamado Laudo Arbitral de Paris entregou o controle da área para a antiga Guiana Britânica sem a presença de nenhum representante venezuelano. 

Documentos revelados décadas depois mostram que houve um acordo político entre potências europeias para prejudicar a nação sul-americana. Em 1966, a própria Inglaterra reconheceu a existência da controvérsia ao assinar o Acordo de Genebra, pouco antes da independência da Guiana, que estabeleceu um marco regulatório para resolver o imbróglio sobre a fronteira de forma prática, pacífica e satisfatória para as partes. 

Uma das regras principais define que nenhum ato ou atividade realizado no território em disputa enquanto o acordo estiver em vigor servirá de base para afirmar ou negar a soberania sobre a região, o que teria sido violado pelo governo guianense ao conceder licenças para exploração de petróleo na região entre 2013 e 2019. O tratado afirmava ainda que, caso as partes não chegassem a um consenso, a decisão sobre o meio de solução seria levada ao secretário-geral das Nações Unidas. 

Para a Venezuela, o pacto de 1966 é o único instrumento válido para resolver o conflito e implica que a sentença arbitral de 1899 é nula. Já a Guiana sustenta que o tribunal internacional deve validar a fronteira definida no século 19, argumentando que o acordo serve apenas para analisar as contestações venezuelanas.

Editado por: Rafaella Coury

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