INTERVENÇÃO

GDF concentra poder na UnDF com decretos e amplia controle da gestão em meio à greve

Medidas transferem estrutura ao Executivo e geram críticas sobre autonomia da universidade

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Greve de docentes e estudantes se aproxima de dois meses enquanto comunidade acadêmica cobra diálogo, permanência estudantil e revisão de contratos.
Greve de docentes e estudantes se aproxima de dois meses enquanto comunidade acadêmica cobra diálogo, permanência estudantil e revisão de contratos. | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

O Governo do Distrito Federal (GDF) publicou, nesta segunda-feira (4), um decreto que retira o cargo de vice-reitoria da Universidade do Distrito Federal Professor Jorge Amaury Maia Nunes (UnDF) e transfere a estrutura administrativa da instituição para o gabinete da governadora Celina Leão (PP). 

Já nesta quarta-feira (6), um novo decreto aprofundou as mudanças ao redistribuir cargos ligados à universidade para o Banco de Cargos e para órgãos centrais do Executivo, como a Secretaria de Governo. As medidas ampliam o controle do governo sobre a UnDF e fazem parte de uma reestruturação mais ampla, com possível impacto sobre a autonomia administrativa da instituição. 

A decisão ocorre em meio à greve de professores e estudantes, que já dura quase dois meses. No último dia 28 de abril, em meio à escalada da crise, a governadora exonerou a então reitora Simone Pereira Costa Benck e nomeou Fernanda Massaro dos Santos para o cargo.

O presidente do Sindicato dos Docentes (SindUnDF), Louis Blanchet, afirma que a nomeação de uma reitoria temporária foi uma tentativa de conter a crise. Segundo ele, a nova reitora terá mandato até julho e deve organizar a estrutura acadêmica e conduzir eleições internas.

“A nova reitora será pro tempore, com mandato limitado ao fim de julho, e com a tarefa de instituir os Conselhos Universitários com 70% dos docentes da carreira, nomeando-os para cargos de gestão acadêmica, como coordenações, diretorias e pró-reitorias, que antes eram ocupados por comissionados ligados à antiga reitoria, além de realizar as eleições para a primeira reitoria”, analisou.

Impasse continua

Além da reorganização institucional, a greve envolve reivindicações de carreira e orçamento. Entre os pontos estão reajustes salariais e a revisão do contrato de aluguel de um prédio em Ceilândia, estimado em R$ 110 milhões.

“Ela também terá a tarefa de encaminhar as demandas de carreira: inclusão do aumento na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 e envio das mudanças na carreira sem impacto orçamentário. Outro compromisso da governadora e pauta da greve é a revisão do aluguel do Centro Universitário e Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). A nova reitora também está encarregada disso”, disse Blanchet.

Estudantes também cobram diálogo e políticas de permanência, como auxílio-transporte e restaurante universitário. A presidente do Diretório Central Acadêmico (DCA), Bárbara Oliveira afirma que, apesar de maior abertura ao diálogo por parte da nova reitora, não houve avanço em pontos centrais da greve, como o cancelamento do contrato com o Iesb.

“A nova reitora se mostrou mais acessível que a anterior, mas não abriu mão do contrato. Ela disse que, se a gente voltasse da greve, os estudantes da Samambaia só teriam o IESB como opção de campus, sem alternativa”, relatou.

Segundo a representante, a falta de solução mantém o movimento de greve. “A gente continua em greve porque entende que é necessário cancelar esse contrato. Vamos acionar as secretarias, porque o GDF está revendo vários contratos e não entendemos por que esse ainda não foi cancelado”, afirmou.

Bárbara também destacou os impactos na estrutura acadêmica. “Alguns campus foram descontinuados e estudantes foram remanejados. A gente precisa garantir que os alunos tenham um espaço adequado para retomar as atividades”, completou.

A crise envolve ainda questionamentos sobre os recursos da universidade. O Tribunal de Contas do Distrito Federal investiga a retenção de R$ 219 milhões que deveriam ter sido destinados à UnDF.

Outro lado

Em nota oficial ao Brasil de Fato DF, a UnDF informou que o decreto publicado em 30 de abril de 2026 no Diário Oficial do Distrito Federal foi uma ação realizada por “necessidade da administração pública”.

A instituição afirmou ainda que analisa o contrato citado para avaliar eventuais medidas de revisão, considerando as adequações do espaço e as diretrizes governamentais. A universidade também declarou que a atual gestão manterá diálogo contínuo com docentes e discentes para construir soluções que garantam a continuidade das atividades acadêmicas.

Segundo a nota, na tarde desta terça-feira (5), a reitoria se reuniu com representantes do Diretório Central Acadêmico (DCA) e com docentes da carreira do magistério superior para discutir encaminhamentos e alinhar tratativas. A UnDF informou ainda que lançará uma consulta pública para levantar a percepção da comunidade acadêmica sobre a crise.


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Editado por: Flavia Quirino

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