O vai e vem dos ônibus em Montes Claros ganha novos significados no documentário dirigido por Grazi Ladeira. A produção acompanha o cotidiano de mulheres trabalhadoras a partir da linha 5801, que conecta bairros periféricos a regiões de classe média alta, e transforma o trajeto diário em um espaço de memória e reflexão.
Ao longo do filme, estudantes, empregadas domésticas, cozinheiras, artistas e empreendedoras compartilham histórias que se entrelaçam no interior do transporte público. O ônibus deixa de ser apenas um meio de locomoção e passa a funcionar como fio condutor de experiências que revelam as múltiplas dimensões da vida dessas mulheres, segundo a descrição fornecida pela diretora. Esses trajetos são marcados por jornadas extensas, responsabilidades acumuladas e sonhos que resistem ao cansaço.
Profissionais diversas, em comum, elas expõem não apenas as rotinas de trabalho, mas também os desafios estruturais enfrentados diariamente, como a precariedade do transporte, a superlotação e a insegurança.
O documentário chama atenção para as contradições urbanas evidenciadas ao longo do trajeto, como pontos de ônibus localizados em áreas elitizadas com pouco acesso real ao público, territórios marcados por desigualdades e a ausência masculina predominante nos coletivos, sinalizando a presença numérica de mulheres em determinados setores do trabalho e do deslocamento urbano.
Uma das questões centrais levantadas pela obra é direta: quem protege as mulheres que cuidam de tudo? A pergunta, feita por Grazi Ladeira a partir da observação, é respondida com relatos sobre medo, autocuidado e estratégias de sobrevivência. No filme, cuidar de si deixa de ser um luxo e passa a ser uma necessidade básica, muitas vezes difícil de ser alcançada.
A narrativa também destaca a continuidade invisível do trabalho feminino. Após longas jornadas, a vida doméstica e o cuidado com os outros ainda aguardam essas mulheres.
“Depois de um dia de labuta, a vida continua”, sintetiza uma das falas presentes no documentário, que reforça a sobrecarga histórica atribuída às mulheres. “Mulher norte-mineira é forjada na poeira e no sol quente”, conclui.
A trilha sonora assinada por Edssada contribui para a atmosfera sensível da obra, que foi realizada com apoio da Prefeitura de Montes Claros, por meio da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.
