O governo e a direção da Confederação Sindical de Motoristas da Bolívia mantêm nesta quarta-feira (6) uma mesa de diálogo na Casa Grande do Povo, em La Paz, com o objetivo de analisar a pauta de reivindicações do setor de transporte e buscar uma solução para o conflito envolvendo combustível, estradas e compensações econômicas.
Desde as primeiras horas da manhã, representantes das 11 federações de motoristas do país participam das conversas com autoridades do Executivo, em uma tentativa de destravar uma semana marcada por paralisações, bloqueios e protestos em diferentes regiões.
Segundo o ministro de Obras Públicas, Mauricio Zamora, a administração do presidente Rodrigo Paz mantém disposição aberta para negociar e resolver as demandas por meio de coordenação institucional.
Zamora afirmou que o objetivo central do encontro é revisar cada uma das reivindicações do setor de transporte e alcançar soluções que não prejudiquem a população, ao mesmo tempo em que declarou que as dificuldades relacionadas ao abastecimento de combustíveis já teriam sido superadas. Nesse contexto, insistiu na necessidade de conduzir o processo de negociação sem pressões.
No entanto, o ministro de Obras Públicas deixou de mencionar que os sindicatos de motoristas vêm há meses exigindo do governo a abertura de negociações efetivas, assim como compensações pelos danos atribuídos ao uso da chamada “gasolina basura” (“gasolina ruim”).
Líderes do setor afirmam que, apesar de acordos alcançados nos últimos dois meses, o Executivo não cumpriu os compromissos assumidos, enquanto a ausência de explicações claras por parte das autoridades intensificou as críticas sobre a qualidade do combustível vendido no país.
Mais de três meses após o início do problema, os transportadores denunciam que esse combustível continua sendo importado e distribuído, prolongando a preocupação com seus efeitos sobre os motores e os custos de reparo.
Por sua vez, o dirigente Lucio Gómez confirmou a presença de delegados de todo o país e destacou a importância de que o diálogo traga respostas concretas às preocupações do setor.
Apesar da instalação de mesas de negociação, o país ainda enfrenta sérias interrupções em sua rede viária. Até as 9h desta quarta-feira, o mapa de transitabilidade registrava 24 pontos de bloqueio distribuídos entre os departamentos de La Paz, Santa Cruz e Beni.
La Paz e Santa Cruz concentravam, nesse horário, nove bloqueios cada uma. No primeiro caso, várias rotas estratégicas permanecem interrompidas, incluindo conexões com os Yungas, Oruro e a fronteira com o Peru. Em Santa Cruz, as restrições afetam o acesso à capital departamental, enquanto Beni soma seis pontos de protesto.
Embora as medidas de pressão tenham diminuído em relação à terça-feira (5) — quando, durante a paralisação nacional de 24 horas, foram contabilizados mais de 60 bloqueios —, os motoristas mantêm ações nas estradas para exigir garantias sobre o fornecimento de gasolina importada, o fim da “gasolina ruim” e compensações por danos mecânicos atribuídos à baixa qualidade do combustível.
Por outro lado, a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (Csutcb) confirmou o início de um bloqueio nacional de estradas a partir desta quarta-feira como medida de pressão contra a Lei 1720, conforme instrução divulgada entre suas organizações de base.
Com essa decisão, a principal organização camponesa do país reafirmou seu apoio à mobilização protagonizada por centenas de indígenas e camponeses provenientes de Pando e Beni, que na última segunda-feira (4) chegaram à Casa Grande do Povo após 28 dias de marcha para exigir a revogação dessa norma.
Os manifestantes rejeitam a Lei 1720 porque ela permite transformar pequenas propriedades produtivas em áreas de categoria média, possibilitando também sua eventual hipoteca — uma medida que consideram prejudicial às comunidades rurais e favorável a setores ligados ao poder agroindustrial.
Diversas organizações críticas afirmam que a legislação beneficia principalmente grupos econômicos ligados ao agronegócio e pode facilitar uma maior concentração de terras, ampliando o latifúndio em detrimento de camponeses e povos indígenas.
O grupo mobilizado desde Beni e Pando entrou em La Paz após percorrer mais de 100 quilômetros desde as terras baixas até o altiplano, em um protesto contínuo para exigir seus direitos, já que a lei representa uma ameaça direta a seus territórios e direitos históricos.
Durante o trajeto, autoridades governamentais, incluindo ministros e vice-ministros, tentaram ao menos três vezes interromper a marcha por meio de propostas de diálogo e possíveis acordos. No entanto, os líderes camponeses e indígenas rejeitaram essas iniciativas e reiteraram que não encerrarão suas mobilizações até alcançar a revogação total da Lei 1720, por considerarem que sua aprovação ocorreu sem levar em conta os setores afetados.
