IMPRENSA

Cláudia Coutinho será a primeira mulher a presidir a ARI em 90 anos

Futura presidente da entidade defende liberdade de imprensa, combate às fake news e equidade de gênero

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Atual vice-presidente da ARI, jornalista fala sobre democracia, violência de gênero e os desafios da profissão
Atual vice-presidente da ARI, jornalista fala sobre democracia, violência de gênero e os desafios da profissão | Crédito: Divulgação/ARI

Embora as eleições para a nova direção da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) estejam marcadas para 25 de junho, o conselho deliberativo da entidade definiu, no último domingo (4), o nome da jornalista Cláudia Coutinho como futura presidente da entidade. Ela será a primeira mulher a presidir a ARI em 90 anos de história.

Nascida em Porto Alegre (RS), Coutinho é formada em Jornalismo pela Famecos/PUCRS (1981). Possui especialização em Marketing pela PUCRS, MBA em Gestão, Marketing e Direito no Esporte (FGV/Fifa/Cies) e especialização em Book Publishing pela Casa Educação. Atuou no jornal Zero Hora e na revista Amanhã, além de trabalhar com comunicação e marketing esportivo, comunicação corporativa e comunicação pública. Desde 2018, é sócia-diretora da Capítulo 1 – Conteúdo e Design Editoriais, onde atua como editora de conteúdo.

Atualmente, Coutinho ocupa a vice-presidência da ARI, no segundo mandato de José Nunes, que indicou o nome da jornalista ao conselho deliberativo. A indicação foi aprovada por unanimidade.

Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato RS, Coutinho revela seus projetos para a entidade. Para ela, o papel da mulher na direção da entidade é extremamente importante. “Quando abordamos assuntos como maternidade, saúde das mulheres, cuidados com nossos filhos e pais, sexualidade feminina, etarismo contra a mulher, entre outros, é importante trabalhar com a perspectiva de quem vive isso”, afirmou.

Veja a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato RS – Como te sentes ao ser a primeira mulher indicada à presidência da ARI em 90 anos de história da entidade?

Cláudia Coutinho – Esta indicação representa um voto de confiança de todas e todos os colegas da ARI pela minha atuação na diretoria executiva da entidade nestes últimos seis anos. É também um reconhecimento ao trabalho que realizo no jornalismo há 44 anos.

O fato de ser a primeira mulher indicada à presidência da ARI aumenta a minha responsabilidade e os desafios a serem enfrentados. Estarei representando todas as jornalistas que vieram antes de mim – e abriram as portas para profissionais de diferentes gerações –, as que trabalharam e trabalham comigo e as que virão.

Pretendes continuar a luta pelo diploma, a liberdade de imprensa e contra a violência praticada aos jornalistas?

As bandeiras defendidas pela Associação Riograndense de Imprensa continuarão na pauta. A ARI, historicamente, defendeu a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, o Estado democrático de direito e o jornalismo profissional, portanto ético e qualificado. São pautas trabalhadas constantemente e que também tratam da violência praticada contra jornalistas.

Recentemente, a Repórteres Sem Fronteiras divulgou um levantamento anual sobre a liberdade do exercício do jornalismo em todo o mundo, mostrando um cenário preocupante: 52,5% dos países estão em situação “difícil” ou “muito grave”. De acordo com a instituição, é o índice mais baixo em 25 anos do levantamento.

Vais tomar uma posição em defesa do empoderamento feminino frente ao poder masculino ainda predominante?

A minha trajetória pessoal e profissional sempre foi marcada pela busca da equidade de gênero, a fim de conquistar as mesmas oportunidades e formas de tratamento para mulheres e homens, o que implica também na luta por remuneração justa. As lutas das mulheres para que sejam valorizadas são uma constante. Muitas conquistas já foram alcançadas, mas ainda há muito por fazer.

Sabemos que atualmente as mulheres representam um percentual significativo nas redações, mas essa participação se reduz quando se trata de cargos de liderança e poder de decisão. Comecei minha carreira no início dos anos 1980 na editoria de esportes do jornal Zero Hora, quando ainda éramos poucas as mulheres a atuar nesse setor, na época muito masculino e machista.

Lembro também que, em 1991, quando fui correspondente de Zero Hora na cobertura dos Jogos Pan-Americanos de Havana, em Cuba, era a única mulher credenciada entre todos os jornalistas presentes. Lá se vão 35 anos — parece muito tempo, mas, em uma perspectiva histórica, não é tanto assim.

Qual será a sua posição frente à Inteligência Artificial e ao mercado de trabalho?

O uso da Inteligência Artificial é uma realidade que não podemos ignorar ou ainda ficar questionando como fazer. Essas etapas já ficaram para trás. Como toda a nova ferramenta tecnológica, a IA precisa ser entendida e utilizada de maneira a facilitar o nosso trabalho. E facilitar não significa substituir, para deixar bem claro.

Por isso, o debate sobre o seu uso, seus benefícios e suas armadilhas vem sendo realizado na ARI e continuará presente. Este é um dos temas importantes para a valorização do jornalismo, de seus profissionais e dos veículos de comunicação.

Continuará o combate às fake news?

Certamente. Tanto que a ARI lançou recentemente mais uma campanha, a terceira em sua história recente, no combate às fake news. É uma campanha institucional realizada conjuntamente com a Associação Catarinense de Imprensa e a Associação Paranaense de Imprensa — ação conjunta considerada histórica — e criada pela agência Moove, parceira da ARI também em outros momentos.

A ideia é mostrar que, diante de informações que beiram o absurdo, quem recebe a mensagem precisa desconfiar do conteúdo e buscar fontes criteriosas antes de repassá-lo adiante. Foram desenvolvidas peças que destacam a importância do ato de duvidar e da visão crítica.

Estamos em contagem regressiva para o início oficial das campanhas eleitorais, e será fundamental alertar a população sobre os estragos que as fake news podem causar. Vale lembrar que a educação midiática e digital também é um tema que vem sendo debatido e precisa ser cada vez mais disseminado.

Promoverás debate sobre a postura dos jornalistas frente à realidade política, como a defesa da democracia?

A Associação Riograndense de Imprensa é uma entidade apartidária e que sempre se posicionou em defesa da democracia e assim continuará. Tanto que faz parte da história recente da ARI a realização de painéis com os candidatos a cargos majoritários no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre, de todos os partidos, possibilitando uma visão ampla dos posicionamentos ideológicos e dos programas propostos para o futuro governo em questão.

Como vês o papel das mulheres na imprensa na atualidade?

O papel da mulher na imprensa é extremamente importante porque somos nós que trazemos para as pautas, reportagens e edições a visão feminina e o cotidiano enfrentado pelas mulheres nos diferentes papéis que exercem.

Quando abordamos assuntos como maternidade, saúde das mulheres, cuidados com nossos filhos e pais, sexualidade feminina e etarismo contra a mulher, entre outros, é importante trabalhar com a perspectiva de quem vive isso. Quando a pauta é elaborada e desenvolvida a partir de diferentes visões, ganham todas e todos.

Fale sobre a violência contra a mulher no Rio Grande do Sul. O grande número de feminicídios reflete alguma outra postura?

O número crescente de casos de violência contra a mulher e de feminicídios é assustador. Não por acaso, a Associação Riograndense de Imprensa, atenta a pautas importantes para a sociedade, lançou em 7 de março deste ano, véspera do Dia Internacional da Mulher, uma campanha contra o feminicídio.

É uma campanha institucional criada pela agência Moove, que tem como mote “Isso não é amor”. As peças mostram que ninguém pode ignorar ou naturalizar sinais de alerta, como qualquer tipo de violência, possessividade ou controle, e reforçam a necessidade de denunciar esses atos para interromper esse ciclo e impedir o pior. A campanha afirma que nós, jornalistas, não queremos dar a última notícia sobre o feminicídio.

Ao mesmo tempo, no dia do lançamento da campanha, realizamos um debate na ARI para refletir sobre o papel da imprensa em casos como esses e avaliar como as notícias são narradas. Muitas vezes, a voz passiva ainda é utilizada, ocultando o sujeito responsável pela violência ou pelo assassinato.

Esse grande número de tentativas de feminicídio e de feminicídios precisa ser noticiado para que a sociedade se mobilize e cobre dos governos, em suas diferentes esferas, políticas públicas que efetivamente protejam as mulheres e possibilitem que elas, ao lado de suas famílias, conquistem os espaços que desejam e merecem.

Editado por: Marcelo Ferreira

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