Moradores realizaram, na tarde desta quarta-feira (06), uma mobilização no bairro Colinas do Sul, em João Pessoa, para cobrar a retomada das obras da Unidade de Saúde da Família (USF) Mudança de Vida. O ato teve início por volta das 14h, partindo da Ecopraça em direção à unidade, reunindo dezenas de participantes que denunciaram a paralisação da reforma e as condições precárias de funcionamento do serviço.
De acordo com os organizadores, a unidade passa por um processo de sucateamento agravado pela interrupção das obras iniciadas em 2025. Além disso, conselhos profissionais, como o Conselho Regional de Medicina (CRM), já teriam imposto restrições ao exercício das atividades médicas no local, em função da insalubridade.
Comunidade denuncia condições precárias
O coordenador-geral da Ecopraça Associação, Nivaldo Pires, afirmou que o objetivo da mobilização foi pressionar o poder público a concluir a obra e garantir condições dignas de atendimento. Segundo ele, a situação enfrentada por trabalhadores e usuários é insustentável.
“Eu estou aqui, enquanto coordenador e parte da luta popular, para denunciar que a unidade está funcionando em condições completamente inviáveis. Hoje, uma única sala está sendo usada por quatro médicos, e falta o básico, como luvas, seringas e até equipamentos essenciais. A gente não pode aceitar que dentro do nosso território isso seja naturalizado. Essa mobilização é justamente para provocar o poder público e exigir a conclusão do posto de saúde Mudança de Vida”, comenta ele.
Ainda segundo Pires, a articulação envolveu agentes ambientais e mulheres da comunidade do Gervásio Maia, reforçando o caráter coletivo da ação.
Usuários relatam falta de estrutura e respeito
Moradora do bairro, Jaqueline Santos destacou a precariedade da unidade e os impactos específicos sobre as mulheres. Ela relatou situações que, segundo sua avaliação, comprometem a dignidade da mulher no atendimento.

“Eu estou aqui porque falta qualidade na saúde para a gente, principalmente para nós, mulheres. A sala de citológico, por exemplo, não oferece privacidade, e eu me sinto invadida. Falta respeito, falta atenção. O posto está todo quebrado, sujo, cheio de mato, abandonado. Os médicos não têm condição de trabalhar, e ainda assim estavam tirando dinheiro do próprio bolso para comprar material básico. Isso não é justo”, destaca ela.
Ela também comentou sobre a mobilização, destacando o crescimento da participação popular ao longo do ato. “A gente começou com um grupo pequeno, mas as pessoas foram saindo de casa e se juntando à gente. Isso mostra que a comunidade está cansada e quer mudança. Essa luta é um direito nosso, e a gente vai continuar.”

Impacto da paralisação
Vitor Marinho, residente do segundo ano do Programa de Saúde da Família e Comunidade, explicou que a reforma da unidade foi iniciada em outubro de 2025 e interrompida em janeiro de 2026, sem justificativa oficial.
“Eu cheguei na unidade em março de 2025, e em outubro começaram as obras. Desde então, a estrutura foi reduzida pela metade, mas continuamos com as mesmas equipes. Em janeiro de 2026, a reforma simplesmente parou, e seguimos trabalhando em um canteiro de obras. Não houve nenhuma explicação para isso, nem para os profissionais nem para a comunidade”, explica Marinho.

Ele também relacionou as condições estruturais ao adoecimento da população e dos trabalhadores.
“O que a gente fez hoje foi organizar a nossa indignação. O cansaço dos profissionais é o mesmo cansaço dos usuários que chegam aqui todos os dias. Isso não é só um problema estrutural, é um problema social e político. A gente está falando de um território que sofre com racismo ambiental, com políticas que reduzem a potência de viver das pessoas. E a saúde coletiva que a gente defende é justamente o contrário disso: é produção de vida, é dignidade”, complementa ele.
As imagens a seguir são de moradores e organizadores do ato e refletem a precariedade da USF.

















Contexto nacional
A situação relatada na USF Mudança de Vida reflete desafios estruturais enfrentados pela atenção básica no Brasil. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a Estratégia Saúde da Família é responsável por atender cerca de 75% da população brasileira, sendo considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (Sus).
No entanto, estudos de instituições como a Fiocruz apontam que problemas como subfinanciamento, infraestrutura precária e desigualdades regionais impactam diretamente a qualidade do atendimento, sobretudo em territórios periféricos.
Pesquisas também indicam que a precarização das condições de trabalho na saúde básica contribui para o adoecimento dos profissionais e para a redução da capacidade de resposta do sistema, afetando principalmente populações em situação de vulnerabilidade social.
Mobilização deve continuar
Os moradores informaram que novas ações devem ser realizadas nas próximas semanas, caso não haja resposta do poder público. Até o fechamento desta matéria, a Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa não havia se manifestado sobre as denúncias apresentadas durante o ato. Encaminhamos solicitação de posicionamento à Secretaria de Comunicação da Prefeitura de João Pessoa e seguimos abertos ao envio de esclarecimentos e manifestações por parte da gestão municipal.
