ARTIGO

20º Congresso do MNU, sob o legado de Lélia Gonzalez, reafirma a luta por reparação histórica

Encontro será realizado entre os dias 15 e 17 de maio de 2026, em Brasília

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Lélia Gonzalez
Lélia Gonzalez | Crédito: Cézar Loureiro

O Movimento Negro Unificado (MNU) é uma organização histórica do povo negro, fundada em 1978, que nasce para defender a comunidade negra contra a secular exploração racial e o desrespeito humano a que é submetida. Em 2026, o MNU completa 48 anos de luta contra o racismo e em defesa da vida, atuando de forma decisiva nos processos de mobilização, articulação e organização política do povo negro. Ao longo dessa trajetória, afirma-se como uma organização política de referência no Brasil, com projeção internacional, dedicada à defesa dos direitos do povo negro e comprometida com a construção de uma sociedade antirracista, antissexista, anticapitalista e contrária a todas as formas de opressão e exploração.

É nesse acúmulo histórico de lutas que se afirma o 20º Congresso Nacional do MNU, a ser realizado entre os dias 15 e 17 de maio de 2026, em Brasília, sob o nome de Lélia Gonzalez – “Contra o Racismo, o Sexismo e por Reparações”. Mais do que um espaço de encontro, o Congresso se projeta como instrumento de reorganização política do movimento, convocado a atualizar e radicalizar a tradição de resistência do povo negro frente às permanências do racismo estrutural. Nesse sentido, a construção do Plano de Ação do MNU se coloca como tarefa estratégica, orientada pelo eixo “Reparação Histórica: da Violência Racista à Justiça – Caminhos para a Liberdade do Povo Negro”, que estrutura os debates em torno de dimensões centrais da luta antirracista: a reparação histórica como direito, articulando memória, verdade e desenvolvimento do povo negro; o enfrentamento ao genocídio, à violência policial e à necropolítica; as violências racializadas de gênero, que incidem sobre o corpo negro, a saúde e o bem viver; a defesa dos territórios negros, no campo e na cidade, e do direito à vida; a luta por trabalho decente, economia e justiça racial; e, por fim, a afirmação da justiça climática e da defesa do meio ambiente como agendas inseparáveis da emancipação do povo negro.

Os eixos de debate emergem dos diversos espaços formativos do movimento e de um processo contínuo de reflexão coletiva, construído em torno dos desafios conjunturais enfrentados pela população negra e da necessidade de avançar na luta por justiça racial. Para analisar a conjuntura política e realizar o balanço organizativo do movimento, construímos um processo coletivo inspirado na perspectiva amefricana de Lélia Gonzalez, uma das maiores intelectuais orgânicas do MNU.

Inspiramo-nos em Lélia Gonzalez para denunciar a violência política de gênero que atinge as mulheres negras quando ocupam espaços estratégicos de decisão e direção. Retomamos seus escritos como chave de interpretação da realidade brasileira, compreendendo que racismo e sexismo são estruturantes das relações sociais no país. É com Lélia Gonzalez que reafirmamos nosso compromisso com a construção de uma organização política profundamente engajada na formulação de um Projeto do Povo Negro para o Brasil.

O 20º Congresso Nacional do MNU se realiza em um contexto marcado pelo aprofundamento das desigualdades sociais, pela permanência do racismo estrutural e pela intensificação das múltiplas formas de violência contra o povo negro. Estamos diante da atualização de antigas engrenagens de exclusão, agora combinadas com novas disputas políticas e econômicas que tensionam os limites da democracia. A violência racial, o encarceramento em massa, o genocídio da juventude negra e a criminalização dos territórios racializados seguem como expressões concretas de um projeto de país que nega direitos e desumaniza o povo negro. Nesse cenário, a luta por reparação histórica afirma-se não apenas como reconhecimento das violências cometidas, mas como condição indispensável para a construção de um presente com justiça racial.

Os espaços preparatórios realizados em todo o país têm sido fundamentais para fortalecer a unidade do movimento, aprofundar a análise da conjuntura e refletir sobre o papel do MNU na correlação de forças em nível nacional e internacional. Compreender o tempo histórico que vivemos, bem como os desafios políticos e organizativos colocados, é essencial para uma atuação enraizada nos territórios e comprometida com uma política de alianças orientada pelo bem-viver do povo negro.

O Congresso também vem possibilitando à militância refletir sobre a atualidade do pensamento político e organizativo de Lélia Gonzalez como uma das maiores intérpretes da realidade brasileira. Ao enfrentar os desafios do presente, criamos condições para dar continuidade às razões do protesto negro e aprofundar os significados do Projeto Político do Povo Negro para o Brasil.

Esses debates têm fortalecido a construção de análises coletivas e ampliado a unidade da militância em torno do projeto político do MNU. Isso é possível porque carregamos em nós a rebeldia negra e a desobediência política frente a todas as tentativas de deslegitimação de nossa atuação. Nossos passos vêm de longe. Nossas trajetórias de aprendizado e organização são múltiplas. Carregamos forças ancestrais que alimentam nossa razão negra no mundo e sustentam nossa defesa intransigente da vida do povo negro.

Entre os muitos debates realizados no MNU, afirma-se a necessidade de fortalecer a atuação do movimento em todos os estados, tendo como objetivo central a organização das cidades por meio da criação e consolidação de núcleos do MNU. Assim, seguimos tecendo uma rede capaz de se expandir, se multiplicar e nos fortalecer coletivamente, com a convicção de que será sempre necessário reagir à violência racial, até que não haja espaço para manifestações de ódio contra o povo negro. Para isso, continuaremos investindo na formação da militância e no fortalecimento das lutas em defesa dos direitos da população negra, diante das múltiplas expressões da violência racial.

O MNU é uma referência histórica no Brasil e na diáspora africana, e é nosso dever cuidar desse legado político e de seus múltiplos significados de resistência e conquista para o povo negro. É por essas razões e pela intencionalidade política e organizativa que nos move que a reflexão sobre reparação histórica e o enfrentamento às desigualdades raciais ganham centralidade no Programa de Ação do movimento, orientando nossas estratégias e contribuindo para a construção de cidades antirracistas. O debate e o compromisso com a organização do nosso povo seguem como nossa principal referência. Permanecemos atentos às palavras-flecha de Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Luiza Bairros, Luiz Alberto e de tantas outras e outros que seguem sendo inspiração viva para nossas lutas e sonhos.

Diante desse cenário, o 20º Congresso Nacional do Movimento Negro Unificado não é apenas um espaço de reflexão, mas um chamado à ação coletiva. É tempo de fortalecer nossas bases, ampliar nossa capacidade de organização e incidir de forma mais contundente na realidade política do país. A luta por reparação histórica, justiça racial e pelo bem viver do povo negro exige compromisso, unidade e radicalidade.

Seguiremos em marcha, afirmando a memória histórica das lutas de ontem e de hoje em defesa da vida. Nossa resposta não será o silêncio, mas a organização e a luta permanente contra o racismo, como força que transforma o Brasil e projeta, a partir de nós, um novo horizonte de sociedade. É com essa convicção que avançamos: fazendo da indignação um instrumento de luta, da memória um campo de disputa e da resistência um projeto de liberdade. Porque carregamos na voz e na prática a certeza de ser Movimento Negro Unificado e, com ele, toda a força das lutas que nos trouxeram até aqui.

* Iêda Leal é professora e sindicalista, com trajetória marcada pela atuação em defesa da educação pública. Ex-coordenadora Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), é referência na luta antirracista e na organização política do povo negro no Brasil.

* Nonato Nascimento é professor e educador popular. Militante do Movimento Negro Unificado (MNU), integra o Setor Nacional de Igualdade Étnico-Racial do Movimento Brasil Popular.

Editado por: Thaís Ferraz

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